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ED 025

A base que a CIA levou 24 anos para nomear

Em novembro de 1989, um homem apareceu na televisão de Las Vegas dizendo ter trabalhado com nave numa instalação ao sul do lago Groom.

Pista e hangares de uma base militar isolada num leito de lago seco no deserto de Nevada.

Deserto de Nevada, lago Groom, 1989

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Em novembro de 1989, a KLAS-TV, afiliada da CBS em Las Vegas, colocou no ar uma entrevista em que um homem de rosto descoberto afirmava ter passado alguns meses de 1988 e 1989 trabalhando em engenharia reversa de uma aeronave de origem não humana, numa instalação ao sul do lago Groom, no deserto de Nevada. Ele chamou o lugar de S-4 e disse que a chegada ao trabalho era feita de ônibus com as janelas cobertas.

O repórter que conduziu a conversa era George Knapp, jornalista da casa. Meses antes, em maio, o mesmo entrevistado tinha aparecido em silhueta e sob o apelido de Dennis. Na segunda ida ao ar, o nome completo foi ao vídeo, e o noticiário noturno de uma cidade de cassinos virou o ponto de partida de um assunto que atravessou três décadas.

O conteúdo da entrevista era específico ao ponto de ser conferível. O entrevistado descreveu nove discos guardados em hangares escavados na encosta, um sistema de propulsão que não usava combustível químico, e um elemento pesado que ele chamou de 115, então inexistente na tabela periódica pública.

O detalhe que sustentou a história por tanto tempo não estava na parte extraordinária dela. Estava na geografia. Para acusar a existência de um laboratório clandestino ao sul do lago Groom, era preciso primeiro aceitar que existia alguma coisa oficial no próprio lago Groom, e naquele novembro o governo dos Estados Unidos não reconhecia nem a instalação, nem o nome, nem a linha de crédito no orçamento.

O território estava lá. Qualquer pessoa com um mapa topográfico do serviço geológico americano via o leito seco e a pista. Havia voos diários de passageiros saindo de um terminal cercado no aeroporto de Las Vegas com destino não declarado. Havia uma faixa de espaço aéreo permanentemente fechada.

A história do técnico e a história da base correm em trilhos separados, e vale começar pela parte que ele afirmou.

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I  A Conspiração do Dia

O homem que disse ter visto o disco

A tese diz que o governo americano mantém, num complexo de hangares ao sul do lago Groom, aeronaves de origem não terrestre em programa de engenharia reversa, financiado fora do orçamento visível e protegido por um regime de sigilo que nem o Congresso audita por inteiro.

O primeiro argumento é o testemunho direto. O entrevistado afirmou ter sido contratado como físico, transportado de ônibus com vidros vedados e levado a um conjunto de nove portas embutidas numa encosta com inclinação idêntica à do terreno. Descreveu o interior de uma das naves com detalhe de mobiliário e altura de teto.

O segundo argumento é a antecipação química. Ele falou de um elemento superpesado de número atômico 115 como combustível de um reator, numa época em que a tabela periódica parava bem antes. O elemento 115 foi sintetizado por russos e americanos em 2003 e batizado de moscóvio em 2016, com meia vida de frações de segundo e nenhuma propriedade parecida com a descrita, mas o número ficou.

O terceiro argumento é a papelada avulsa. Circulou um contracheque com retenção de imposto atribuído a uma repartição chamada Naval Intelligence, uma listagem em catálogo telefônico de um laboratório nacional no início dos anos 1980, e o relato de conhecidos levados por ele ao deserto para ver testes noturnos em datas marcadas com antecedência.

Uma pergunta atravessa o caso inteiro: se o relato inteiro nasceu inventado, por que a parte mais fácil de derrubar, a existência de uma instalação secreta grande naquele ponto exato do mapa, foi justamente a que o governo acabou confirmando?

O que a tese cobra da defesa: explicar por que um homem sem holerite público, sem registro acadêmico localizável e sem qualquer ganho financeiro declarado escolheu apontar para uma coordenada que na época era oficialmente vazia e que depois deixou de ser.

Há a questão do currículo. Ele afirmou diplomas em duas instituições americanas de primeira linha, e nenhuma delas encontrou registro de matrícula ou colação.

Há a questão da ficha criminal. Em 1990, ele foi condenado em Nevada por envolvimento em um esquema ligado a prostituição, e em 2006 respondeu na esfera federal por venda de material químico controlado sem licença. Nenhuma das duas condenações prova mentira sobre naves, e as duas atrapalham o argumento de testemunha impecável.

A tese depende de o relato ter aberto uma porta real, e não de a coincidência geográfica ter sido escolhida com esperteza por quem já conhecia o deserto. Falta saber de onde a base entrou na conversa.

 
 

II  A Origem

A entrevista de treze de novembro

A origem pública do assunto tem data, canal e horário. Em 13 de novembro de 1989, o telejornal da KLAS-TV de Las Vegas abriu uma série de reportagens de George Knapp com o entrevistado identificado pelo nome, e o mapa de Nevada ganhou uma segunda coordenada célebre.

O primeiro fio é o formato local. A reportagem não nasceu em rede nacional nem em revista científica, e sim em jornalismo de afiliada, com repórter de casa e material de arquivo do deserto, o que deu ao relato textura de matéria sobre um vizinho, e não de denúncia distante.

O segundo fio é o terreno já ocupado. Desde os anos 1950 corriam relatos de luzes estranhas na região, alimentados por décadas de voo de protótipos que ninguém podia comentar. O U-2 subiu ali em 1955 a altitudes que nenhum avião comercial alcançava, e pilotos de linha que avistavam um brilho prateado ao entardecer ligavam para a torre.

O terceiro fio é a geografia aberta ao público. Quem subisse a colina conhecida como White Sides enxergava a instalação a olho nu, e ônibus de curiosos estacionavam na estrada de terra com binóculo e teleobjetiva. A imagem que a imprensa mundial usou nos anos seguintes saiu dessas encostas.

"O que aconteceu foi que uma reportagem local sobre um homem virou, em poucos meses, a reportagem internacional sobre um lugar."

George Knapp, entrevista à emissora KLAS-TV de Las Vegas, série sobre a instalação de Nevada, 1989.

O quarto fio é a ampliação do perímetro. Em 1984, a Força Aérea retirou do uso público milhares de hectares em volta da instalação, e em 1995 uma segunda retirada fechou os últimos pontos de observação. Cada cerca nova rendeu manchete.

O quinto fio é o processo judicial. Em 1994, ex-funcionários entraram na Justiça alegando queima a céu aberto de resíduos tóxicos no local. O governo respondeu que não podia confirmar a existência da instalação, e o presidente assinou, ano após ano, uma dispensa das leis ambientais para uma localidade descrita apenas como uma área operacional perto do lago Groom.

A soma explica por que o caso nunca fecha. Uma acusação sem prova encontrou um lugar cuja negativa oficial já era estranha por conta própria.

O detalhe que mudou o debate foi burocrático. Ao pedir dispensa ambiental para um endereço que dizia não existir, o Executivo americano produziu papel assinado sobre uma instalação inominada, e a defesa jurídica do sigilo virou, na prática, a primeira confissão de que havia algo a proteger.

Falta a parte que manteve o assunto de pé mesmo depois de o segredo cair, e ela depende de um documento sobre um avião espião.

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III  O Combustível

O nome que saiu de um relatório do U-2

A tese resiste porque o cenário dela deixou de ser hipótese. Em junho de 2013, atendendo a um pedido de acesso apresentado por pesquisadores do Arquivo de Segurança Nacional na universidade George Washington, a CIA liberou uma versão bem menos censurada de uma história interna dos programas U-2 e OXCART, escrita por Gregory Pedlow e Donald Welzenbach.

O que exige cuidado é o salto seguinte, o de tratar o reconhecimento de uma base como aval do conteúdo do relato de 1989. A conclusão firme cabe numa linha: o documento confirmou o endereço e a atividade de aviação experimental, e não mencionou nave alguma.

O que está documentado: a seleção do leito seco em abril de 1955 por uma equipe da Lockheed e da CIA, o apelido Paradise Ranch usado para atrair técnicos ao deserto, o primeiro voo do U-2 em agosto do mesmo ano e o uso posterior do campo para o A-12 e para aeronaves de baixa observabilidade.

O que a defesa da tese sustenta: que uma instalação capaz de esconder por trinta anos a existência de programas inteiros de aviação, incluindo aeronaves que só foram apresentadas ao público muito depois de operacionais, é exatamente o tipo de lugar em que um programa mais estranho caberia sem vazar.

O que continua em disputa: se o relato de 1989 nasceu de acesso real a alguma parte do complexo, de conversa de bar bem informada, ou de invenção montada sobre boatos que já circulavam entre trabalhadores do deserto desde a década anterior.

Os números que costumam circular no assunto, com a origem de cada um:

·  Seleção do leito seco de Groom para o programa U-2: abril de 1955
·  Entrevista com o nome do técnico ao vivo na KLAS-TV: 13 de novembro de 1989
·  Primeira retirada de terras públicas para bloquear a vista: 1984
·  Fechamento dos últimos pontos de observação: 1995
·  Liberação do relatório da CIA que nomeia o lugar: junho de 2013

O ponto mais frágil da versão popular é a ausência de segunda fonte. Um lugar que empregou milhares de pessoas por décadas produziu delatores sobre resíduo tóxico e condições de trabalho, e nenhum segundo técnico disposto a descrever hangar de disco com a mesma riqueza de detalhe.

Há também a confusão entre secreto e sobrenatural. Um campo de provas onde se voava, nos anos 1970, uma aeronave facetada que devolvia ao radar o eco de um rolamento de esfera explica sozinho boa parte das luzes que moradores viram e não souberam nomear.

E existe o efeito da própria negação. Enquanto a resposta oficial foi não confirmar nem negar, cada evidência banal, um ônibus, um voo, uma cerca, virava pista de algo maior, porque nenhuma explicação inocente estava autorizada a existir.

Então por que a teoria continua crescendo mesmo com o documento na mesa? Porque a parte mais improvável dela já saiu do campo da fé. Existe mesmo uma base cuja existência foi negada por quase sessenta anos e admitida por escrito só em 2013, e depois de uma frase dessas qualquer capítulo seguinte soa plausível por comparação.

O caso de Nevada é o exemplo raro em que a confirmação oficial trabalhou a favor da lenda. O relatório de 2013 provou a base e não provou a nave, mas o hábito de negar por décadas ensinou o público a ler cada desmentido como confirmação atrasada, que é exatamente o combustível de que a teoria vive.

"Quando o Estado nega por sessenta anos algo que existe, quanto vale o desmentido seguinte?"

 
 
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Em que data a KLAS-TV foi ao ar com a entrevista em que o nome completo do técnico apareceu pela primeira vez?

A13 de maio de 1989
B13 de novembro de 1989
C13 de novembro de 1990
D24 de novembro de 1989

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