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Em 28 de novembro de 2017, Emmanuel Macron falou a estudantes na Universidade de Uagadugu. No meio do discurso, fez uma promessa que a plateia aplaudiu de pé:
“Todos os documentos produzidos por administrações francesas durante o regime de Sankara e depois do assassinato dele, cobertos pelo segredo de defesa nacional, serão desclassificados.” (Emmanuel Macron, discurso na Universidade de Uagadugu, 2017)
Paris entregou os papéis em três lotes à justiça burquinense, por via diplomática. O terceiro chegou em abril de 2021, meses antes da abertura do julgamento.
Os documentos desclassificados chegaram ao juiz de instrução burquinense, e nenhum trecho divulgado mostrou ordem francesa para o golpe. |
O que os papéis não trazem
Mariam Sankara, a viúva, apresentou a primeira queixa em 1997, ainda sob o governo de Compaoré, e viu o caso parado por 18 anos, até a queda dele.
Advogados da família de Sankara disseram à imprensa que os lotes vieram incompletos. A queixa recaía sobre os arquivos da presidência francesa e dos serviços secretos, que a defesa nacional pode reter.
A desclassificação funciona como uma porta aberta por dentro. Quem abre escolhe a sala, e quem entra não sabe quantas salas ficaram trancadas.
As vozes da Libéria
Em 2009, o documentário italiano Ombre africane (Sombras africanas), de Silvestro Montanaro, para a emissora RAI, ouviu Prince Johnson, ex-chefe de guerrilha da Libéria.
Johnson disse diante da câmera que homens de Charles Taylor, futuro presidente liberiano, participaram da operação, e que ela teve aval de serviços ocidentais. Não mostrou documento, e Taylor nunca foi réu no processo de Uagadugu. Momo Jiboh, ex-ajudante de Taylor, repetiu a versão no mesmo filme, também sem papel nenhum na mão.
A sentença e o vazio
O tribunal de 2022 julgou 14 réus e condenou a maioria por atentado à segurança do Estado ou cumplicidade. Diendéré já cumpria 20 anos de prisão por outra tentativa de golpe, a de 2015.
A sentença respondeu quem atirou e quem mandou dentro do país. A pergunta sobre o estrangeiro ficou na parte internacional do processo, ainda sem conclusão pública.
A tese vive desse intervalo. Os fatos comprovados (o atrito com Mitterrand, a aliança de Compaoré com Paris, os arquivos retidos) cabem nela, e a prova direta de ordem francesa nunca apareceu.
Confira sozinho, em 3 buscas:
• o discurso de Thomas Sankara sobre a dívida em Adis Abeba, de 1987;
• o discurso de Emmanuel Macron na Universidade de Uagadugu, de novembro de 2017;
• a sentença do tribunal militar de Uagadugu, de 6 de abril de 2022.
A sentença tem um réu principal que nunca sentou no banco.
Fica a pergunta · até amanhã Em que país Blaise Compaoré vive desde 2014, fora do alcance da sentença de Uagadugu? |
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