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O que alimenta a leitura brasileira é uma disputa real sobre o que conta como voo, e nessa disputa Santos Dumont tem argumento que dispensa contrato.
Em Kitty Hawk, o Flyer partiu de um trilho de madeira, contra vento forte, e o voo mais longo do dia, com Wilbur nos comandos, durou 59 segundos e cobriu 260 metros.
Havia cinco testemunhas, quase todas homens da estação de salvamento de Kill Devil Hills. Um deles, John T. Daniels, apertou o disparador da câmera dos irmãos e fez a foto do primeiro voo. A imagem só saiu em revista anos depois.
A partir de 1904, em Huffman Prairie, no estado de Ohio, os Wright passaram a decolar com uma catapulta de torre e peso. Para os defensores de Santos Dumont, avião que precisa de trilho, vento ou catapulta ainda não voa sozinho.
O 14-bis decolou só com rodas e motor, em campo aberto, diante de comissão oficial. O Aéro-Club de France homologou o voo de 12 de novembro de 1906 como recorde mundial, o primeiro da aviação registrado por uma entidade.
O argumento americano é outro: controle nos três eixos (subir e descer, virar para os lados e inclinar as asas). Os Wright resolveram os três com a torção das asas em 1903; o 14-bis de 1906 era instável e mal fazia curva.
O próprio Santos Dumont reconheceu a qualidade dos rivais depois de 1908 e seguiu adiante com o Demoiselle, monoplano leve que desenhou entre 1907 e 1909 e cujos planos liberou sem cobrar patente.
A disputa sobre quem voou primeiro depende da definição de voo, e cada país escolhe a sua. O contrato de 1948 não entra nela: foi escrito para Langley e Whitehead, e deixa 1906 fora de alcance.
O que o caso estabeleceu: a cláusula existe e vale até hoje, mas protege o Flyer só contra aparelhos anteriores a 1903; o 14-bis, de 1906, fica fora dela, e o contrato nasceu da briga de Orville com a Smithsonian por causa do Aerodrome de Langley.
O que continua sem resposta: se Gustave Whitehead voou em 1901. A foto que jornais da época descreveram nunca foi encontrada, e sem ela os historiadores seguem divididos.
"Se o contrato mirava Santos Dumont, por que ele fala só de aviões anteriores a 1903?"
Confira sozinho, em três buscas: a data do contrato entre a Smithsonian e o espólio de Orville Wright, 23 de novembro de 1948; o voo do 14-bis em Bagatelle, em 12 de novembro de 1906, homologado pelo Aéro-Club de France; as desculpas do secretário Charles Greeley Abbot sobre o Aerodrome de Langley, publicadas em 1942.
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