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ED 047

100% escolheram Teoria da internet morta. Aqui está.

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A internet vazia: o post de 2021 que jurou que a web virou robô

Um usuário chamado IlluminatiPirate reuniu num fórum de nicho a tese de que a rede acabou em 2016, e as medições de tráfego deram parte da razão.

Monitor antigo aceso numa sala vazia mostrando linhas de comentários idênticas rolando sozinhas.

O fórum onde a tese ganhou forma, 2021

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A revista The Atlantic publicou em 31 de agosto de 2021 a reportagem de Kaitlyn Tiffany intitulada "Maybe You Missed It, but the Internet 'Died' Five Years Ago", em português "Talvez você não tenha percebido, mas a internet morreu cinco anos atrás". O texto da revista americana tratava de uma tese que até então circulava só em fóruns pequenos, e que dizia uma frase simples: a rede que você usa hoje é quase toda máquina falando com máquina.

A tese ganhou apelido em inglês, dead internet theory, teoria da internet morta. Ela afirma que por volta de 2016 a web deixou de ser um lugar de pessoas escrevendo para pessoas e passou a ser um circuito de programas automáticos que produzem texto, curtidas, comentários e visualizações para outros programas automáticos medirem. Sob essa leitura, o leitor humano virou minoria dentro do próprio sistema que foi feito para ele.

Na versão mais dura, a substituição seria deliberada, coordenada por governos e plataformas para conduzir o que as pessoas pensam. Na versão mais branda, ninguém precisou combinar nada: a soma de raspadores de conteúdo, fazendas de cliques, contas falsas vendidas por atacado e geradores de texto produziu sozinha o mesmo resultado.

O incômodo que sustenta a tese é reconhecível para quem passa o dia na rede. O comentário genérico sob o vídeo. A resposta que repete uma frase pronta. O site que reescreve a notícia de outro site que já reescrevia um terceiro. A busca que devolve dez páginas com o mesmo parágrafo trocado de ordem.

Os números de tráfego automatizado existem, têm dono, e não dizem exatamente o que a tese diz. A empresa de segurança Imperva mede tráfego de bots na web desde a década passada e publica o resultado todo ano. Os relatórios dela cruzam com a data que a teoria escolheu, e é dali que sai a parte verificável desta história.

A tese começa por um teste que qualquer leitor aplica em si mesmo sem sair da cadeira.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Conspiração do Dia

O fórum que declarou a web vazia

A afirmação central da teoria da internet morta é que a web foi esvaziada de humanos por volta de 2016 e substituída por conteúdo gerado automaticamente, com uma finalidade: manter a aparência de movimento enquanto a conversa real migrou para grupos fechados ou simplesmente acabou.

O teste que acompanha a tese é de observação direta. Abra a seção de comentários de um vídeo popular e conte quantas respostas dizem algo específico sobre o vídeo. Procure a mesma notícia em quatro sites diferentes e veja quantas frases se repetem palavra por palavra. Pesquise uma dúvida prática e conte quantos resultados foram escritos por alguém que já fez aquilo.

O argumento tem a mesma trava dos dossiês que a Conspiração do Dia costuma desmontar. Se você encontra gente real, a resposta pronta é que você caiu numa das poucas ilhas restantes. Se não encontra, a tese se confirma. Nenhuma observação derruba a afirmação, e uma ideia que não pode ser contrariada por observação nenhuma deixou de ser hipótese.

A parte que resiste à checagem é a medição. A Imperva, empresa de segurança da informação hoje ligada ao grupo francês Thales, publicou no Bad Bot Report de 2017 que os programas automáticos responderam por 51,8% de todo o tráfego da web em 2016, contra 48,2% de humanos. No relatório de 2024, a mesma empresa registrou 49,6% de tráfego automatizado em 2023, com 32% classificados como bots maliciosos.

Repare no que esses números medem e no que não medem. Eles contam requisições feitas a servidores monitorados pela empresa, o que inclui rastreadores de buscadores, monitores de preço, raspadores e ataques. Eles não contam quantos comentários numa rede social foram escritos por gente, nem quanto do texto que chega a uma pessoa num dia foi produzido por máquina.

O jornalista Max Read escreveu na revista New York em 26 de dezembro de 2018 o texto "How Much of the Internet Is Fake? Turns Out, a Lot of It, Actually", em português "Quanto da internet é falso? Um bocado, na verdade". Ele relata que engenheiros do YouTube conviveram com o temor de um ponto de virada em que o sistema antifraude passaria a tratar o tráfego humano como suspeito, por ser o menos frequente.

A distância entre as duas afirmações é a espinha desta edição. Que a maior parte das conexões seja automática já era verdade medida em 2016, e o rastreador que indexa uma página para o buscador não engana ninguém. Que a maior parte do que uma pessoa lê seja escrita por máquina é uma afirmação distinta, sem medição pública equivalente, e é justamente essa que o post fundador faz.

 
 

II  A Origem

O post de janeiro de 2021

A origem escrita da tese é um post assinado pelo usuário IlluminatiPirate, publicado em 5 de janeiro de 2021 no fórum Agora Road's Macintosh Cafe, um site pequeno de estética retrô dedicado a nostalgia de computação e música, sob o título "Dead Internet Theory: Most Of The Internet Is Fake".

O texto não era curto nem improvisado. Reunia capturas de tela, links para discussões antigas, listas de sites que o autor considerava esvaziados e uma cronologia que colocava a virada entre 2016 e 2017. A forma imitava um dossiê: hipótese, indícios, suspeitos, conclusão.

"The Internet feels empty and devoid of people."

A internet parece vazia e sem pessoas. IlluminatiPirate, post no fórum Agora Road's Macintosh Cafe, 5 de janeiro de 2021.

O autor não inventou a ideia sozinho. Ele mesmo aponta que vinha reunindo material que circulava desde 2016 em conversas de fóruns anônimos, entre eles o quadro de negócios do 4chan e o Wizardchan, onde usuários repetiam que os mesmos textos e as mesmas imagens reapareciam em lugares diferentes com autores diferentes.

Kaitlyn Tiffany, na reportagem da The Atlantic de 31 de agosto de 2021, entrevistou o autor do post e registrou a parte que quase todo compartilhamento posterior deixou pelo caminho: ele descreveu a própria tese como meio séria, dizendo acreditar na descrição do sintoma e não necessariamente na conspiração coordenada que o texto sugere. A reportagem também contém o dado biográfico que a tese dispensa, já que IlluminatiPirate falou sob pseudônimo e a identidade civil permanece sem divulgação pública, por escolha dele.

O fórum onde o texto saiu tinha público restrito e nenhuma projeção fora do nicho. A tese só alcançou escala quando a reportagem da revista americana a resumiu para um público que nunca tinha ouvido falar do Agora Road, e daí seguiu para vídeo, post de rede social e matéria de portal.

A cronologia seguinte fez o resto do trabalho. Desde o fim de 2022, com programas de geração de texto acessíveis a qualquer pessoa, a frase de 2021 passou a soar menos absurda: o que a tese acusava de já existir virou ferramenta vendida por assinatura, usada para produzir artigo, comentário e perfil em escala industrial.

O texto fundador, portanto, tem endereço, data e um autor que conversou com jornalista. Nada nele é secreto. O que ficou obscuro foi o caminho inverso: quanto do que a tese afirmava em 2021 era descrição do presente e quanto era previsão que o mercado cumpriu depois.

 

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III  O Combustível

Quatro engrenagens que mantêm a tese viva

A primeira engrenagem é a parte verdadeira. Fazendas de conteúdo, perfis comprados e cliques automatizados existem, são vendidos abertamente e aparecem nos relatórios de segurança com número e percentual. Uma tese que começa num fato checável carrega o resto da carga sem esforço.

A segunda engrenagem é a experiência comum. Qualquer pessoa que passe uma hora numa rede social encontra o comentário vazio e o texto reciclado. A teoria oferece explicação pronta para um desconforto anterior ao post, e explicação pronta vence descrição complicada.

A terceira engrenagem é a blindagem do argumento. Como resposta humana é lida como exceção e ausência de resposta é lida como confirmação, o debate nunca produz saldo. Quem defende a tese sai da conversa com a impressão de ter vencido, independentemente do que apareceu na tela.

A quarta engrenagem é o calendário. A tese datou o colapso em 2016 e, seis anos depois, a produção automática de texto virou produto de prateleira. Uma previsão que parece cumprida depois do prazo ganha crédito retroativo, mesmo quando o mecanismo descrito no original era outro.

Contra a tese trabalha a aritmética das plataformas. Empresas que vivem de publicidade perdem dinheiro quando o inventário é falso, porque o anunciante audita e pede reembolso, e investem em detecção e excluem tráfego automatizado da contagem que vendem. Uma rede inteiramente robótica quebraria o próprio negócio que a teoria acusa de sustentá-la.

Contra a tese trabalha também o que as pessoas fazem fora da vitrine. A conversa humana migrou em massa para grupos de mensagem, servidores fechados e listas de assinatura, espaços que nenhum medidor público de tráfego enxerga. A web aberta esvaziou de conversa, e esse esvaziamento tem explicação de mudança de hábito antes de ter explicação de complô.

O que o caso estabeleceu: IlluminatiPirate publicou o texto fundador em 5 de janeiro de 2021 no fórum Agora Road's Macintosh Cafe; a Imperva mediu 51,8% de tráfego automatizado em 2016 e 49,6% em 2023; a The Atlantic levou a tese ao público amplo em 31 de agosto de 2021 e registrou que o próprio autor a tratava como meio séria.

O que continua sem resposta: não existe medição pública de qual fatia do conteúdo lido por uma pessoa comum foi escrita por máquina. As plataformas detêm esse dado e publicam apenas totais de remoção de contas falsas, sem auditoria externa e sem metodologia aberta. A identidade de IlluminatiPirate segue sob pseudônimo, por decisão dele, e a reportagem da The Atlantic não a revela. Sem o dado das plataformas, a parte central da tese continua impossível de checar por fora.

O saldo é desconfortável para os dois lados. A internet não foi substituída por robôs em 2016, e quem repete a frase confunde requisição de servidor com texto lido por gente. A internet também não é o lugar de pessoas que era, e a explicação dessa perda está em decisões comerciais datadas, não numa sala de comando.

A lição prática deste caso: quando um número verdadeiro vem grudado numa afirmação maior, separe os dois antes de repassar, porque o número empresta credibilidade que ele não cobre.

"Quantos dos textos lidos por você hoje foram escritos por alguém que assina o próprio nome?"

Confira sozinho, em três buscas:
o percentual de tráfego automatizado no Bad Bot Report da Imperva do ano passado;
a data do post de IlluminatiPirate no fórum Agora Road e o título original dele;
o que a reportagem da The Atlantic de 31 de agosto de 2021 diz sobre a crença do autor na própria tese.

 
 
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De acordo com o Bad Bot Report de 2017 da Imperva, qual foi a fatia de todo o tráfego da web atribuída a programas automáticos em 2016?

A32%
B48,2%
C51,8%
D49,6%

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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