|
|
| {{subiu_orn | }} |
{{subiu_num | }} |
{{subiu_orn | }} |
{{subiu_caps | }}
{{subiu_linha | }}
|
|
A carta que apareceu a quatro dias do voto
O Daily Mail publicou o texto em 25 de outubro de 1924; o estudo encomendado pelo Foreign Office em 1999 concluiu que o documento era falso.
|
Londres, 1924, a carta na primeira pagina
|
| ▼ |
| |
|
"Civil War Plot by Socialists' Masters", plano de guerra civil pelos patrões dos socialistas, foi a manchete que o jornal britânico Daily Mail estampou na primeira página de 25 de outubro de 1924, um sábado, quatro dias antes da eleição geral marcada para 29 de outubro.
Abaixo da manchete vinha o texto integral de uma carta datada de 15 de setembro daquele ano, endereçada ao Partido Comunista da Grã-Bretanha e assinada por Grigory Zinoviev, então presidente do comitê executivo da Internacional Comunista, em Moscou.
O conteúdo era o que a campanha conservadora vinha afirmando havia semanas sem prova documental. A carta pedia mobilização de simpatizantes dentro das forças armadas britânicas, pressão sobre o Parlamento para ratificar os tratados comerciais negociados com a União Soviética e preparação de células capazes de agir em uma crise futura.
O governo trabalhista de Ramsay MacDonald estava no décimo mês de mandato e era minoritário desde a posse em janeiro. MacDonald acumulava a chefia do governo e o comando do Foreign Office, o ministério britânico das relações exteriores, e naquela semana fazia campanha na Escócia e no País de Gales, longe de Londres.
Na mesma edição, ao lado da carta, o jornal publicou uma nota de protesto formal do Foreign Office ao encarregado de negócios soviético em Londres. A nota tratava o documento como autêntico e saiu com a assinatura do primeiro-ministro em um texto cuja versão final ele não havia aprovado palavra por palavra.
A sequência de horas importa. O documento chegara ao serviço secreto britânico no começo de outubro, circulara por escalões do Foreign Office, do Almirantado e do Ministério do Interior, e apareceu impresso em um jornal de oposição antes de qualquer verificação sobre a origem da folha, quem a datilografara e por qual rota ela chegara a Londres.
Setenta e cinco anos depois, o próprio Foreign Office encomendou um estudo interno sobre o episódio, com acesso a arquivos fechados até então. A historiadora Gill Bennett entregou o trabalho em 1999, e a conclusão apontou duas direções ao mesmo tempo: a carta era falsa, e o caminho dela até a imprensa passava por dentro da própria casa.
Comece pelos quatro dias que separaram a manchete das urnas, e pelo que o governo fez em cada um deles.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Conspiração do Dia
Quatro dias entre a manchete e as urnas
|
|
A tese diz que um documento nunca autenticado decidiu o tom final de uma eleição nacional, que a resposta oficial do governo saiu antes da checagem, e que a imprensa recebeu o texto de alguém com acesso funcional ao material do serviço secreto.
A eleição de 29 de outubro de 1924 já estava marcada por outro motivo. O governo minoritário caíra no começo do mês, derrotado em uma votação parlamentar sobre a retirada de um processo criminal contra John Ross Campbell, editor de um jornal comunista, acusado por um artigo dirigido a soldados.
A campanha conservadora vinha tratando o gabinete trabalhista como intermediário involuntário de Moscou, principalmente por causa dos tratados comerciais anglo-soviéticos assinados em agosto, que previam empréstimo com garantia do governo britânico. O argumento circulava em comício e em editorial, sem documento que o sustentasse.
A carta preencheu exatamente a lacuna. Ela não trazia novidade factual sobre a política britânica, trazia a assinatura de um dirigente soviético debaixo de instruções operacionais, e servia como confirmação escrita de uma acusação já formulada.
O governo teve três dias úteis para responder e usou mal os três. O Foreign Office decidiu emitir protesto ao representante soviético, um rascunho foi preparado em Londres e enviado a MacDonald em campanha, ele devolveu o texto com marcas de revisão, e funcionários interpretaram as marcas como autorização de envio. A nota saiu, e saiu para os jornais.
|
"O que o caso revela não é uma conspiração única e organizada, mas uma comunidade pequena de pessoas que se conheciam, que compartilhavam suposições políticas e que agiram cada uma segundo o que julgava ser o interesse nacional."
Gill Bennett, em "The Zinoviev Letter: The Conspiracy That Never Dies", Oxford University Press, 2018.
|
|
A pergunta que o caso deixa de pé: por qual rota exata o texto saiu de um cofre oficial e chegou à redação de um jornal de oposição.
|
MacDonald escolheu não desmentir e não confirmar. Em discurso em Cardiff, disse que a autenticidade estava sob exame e que o público julgaria. A ambiguidade foi lida como confissão por adversários e como confusão por aliados, e ele reclamou depois, em carta privada, de ter sido posto diante de um fato consumado pela própria administração.
O resultado das urnas mudou a aritmética do Parlamento. Pelos registros da Câmara dos Comuns, os conservadores saíram com 412 cadeiras e formaram governo com Stanley Baldwin; os trabalhistas perderam cadeiras mesmo com aumento de votos absolutos, e os liberais encolheram de mais de cem parlamentares para pouco mais de quarenta.
Falta entender de onde saiu o papel que ninguém conseguiu rastrear até Moscou.
|
|
|
|
|
II A Origem
Riga, Berlim e um mercado de documentos russos
|
|
A origem tem um mercado e uma rota. Desde a revolução de 1917, grupos de emigrados russos instalados em Riga, Berlim e Paris viviam da venda de documentos supostamente vazados de órgãos soviéticos para serviços de inteligência ocidentais, que pagavam por peça entregue.
|
O primeiro fator é a demanda paga. Os serviços britânicos mantinham redes de informantes na região do Báltico e compravam material avulso, sem cadeia de custódia, de intermediários que cobravam por documento e tinham incentivo direto para produzir volume.
O segundo fator é a oferta profissional. Existiam oficinas de falsificação conhecidas dos próprios serviços ocidentais, algumas já identificadas em casos anteriores, capazes de reproduzir papel timbrado, formato de expediente e vocabulário burocrático da Internacional Comunista com fidelidade suficiente para enganar leitor apressado.
O terceiro fator é a rota até Londres. A carta chegou ao Secret Intelligence Service, o SIS, por uma estação no exterior, em cópia, sem o original. O serviço distribuiu o texto a ministérios com uma avaliação de autenticidade que se apoiava na reputação da fonte, não em exame do documento.
O quarto fator é a circulação interna. Em poucos dias, cópias estavam no Foreign Office, no Almirantado, no Ministério do Interior e em mãos de oficiais que se opunham abertamente ao governo trabalhista e ao tratado com Moscou. O universo de pessoas com acesso era pequeno e conhecido.
O quinto fator é o canal partidário. O estudo de 1999 registrou a proximidade entre oficiais do serviço, entre eles Desmond Morton, e o escritório central do Partido Conservador, onde trabalhava Joseph Ball, ex-oficial de inteligência que depois assumiu a área de pesquisa política da legenda.
O sexto fator é a negativa de Moscou. Zinoviev desmentiu a autoria por telegrama já em 27 de outubro, e o governo soviético pediu arbitragem internacional para examinar o documento. O pedido foi recusado pelo novo gabinete britânico, e o original nunca apareceu.
Falta ver o que o estudo encomendado pelo Foreign Office conseguiu estabelecer sobre os dois pontos.
|
| |
|