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A bobina que deixava um navio invisível em 1943
A tese diz que a Marinha americana apagou o contratorpedeiro Eldridge do cais da Filadélfia em outubro de 1943 e o pôs em Norfolk no mesmo dia.
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Estaleiro da Filadélfia, outubro de 1943
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No fim de 1939, navios começaram a afundar no litoral inglês sem que nenhum torpedo cruzasse a água. A arma nova ficava deitada no fundo de areia e esperava. Quando o casco de aço passava por cima, o campo magnético do próprio navio fechava o circuito da espoleta.
Em poucos meses a arma tinha posto no fundo dezenas de navios mercantes e obrigado a Marinha britânica a fechar rotas inteiras de costa. Ninguém sabia como o gatilho funcionava, porque ninguém tinha uma peça inteira nas mãos.
Em 23 de novembro de 1939, uma dessas minas caiu no lodo de Shoeburyness, na foz do Tâmisa, e não explodiu. Uma equipe da Marinha desmontou o artefato ali mesmo, parafuso por parafuso, com a maré subindo, e descobriu como ele enxergava.
A resposta virou rotina de estaleiro em poucos meses. Enrolava-se cabo de cobre em volta do casco, passava-se corrente elétrica e o campo magnético do navio era neutralizado. O oficial britânico Charles Goodeve batizou a operação com o nome da unidade de medida do magnetismo.
Os manuais diziam que o procedimento deixava o navio invisível. Invisível para a mina, para a espoleta, para o instrumento que media o campo magnético, nunca para o olho de quem estava no cais. Em 1943 a palavra circulava assim em papel de estaleiro dos dois lados do Atlântico.
O Estaleiro Naval da Filadélfia fazia o serviço em série. Era um dos maiores complexos navais americanos, com cerca de quarenta mil trabalhadores no auge da guerra, cascos entrando e saindo em fila, guindaste, cabo e turno de vinte e quatro horas.
Foi nesse pátio, e com essa palavra técnica, que uma história começou a ser contada treze anos depois. Ela pegou o vocabulário de 1943 e o entendeu no sentido que qualquer pessoa entenderia primeiro: o navio some da vista.
O que a tese afirma tem hora, cais e nome de navio, e cabe contar item por item.
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I A Conspiração do Dia
O cais da Filadélfia e a neblina verde
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Uma neblina esverdeada, um cais vazio e um envelope escrito à mão treze anos depois.
A tese diz que, em 28 de outubro de 1943, o contratorpedeiro de escolta USS Eldridge desapareceu do cais do Estaleiro Naval da Filadélfia. Não por camuflagem nem por fumaça de cortina: por sumiço físico de casco, mastro, chaminé e tripulação.
Na versão mais contada, o teste começou com os geradores ligados e uma neblina esverdeada subindo em volta do navio. O contorno do casco teria ficado turvo, depois transparente, e no lugar dele restaria uma marca de água aberta entre o cais e a amarra.
Minutos depois, o Eldridge teria aparecido em Norfolk, na Virgínia, a cerca de trezentos e vinte quilômetros dali. Ficou o tempo de ser visto por marinheiros de outro navio e voltou para o mesmo cais da Filadélfia no mesmo dia.
A tese também cobra um preço da tripulação. Os homens teriam voltado desorientados, alguns presos ao aço do convés, e o programa teria sido interrompido e classificado no mesmo mês.
Há ainda uma data anterior no relato. Em 22 de julho de 1943 teria acontecido um primeiro teste, mais fraco, em que o navio ficou apenas translúcido e continuou visível como um vulto.
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A neblina subiu e no lugar do navio restou água aberta entre o cais e a amarra.
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A origem científica atribuída: a tese diz que o método saiu da teoria do campo unificado de Albert Einstein, entregue à Marinha e depois retirada de circulação junto com o resto da papelada.
O relato inteiro se apoia num nome só. Carlos Miguel Allende dizia ter assistido a tudo do convés do cargueiro SS Andrew Furuseth, ancorado por perto, e descrevia a manobra com hora, cor da neblina e reação dos marinheiros.
A tese ainda guarda uma cena de rua. Allende dizia existir um recorte de jornal sobre marinheiros que sumiram diante das garçonetes de um bar da Filadélfia, e usava a nota como prova do estado em que a tripulação teria ficado.
A tese costuma vir acompanhada de circunstâncias que a sustentam por fora. A guerra corria, o sigilo era real, o estaleiro tinha área fechada ao público e a Marinha classificava projeto por lote, sem explicar nada a ninguém.
Cada um desses pontos tem explicação fora da tese, e nenhum deles coloca um navio em dois portos no mesmo dia. Juntos, formam a textura que faz a história parar de pé.
O que a tese exige no fim é simples de enunciar e nada simples de sustentar: um casco de noventa e três metros saindo da vista num cais movimentado, com centenas de operários por perto e livro de bordo aberto.
Falta explicar de onde veio a história, porque ela não nasceu em 1943.
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II A Origem
As cartas de Carlos Allende para um astrônomo
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Nenhum documento de 1943 menciona o desaparecimento de um navio na Filadélfia. A história aparece pela primeira vez treze anos depois, escrita à mão, dentro de envelopes endereçados a um astrônomo americano.
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Em 1955, Morris K. Jessup publicou The Case for the UFO pela Citadel Press, em Nova York. Era um livro sobre discos voadores, com uma tese conhecida: a ciência oficial teria a chave de uma propulsão nova e a manteria fora do alcance do público.
Em janeiro de 1956 começaram a chegar cartas ao autor. Vinham assinadas por Carlos Miguel Allende, às vezes por Carl M. Allen, e traziam a história do Eldridge do começo ao fim, com a neblina, o cais vazio e a ida a Norfolk.
O remetente existia mesmo. Carl Allen tinha servido no SS Andrew Furuseth, e o nome dele aparece na lista de tripulação do cargueiro. A parte verificável do relato é justamente a que não afirma nada de extraordinário.
O segundo movimento saiu das mãos do autor. Em 1956, um exemplar do livro chegou ao Escritório de Pesquisa Naval, em Washington, coberto de anotações em três cores de tinta, comentando cada trecho como se três leitores conversassem na margem.
Dois oficiais do escritório, o comandante George Hoover e o capitão Sidney Sherby, acharam o material curioso o bastante para reproduzir. A Varo Manufacturing Company, de Garland, no Texas, rodou cerca de cento e vinte e sete cópias mimeografadas em 1957.
A edição da Varo nunca entrou em livraria. Ela circulou de mão em mão por vinte anos, e cada cópia levava junto o carimbo mais valioso da história: o endereço de um escritório da Marinha americana na primeira página.
O salto para o grande público veio em 1979, com The Philadelphia Experiment: Project Invisibility, de William Moore e Charles Berlitz. Berlitz vinha de vender milhões de exemplares com O Triângulo das Bermudas, de 1974, e sabia montar mistério em capítulo curto.
Em 1984 o cinema fechou o serviço. O filme dirigido por Stewart Raffill pôs dois marinheiros atravessando o tempo a partir do teste, e a história passou a circular como enredo de ficção, não mais como carta de leitor.
A partir dali ela ganhou documentário de televisão, depois fórum de internet, depois vídeo curto. O formato ajudava: um navio, uma data, uma neblina verde e um segredo militar. Cabe em trinta segundos.
Falta dizer o que o próprio remetente declarou depois. Em 1969, num escritório da APRO, em Tucson, no Arizona, Carl Allen afirmou que as anotações no livro eram invenção dele. Nos anos seguintes voltou atrás e reafirmou o relato.
O suposto experimento é de 1943. A primeira menção a ele é de 1956, manuscrita, e o público chegou de 1979 em diante, quando o assunto virou livro de banca e depois filme.
Falta a parte que a tese não escolheu, e que estava num canal, num livro de bordo e num rolo de cabo de cobre.
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