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A luz no céu antes da queda de Hammarskjöld

Um DC-6 da ONU, um sobrevivente que viu faíscas e cartas sul-africanas com codinome: como a tese do erro do piloto perdeu força em 58 anos.

Destroços de um avião DC-6 numa clareira de floresta africana, com luz no céu noturno.

Ndola, Rodésia do Norte, setembro de 1961

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O New York Times abriu a capa de 19 de setembro de 1961 com a manchete “Hammarskjold Dies in African Air Crash” (Hammarskjöld morre em queda de avião na África). Por trás dessas seis palavras cabia um mapa inteiro da Guerra Fria.

Dag Hammarskjöld, diplomata sueco de 56 anos, era o secretário-geral das Nações Unidas desde 1953. Na noite de 17 de setembro, ele embarcou em Léopoldville, capital do Congo, num DC-6 apelidado de Albertina, fretado da empresa sueca Transair, rumo a Ndola, na antiga Rodésia do Norte, hoje Zâmbia.

A viagem tinha um objetivo só: encontrar Moïse Tshombe, líder da província de Katanga, que tinha declarado independência do Congo e trocava tiros com tropas da ONU havia dias. Hammarskjöld queria um cessar-fogo.

O Albertina sobrevoou o aeroporto de Ndola pouco depois da meia-noite. O piloto avisou a torre que via as luzes da pista. Depois, silêncio. A torre não chamou de volta, e o gerente do aeroporto foi dormir sem dar alarme.

Os destroços apareceram numa clareira de floresta a uns 15 quilômetros da pista, só na tarde do dia 18, mais de 15 horas depois. Quinze pessoas estavam sem vida. O corpo do secretário-geral estava fora da carcaça, encostado num formigueiro, quase sem queimaduras.

Havia um sobrevivente. O sargento americano Harold Julien, chefe da segurança da comitiva, contou no hospital que o avião tinha explodido no ar e que ele viu faíscas no céu. Julien não resistiu às queimaduras e se foi seis dias depois.

A comissão da Federação da Rodésia concluiu em 1962 que a tripulação errou a descida. Moradores da região, carvoeiros que trabalhavam na mata, diziam ter visto um segundo avião, menor, e um clarão. Os investigadores rodesianos descartaram o relato deles.

Quase seis décadas depois, um juiz tanzaniano contratado pela própria ONU escreveu um relatório que mudou o tom da investigação.

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I  A Conspiração do Dia

A palavra plausível

A resposta de ontem

Onde vive hoje Grigory Rodchenkov, o químico de Sóchi?

Grigory Rodchenkov vive nos Estados Unidos sob o programa federal de proteção a testemunhas, em endereço mantido em segredo desde 2016. Ele dá entrevistas por vídeo com o rosto escondido, e em 2020 o Congresso americano aprovou a Lei Rodchenkov, que pune fraude de doping em competições com atletas dos Estados Unidos.

Mohamed Chande Othman, ex-presidente da Suprema Corte da Tanzânia, entregou em 2019 ao secretário-geral António Guterres o relatório final do painel que a ONU montou para reabrir a queda de Ndola.

Othman tinha sido nomeado em 2015 para chefiar um grupo de especialistas independentes. Revisou os autos das comissões de 1962, ouviu testemunhas ainda vivas e pediu documentos a governos de vários países.

A conclusão de 2019 virou a tese aceita por quase 60 anos. O texto diz que um ataque vindo de fora do avião, ou uma ameaça que assustou os pilotos na descida, é explicação plausível para a queda.

“Parece plausível que um ataque ou uma ameaça externa tenha sido causa da queda, seja por um ataque direto, seja por provocar uma distração momentânea dos pilotos.” Mohamed Chande Othman, relatório à Assembleia Geral da ONU, 2019.

O caminho até o relatório

O caso voltou ao debate em 2011, com o livro Who Killed Hammarskjöld? (Quem matou Hammarskjöld?), da historiadora britânica Susan Williams, do Instituto de Estudos da Commonwealth, em Londres.

O livro levou um grupo de juristas a montar, por conta própria, a Comissão Hammarskjöld, presidida pelo juiz britânico Stephen Sedley. Em setembro de 2013, a comissão afirmou haver prova persuasiva de que o avião sofreu ataque ou assédio aéreo e recomendou à ONU reabrir o caso.

A Assembleia Geral aceitou. Othman entregou um primeiro relatório em 2015, outro em 2017 e o de 2019, cada um mais grosso de papéis do anterior.

Os ouvidos de Chipre

Uma das peças mais citadas veio do americano Charles Southall. Em 1961, ele trabalhava para a NSA, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos, numa estação de escuta em Chipre.

Southall contou à comissão Sedley que, naquela noite, ouviu a gravação de um piloto descrevendo pelo rádio um avião iluminado e dizendo que ia atirar. Minutos depois, segundo ele, a voz anunciou que o alvo tinha caído.

A NSA admitiu ter localizado alguns documentos sobre a noite de Ndola e manteve todos em sigilo.

Os arquivos fechados

O relatório de 2019 tem um alvo direto: os governos que ainda guardam papéis. Othman citou os Estados Unidos, o Reino Unido, a África do Sul e a Bélgica entre os países que não demonstraram ter feito busca completa nos próprios arquivos de inteligência.

Sem esses papéis, o juiz não pôde dizer quem atacou, com qual avião, nem a mando de quem. O relatório afirma o que a prova permite: a hipótese do ataque cabe nos fatos, e o erro simples da tripulação já não explica a queda sozinho.

A ONU manteve Othman no posto depois de 2019 para seguir cobrando os governos. Até hoje, nenhum deles entregou documento que feche o caso.

 
 

II  A Origem

Cobre, mercenários e um DC-6

A viagem a Ndola nasceu de uma guerra pelo cobre no coração da África.

O Congo Belga se tornou independente em 1960, num 30 de junho. Onze dias depois, Moïse Tshombe proclamou a separação de Katanga, a província mais rica do país, com apoio da Union Minière du Haut Katanga, a mineradora belga dona das minas de cobre, cobalto e urânio.

A ONU mandou uma força de paz, a ONUC (Operação das Nações Unidas no Congo), para manter o país inteiro. Tshombe respondeu com mercenários europeus e uma pequena força aérea.

A Operação Morthor

Em 13 de setembro de 1961, tropas da ONU lançaram a Operação Morthor (palavra híndi para esmagar) para tomar a rádio e os prédios do governo em Elisabethville, a capital de Katanga. A ofensiva emperrou em poucas horas.

Um único jato de Katanga, um Fouga Magister (avião de treino francês adaptado com metralhadoras), atacou posições da ONU nesses dias. Pilotado por mercenários europeus, ganhou fama de intocável entre os capacetes azuis.

Hammarskjöld, que estava no Congo, decidiu negociar pessoalmente. Tshombe aceitou o encontro em Ndola, cidade sob domínio britânico do outro lado da fronteira.

A noite do voo

A rota do Albertina foi pensada para escapar do Fouga:

1. Fim da tarde de 17 de setembro: o DC-6 decola de Léopoldville com 16 pessoas a bordo, sem plano de voo divulgado e em silêncio de rádio em boa parte do trajeto.

2. Rota longa: o comandante sueco Per Hallonquist contorna Katanga pelo leste, sobre o lago Tanganica, longe do alcance do jato.

3. Pouco depois da meia-noite: o avião fala com a torre de Ndola, informa que vê as luzes e recebe autorização para descer.

4. Minutos depois: o DC-6 bate nas copas das árvores durante a curva de aproximação, se parte e pega fogo.

As duas comissões de 1962

A comissão rodesiana culpou a tripulação, que teria descido baixo demais. Uma das hipóteses citadas foi a leitura errada do altímetro (instrumento que mede a altura do voo).

A comissão da ONU, também em 1962, não descartou sabotagem nem ataque e deixou o caso sem conclusão. Faltava prova para os dois lados.

Hammarskjöld recebeu o Nobel da Paz em outubro de 1961, o único Nobel da Paz entregue a alguém que já não estava vivo.

 

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III  O Combustível

Os papéis da Operação Celeste

Em agosto de 1998, o arcebispo Desmond Tutu, presidente da Comissão da Verdade e Reconciliação da África do Sul, mostrou à imprensa um maço de cartas achado nos arquivos do apartheid.

As cartas tinham o timbre do SAIMR, sigla em inglês do Instituto Sul-Africano de Pesquisa Marítima, um grupo de mercenários que se apresentava como entidade científica. Um dos textos descrevia a Operação Celeste, plano para tirar Hammarskjöld de cena.

Num dos papéis, alguém escreveu que Dag deveria ser “removido”. Outro mencionava apoio do MI5, o serviço secreto interno britânico, e da Union Minière, e falava numa carga de explosivo no compartimento das rodas, para estourar quando o trem de pouso descesse.

Uma das cartas citava Allen Dulles, diretor da CIA em 1961, como alguém que teria concordado com o plano.

A resposta de Londres

O governo britânico disse na época que os papéis pareciam desinformação soviética, fabricada para manchar o Ocidente. Tutu reconheceu que a comissão não tinha como provar a autenticidade das cartas.

Os originais seguiram para o Ministério da Justiça sul-africano e sumiram. Othman pediu os documentos ao governo de Pretória, que informou não ter localizado as folhas.

O filme de 2019

O dinamarquês Mads Brügger lançou no Festival de Sundance de 2019 o documentário Cold Case Hammarskjöld (Caso Arquivado Hammarskjöld). Ele seguiu o rastro do SAIMR e de seu suposto comandante, Keith Maxwell, um homem que se vestia de almirante.

Ex-integrantes ouvidos no filme disseram que o grupo existiu e atuou na África nos anos 1980 e 1990. Nenhum deles mostrou prova material ligando o SAIMR à noite de Ndola.

O que sustenta a dúvida

A tese do ataque se apoia em fatos registrados: o relato de Harold Julien, os carvoeiros que viram dois aviões, o jato de Katanga no ar naqueles dias, as escutas de Chipre e as cartas de 1998. A tese do erro se apoia na falta de uma bala, de uma marca de míssil ou de uma confissão.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o relatório de Mohamed Chande Othman de 2019, no site da ONU;

• o relatório da Comissão Hammarskjöld de setembro de 2013, presidida por Stephen Sedley;

• o livro Who Killed Hammarskjöld?, de Susan Williams, de 2011.

Othman nunca escreveu o nome de um atirador.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem era o piloto belga de Katanga apontado como o homem do jato na noite de Ndola?

 
 
Quiz da edição

Quem foi o sobrevivente da queda do Albertina que contou ter visto faíscas no céu antes da explosão?

ACharles Southall, agente da NSA na estação de escuta em Chipre
BPer Hallonquist, comandante sueco do avião
CHarold Julien, sargento americano chefe da segurança da comitiva
DMohamed Chande Othman, juiz tanzaniano do painel da ONU

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