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A mão francesa no golpe de 1987 contra Thomas Sankara

Paris liberou três lotes de arquivos depois de 2017. Em 2022, um tribunal militar condenou Blaise Compaoré à revelia.

Retrato de Thomas Sankara de boina vermelha

Thomas Sankara em Uagadugu, nos anos 1980

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O jornal francês Le Monde publicou em 6 de abril de 2022 a manchete “Assassinat de Thomas Sankara : Blaise Compaoré condamné à la prison à perpétuité” (Assassinato de Thomas Sankara: Blaise Compaoré condenado à prisão perpétua). O réu principal não estava na sala para ouvir.

A leitura da sentença aconteceu no tribunal militar de Uagadugu, capital de Burkina Faso, depois de seis meses de audiências abertas ao público e transmitidas em parte pela televisão do país.

No banco, faltavam dois dos três condenados. A Justiça burquinense tinha emitido mandados internacionais de prisão, e nenhum foi cumprido até o dia da leitura.

Três homens receberam prisão perpétua. Blaise Compaoré, presidente durante 27 anos, julgado à revelia. Hyacinthe Kafando, apontado como chefe do comando armado, também foragido. E o general Gilbert Diendéré, o único dos três sentado no banco dos réus.

A vítima era o capitão Thomas Sankara, presidente de Burkina Faso entre 1983 e 1987, fuzilado com 12 companheiros numa tarde de quinta-feira, no Conselho da Entente, prédio de um organismo regional no centro da capital.

Sankara tinha 37 anos. Tinha rebatizado o país, antes chamado Alto Volta, como Burkina Faso, “terra dos homens íntegros” em mooré e diulá, duas línguas locais.

Durante 34 anos, a versão oficial sobre aquela tarde coube num papel. A certidão de óbito assinada em 1988 registrava que Sankara tinha tido morte natural.

A sentença de 2022 desmontou a certidão. Deixou de lado, porém, a dúvida que os burquinenses repetem desde 1987: quem mais, fora do país, sabia do golpe ou ajudou a montá-lo.

Na lista de suspeitos externos, um país aparece antes de todos. A França, antiga metrópole colonial, mantinha tropas, conselheiros e moeda na região, e perdeu com Sankara um governo que a desafiava em público.

Para entender por que Paris entrou na lista, é preciso começar pela tese, do jeito que ela circula em Uagadugu, e pelas peças que a sustentam.

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I  A Conspiração do Dia

O homem que incomodava Paris

A tese tem formulação simples. Thomas Sankara teria sido derrubado por Blaise Compaoré, amigo de juventude e número dois do governo, com a bênção ou a ajuda da França e de aliados dela na África Ocidental.

Os defensores apontam motivo e beneficiário. O motivo seria a política externa de Sankara, que batia de frente com Paris em discursos e entrevistas. O beneficiário seria Compaoré, parceiro fiel do governo francês por quase três décadas.

Compaoré assumiu a presidência na mesma noite do fuzilamento e só deixou o cargo em 2014, derrubado por protestos de rua.

A Françafrique

A palavra Françafrique (a rede de influência política, militar e econômica de Paris nas ex-colônias africanas) resume o cenário que a tese invoca. A rede tinha conselheiros no Palácio do Eliseu, bases militares e moeda comum, o franco CFA.

Em 1986, essa rede ganhou de volta seu arquiteto. Jacques Foccart, o homem dos assuntos africanos de Charles de Gaulle, voltou ao governo como conselheiro do primeiro-ministro Jacques Chirac.

Para os defensores da tese, a volta de Foccart pesa. Ninguém apresentou documento com ordem dele sobre Burkina Faso, e a ligação depende de inferência sobre o cargo que ele ocupava. Foccart saiu de cena em 1997 sem comentar o caso em público.

O vizinho de Abidjan

A segunda peça fica na Costa do Marfim. Félix Houphouët-Boigny, presidente marfinense e aliado mais próximo de Paris na região, via com desconfiança o capitão revolucionário do outro lado da fronteira.

Compaoré tinha laço pessoal com Abidjan. Em 1985 casou com Chantal Terrasson de Fougères, marfinense de família próxima de Houphouët-Boigny.

A tese lê o casamento como canal. Abidjan seria a ponte entre o Eliseu e o homem que tomou o lugar de Sankara, e o presidente marfinense seria o intermediário que dispensava ordem escrita.

O que a tese pede

A tese pede uma prova que ainda não tem: um telegrama, uma ordem ou um pagamento que ligue um agente francês ao comando que entrou atirando no Conselho da Entente.

O processo de Uagadugu procurou essa prova e separou a busca do julgamento principal. A parte internacional (volet international, em francês) seguiu aberta depois da sentença, sem nenhum réu estrangeiro indiciado.

 
 

II  A Origem

O jantar de Mitterrand

A suspeita contra Paris nasceu de duas cenas públicas, ambas filmadas. A primeira aconteceu em novembro de 1986, quando o presidente francês François Mitterrand visitou Uagadugu.

No jantar oficial, Sankara usou o discurso de boas-vindas para criticar a França por ter recebido Pieter Botha, líder do regime do apartheid (a segregação racial oficial da África do Sul).

Mitterrand deixou de lado o texto preparado e respondeu de improviso. Chamou o anfitrião de homem incômodo, que não deixava a consciência de ninguém tranquila, e disse que ele ia longe demais.

A troca entre os dois presidentes passou na televisão e ficou na memória burquinense como a noite em que Sankara enfrentou a França diante das câmeras.

A dívida na tribuna

A segunda cena aconteceu na cúpula da Organização da Unidade Africana, em Adis Abeba, na Etiópia, em 29 de julho de 1987.

Sankara defendeu que os países africanos se recusassem juntos a pagar a dívida externa, contraída, segundo ele, sob as regras dos antigos colonizadores. No mesmo discurso, previu o risco que corria:

“Se Burkina Faso se recusar sozinho a pagar a dívida, não estarei aqui na próxima conferência.” (Thomas Sankara, discurso na cúpula da OUA, Adis Abeba, 1987)

Onze semanas depois, ele estava enterrado. A frase virou prova de premonição para quem acredita na tese e argumento de tribuna para quem a rejeita.

A tarde de quinta-feira

Por volta das 16h30 daquele 15 de outubro, Sankara chegou para uma reunião com assessores no Conselho da Entente. Um grupo armado desceu de dois carros e abriu fogo.

Alouna Traoré, o único sobrevivente da reunião, contou que Sankara saiu da sala com as mãos para cima e foi baleado na porta.

Compaoré disse depois que não deu a ordem e que os soldados agiram para impedir uma prisão que Sankara preparava contra ele. O tribunal de 2022 rejeitou a versão.

No dia seguinte, a rádio nacional anunciou a Frente Popular, presidida por Compaoré, e chamou o antigo presidente de traidor da revolução.

Os corpos foram enterrados às pressas, à noite, no cemitério de Dagnoën. Na exumação de 2015, peritos encontraram os restos de Sankara crivados de balas.

 

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III  O Combustível

Os três lotes de Paris

Em 28 de novembro de 2017, Emmanuel Macron falou a estudantes na Universidade de Uagadugu. No meio do discurso, fez uma promessa que a plateia aplaudiu de pé:

“Todos os documentos produzidos por administrações francesas durante o regime de Sankara e depois do assassinato dele, cobertos pelo segredo de defesa nacional, serão desclassificados.” (Emmanuel Macron, discurso na Universidade de Uagadugu, 2017)

Paris entregou os papéis em três lotes à justiça burquinense, por via diplomática. O terceiro chegou em abril de 2021, meses antes da abertura do julgamento.

Os documentos desclassificados chegaram ao juiz de instrução burquinense, e nenhum trecho divulgado mostrou ordem francesa para o golpe.

O que os papéis não trazem

Mariam Sankara, a viúva, apresentou a primeira queixa em 1997, ainda sob o governo de Compaoré, e viu o caso parado por 18 anos, até a queda dele.

Advogados da família de Sankara disseram à imprensa que os lotes vieram incompletos. A queixa recaía sobre os arquivos da presidência francesa e dos serviços secretos, que a defesa nacional pode reter.

A desclassificação funciona como uma porta aberta por dentro. Quem abre escolhe a sala, e quem entra não sabe quantas salas ficaram trancadas.

As vozes da Libéria

Em 2009, o documentário italiano Ombre africane (Sombras africanas), de Silvestro Montanaro, para a emissora RAI, ouviu Prince Johnson, ex-chefe de guerrilha da Libéria.

Johnson disse diante da câmera que homens de Charles Taylor, futuro presidente liberiano, participaram da operação, e que ela teve aval de serviços ocidentais. Não mostrou documento, e Taylor nunca foi réu no processo de Uagadugu. Momo Jiboh, ex-ajudante de Taylor, repetiu a versão no mesmo filme, também sem papel nenhum na mão.

A sentença e o vazio

O tribunal de 2022 julgou 14 réus e condenou a maioria por atentado à segurança do Estado ou cumplicidade. Diendéré já cumpria 20 anos de prisão por outra tentativa de golpe, a de 2015.

A sentença respondeu quem atirou e quem mandou dentro do país. A pergunta sobre o estrangeiro ficou na parte internacional do processo, ainda sem conclusão pública.

A tese vive desse intervalo. Os fatos comprovados (o atrito com Mitterrand, a aliança de Compaoré com Paris, os arquivos retidos) cabem nela, e a prova direta de ordem francesa nunca apareceu.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o discurso de Thomas Sankara sobre a dívida em Adis Abeba, de 1987;

• o discurso de Emmanuel Macron na Universidade de Uagadugu, de novembro de 2017;

• a sentença do tribunal militar de Uagadugu, de 6 de abril de 2022.

A sentença tem um réu principal que nunca sentou no banco.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que país Blaise Compaoré vive desde 2014, fora do alcance da sentença de Uagadugu?

 
 
Quiz da edição

No julgamento de 2022 pelo assassinato de Thomas Sankara, qual dos três condenados esteve presente no banco dos réus para ouvir a sentença?

ABlaise Compaoré
BHyacinthe Kafando
CAlouna Traoré
DGilbert Diendéré

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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