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As 12 mil buscas mensais por conspiração

Em cinco anos, o interesse brasileiro por teorias da conspiração cresceu 1,6 vez no Google. A psicologia explica o apetite.

Celular com busca por teorias da conspiração e gráfico em alta

Curva de buscas por conspiração no Brasil

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“The Paranoid Style in American Politics” (O estilo paranoico na política americana), publicou a Harper's Magazine na edição de novembro de 1964. O autor era Richard Hofstadter, historiador da Universidade Columbia, e o ensaio virou leitura obrigatória para quem estuda boatos políticos.

Hofstadter escreveu o texto um ano depois do assassinato de John F. Kennedy em Dallas. A Comissão Warren tinha acabado de entregar o relatório oficial, em setembro de 1964, apontando um atirador sozinho, Lee Harvey Oswald. Parte do público americano não aceitou a conclusão.

O ensaio não tratava de um caso só. Hofstadter descreveu um jeito de pensar, presente em vários séculos da história americana: a crença de um grupo oculto e poderoso movendo os fatos por trás da cena.

Para ele, esse estilo aparecia em movimentos muito diferentes entre si. Estava nos panfletos contra os maçons no século 19, nas campanhas contra imigrantes católicos e nas acusações do senador Joseph McCarthy contra supostos comunistas no governo, nos anos 1950.

O historiador fez questão de separar o estilo das pessoas. Ele não chamou ninguém de doente. Usou a palavra paranoico como empréstimo da clínica, para descrever um tom de voz exaltado, desconfiado e cheio de detalhes.

Seis décadas depois, o tema saiu dos ensaios acadêmicos e entrou na caixa de busca do celular. O brasileiro digita a expressão “teorias da conspiração” com frequência crescente, e também “teorias da conspiração filme” e “teoria da conspiração o que é”.

Hoje a desconfiança circula em vídeos curtos, em grupos de mensagem e em comentários de rede social, num volume que Hofstadter não podia imaginar.

A última busca tem cara de dúvida escolar. Alguém ouviu a expressão num vídeo, num grupo de família ou numa aula e quis saber o significado antes de opinar.

Os dados do Google mostram o tamanho desse interesse e a direção dele. A curva começa num patamar baixo e sobe aos poucos até 2026.

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I  A Conspiração do Dia

A curva do Google Trends

O Google Trends, ferramenta pública do Google, mede o interesse por um termo numa escala de 0 a 100. O valor 100 marca o pico do período escolhido, e os outros pontos aparecem como fração desse pico.

Num levantamento feito em 26 de outubro de 2026 pela Augurium, o painel interno de tendências do Scriptorium, o termo “teorias da conspiração” no Brasil cresceu 1,61 vez em cinco anos. Em outras palavras, o interesse médio de hoje fica 61% acima do registrado no fim de 2021.

O recorte curto conta outra parte da história. Nas últimas 13 semanas, a variação foi de 1,03 vez, quase estável. O tema não explodiu de repente: subiu devagar e se manteve alto.

Em setembro de 2026, o termo bateu 95% do pico histórico da série. O interesse chegou perto do ponto máximo já registrado pela ferramenta para a expressão no país.

Em cinco anos, a busca por teorias da conspiração no Brasil cresceu 1,61 vez e encostou no pico em setembro de 2026.

Um interesse que fica alto por tanto tempo costuma indicar hábito, e não modismo passageiro de uma semana.

O volume em números absolutos

O Trends trabalha com proporção e não informa quantas pessoas buscaram. Para o volume, a Augurium cruzou o dado com o Planejador de Palavras-chave do Google Ads, a ferramenta usada por anunciantes para estimar buscas mensais.

No Planejador, a expressão saiu de cerca de 8 mil buscas por mês para cerca de 12 mil em 12 meses. A alta foi de 1,49 vez, na mesma direção da curva do Trends.

As duas ferramentas medem de jeitos diferentes. O Trends normaliza a amostra e o Planejador arredonda as faixas de volume. Quando as duas apontam alta parecida, o sinal fica mais confiável.

As três buscas que puxam a fila

As consultas relacionadas revelam três intenções distintas. A primeira, “teorias da conspiração”, é genérica e costuma vir de quem procura listas e exemplos famosos.

A segunda, “teorias da conspiração filme”, mistura o tema com entretenimento. Plataformas de streaming e canais de vídeo exploram o assunto em documentários e séries, e o filme “Teoria da Conspiração”, de 1997, segue lembrado.

A terceira, “teoria da conspiração o que é”, pede definição. Ela indica um público novo, que chegou ao tema agora e quer entender a expressão antes de usar.

As três intenções convivem na mesma curva. Quem chega pela definição hoje pode, em poucos meses, estar procurando listas e documentários, e o volume total cresce com essa passagem de um tipo de busca para outro.

 
 

II  A Origem

A expressão e o mito da CIA

Antes de virar busca, a expressão teve uma história própria. O filósofo austríaco Karl Popper usou a fórmula “teoria conspiratória da sociedade” no livro “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, de 1945.

Popper descreveu a ideia como a crença de que todo acontecimento social ruim resulta do plano deliberado de um grupo poderoso. Para ele, o erro estava em ignorar as consequências não intencionais das ações humanas, que ninguém planeja.

O filósofo não negou a existência de conspirações reais. Elas existem e às vezes funcionam. O problema, segundo Popper, era usar a conspiração como explicação padrão para tudo.

Popper aceitava conspirações reais e criticava a conspiração como explicação automática para qualquer desgraça.

O documento de 1967

Em abril de 1967, a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, distribuiu às suas bases o despacho 1035-960, com o título “Countering Criticism of the Warren Report” (Rebatendo as críticas ao Relatório Warren).

O texto orientava contatos da agência na imprensa a responder críticos da investigação sobre Kennedy. O documento usava a expressão “conspiracy theories” e foi liberado ao público em 1976, por um pedido baseado na Lei de Acesso à Informação americana.

O despacho não criou nenhuma teoria nova. Ele sugeria argumentos prontos: lembrar que grandes investigações sempre deixam pontas soltas e acusar críticos de interesse político ou financeiro.

A tese da palavra inventada

O cientista político Lance deHaven-Smith, da Universidade Estadual da Flórida, publicou em 2013 o livro “Conspiracy Theory in America”. Ele defendeu que a CIA tinha transformado a expressão em arma para desacreditar críticos.

A tese ganhou uma versão popular mais forte: a de que a CIA inventou o termo em 1967. Arquivos de jornais desmentem a versão. A expressão aparece em publicações americanas pelo menos desde o fim do século 19, décadas antes da agência existir.

A ironia não passou despercebida entre pesquisadores. A história de uma palavra criada em segredo pela CIA virou, ela mesma, uma teoria da conspiração.

 

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III  O Combustível

O apetite por um plano

O interesse crescente pelo tema tem explicação na psicologia. Em 2017, as pesquisadoras britânicas Karen Douglas, Robbie Sutton e Aleksandra Cichocka publicaram o artigo “The Psychology of Conspiracy Theories” na revista Current Directions in Psychological Science.

O trabalho reuniu estudos anteriores e organizou os motivos em três grupos. O primeiro é epistêmico: a vontade de entender um fato confuso. O segundo é existencial: a necessidade de se sentir seguro e no controle. O terceiro é social: o desejo de pensar bem de si e do próprio grupo.

As autoras observaram um paradoxo. As teorias prometem atender aos três desejos, mas os estudos revisados indicaram o contrário: quem adota essas explicações tende a terminar mais ansioso e mais desconfiado.

A teoria da conspiração promete controle e, segundo a revisão de 2017, costuma entregar mais ansiedade.

O viés da proporção

Outro mecanismo tem nome técnico: viés da proporcionalidade. Em 2007, os psicólogos Patrick Leman e Marco Cinnirella, da Universidade de Londres, publicaram o estudo “A major event has a major cause” (Um grande evento tem uma grande causa).

Os participantes leram relatos sobre o assassinato fictício de um presidente. Quando o tiro matava o presidente, mais gente apostava em conspiração do que quando ele sobrevivia. A causa imaginada crescia junto com o tamanho do efeito.

A mente aceita mal a ideia de um acontecimento enorme nascer de um acaso pequeno. Um atirador sozinho parece pouco para derrubar um presidente.

O mesmo raciocínio aparece em outros casos célebres. A morte de uma princesa num acidente de carro, uma pandemia causada por um vírus ou a queda de um avião comercial pedem, para muita gente, um autor à altura do estrago.

O filme de 1997

A busca “teorias da conspiração filme” costuma levar a “Teoria da Conspiração”, dirigido por Richard Donner. Mel Gibson interpreta Jerry Fletcher, um taxista de Nova York que escreve um boletim com teorias para cinco assinantes.

O longa estreou nos cinemas americanos em agosto de 1997 e arrecadou mais de 130 milhões de dólares no mundo, segundo o site Box Office Mojo.

Julia Roberts faz a advogada do Departamento de Justiça que ouve as histórias dele. Na trama, uma das teorias de Fletcher acerta um alvo real, e ele passa a ser perseguido.

O roteiro brinca com o mesmo paradoxo de Popper. Conspirações existem, e o desafio é separar a rara que se confirma das muitas que só oferecem um culpado.

Confira sozinho, antes de passar adiante a próxima teoria:

• o mês e a revista do ensaio de Hofstadter, novembro de 1964, Harper's Magazine;

• o ano do livro de Popper, “A Sociedade Aberta e Seus Inimigos”, 1945;

• o número e a data do despacho da CIA, 1035-960, abril de 1967.

 
 
 

Quiz da edição

No Brasil, segundo o levantamento da Augurium divulgado em outubro de 2026, qual foi o crescimento da busca por "teorias da conspiração" nos últimos cinco anos no Google Trends?

A1,49 vez, conforme o Planejador de Palavras-chave
B1,03 vez, praticamente estável
C1,61 vez, segundo o Google Trends
D95% do pico histórico registrado em setembro de 2026

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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