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As 13 estrelas que a Procter & Gamble tirou das embalagens

Um homem na lua estampado desde 1851 virou selo do diabo em folheto fotocopiado. A empresa apagou o logo em 1985 e foi ao tribunal até 2007.

Homem na lua de perfil, de barba longa, diante de 13 estrelas.

Logo da Procter & Gamble, Cincinnati, 1882

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A agência Associated Press noticiou em 20 de março de 2007, num despacho de Salt Lake City, capital do estado americano de Utah: "Júri dá à Procter & Gamble 19,25 milhões de dólares em processo sobre satanismo".

Os réus não eram uma seita. Eram 4 ex-distribuidores da Amway, a empresa americana que vende produtos de limpeza por uma rede de revendedores e que disputava com a Procter & Gamble o armário debaixo da pia das famílias.

O júri federal concluiu que eles espalharam, em 1995, uma mensagem de correio de voz para milhares de revendedores dizendo que a dona do sabão em pó Tide e da pasta de dente Crest entregava parte do lucro à Igreja de Satã.

A acusação era velha. Tinha nascido no fim dos anos 1970 e mirava um alvo fácil de apontar: o logotipo da empresa, um homem na lua visto de perfil, de barba comprida, olhando para 13 estrelas.

Em folhetos fotocopiados, a lua virava chifre, as estrelas viravam marca do demônio e os cachos da barba, vistos num espelho, desenhavam o número 666.

A Procter & Gamble passou anos tentando desmentir. Montou uma linha telefônica só para o assunto, contratou detetives, processou quem distribuía os folhetos e pediu a líderes religiosos cartas em defesa da marca.

Nada resolveu. Os folhetos chegavam por correio, eram lidos em púlpito de igreja e reapareciam pregados em murais de supermercado, cada cópia um pouco mais borrada que a anterior.

Em abril de 1985, a empresa de Cincinnati anunciou que o homem na lua sairia das embalagens dos seus produtos, depois de mais de um século estampado nas caixas.

A marca centenária perdeu para uma fotocópia. E o rumor que derrubou o logo durou mais 22 anos depois dele, até virar sentença num tribunal de Utah.

No meio do caminho, o boato trocou de dono: saiu dos panfletos de igreja e entrou na rede de vendas de uma concorrente direta.

Para entender como um desenho de porto virou selo do diabo, comece pelo que os folhetos diziam.

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I  A Conspiração do Dia

A lua, a barba e o número 666

O rumor sobre a Procter & Gamble dizia que o dono da empresa tinha ido a um programa de televisão confessar um pacto com o diabo e que o logo da lua era a prova estampada em cada caixa de sabão.

A versão mais repetida citava o The Phil Donahue Show, o programa de entrevistas mais visto dos Estados Unidos no começo dos anos 1980. Nele, o presidente da empresa teria contado que vendia mais desde que revelou ser satanista.

Variações trocavam o programa. Algumas falavam do 60 Minutes, outras do programa de Merv Griffin, e mais tarde do de Sally Jessy Raphael. O conteúdo da confissão mudava pouco: parte do lucro ia para a Igreja de Satã.

O logo servia de prova visual. O folheto pedia ao leitor que pegasse qualquer embalagem da casa e olhasse com atenção.

O que o folheto mandava procurar

A lua crescente, de perfil, aparecia descrita como símbolo usado em rituais. As 13 estrelas eram lidas como uma zombaria das 12 tribos de Israel, com uma estrela a mais para o diabo.

Os cachos da barba ganharam a leitura mais famosa. Vistos num espelho, três espirais da ponta formariam o número 666, a marca da besta citada no livro bíblico do Apocalipse.

Havia também uma leitura das estrelas ligadas por linhas imaginárias. Unindo certos pontos, o desenho mostraria três números 6 escondidos no céu do logo.

O folheto terminava com um pedido prático. Quem fosse cristão devia parar de comprar os produtos da lista e passar a cópia adiante, em igrejas, escolas e reuniões de bairro.

A lista era longa porque a empresa era grande. Incluía o sabão em pó Tide, a pasta de dente Crest, a fralda Pampers, o café Folgers e dezenas de outras marcas que o comprador comum nem sabia que vinham da mesma fábrica.

Esse detalhe dava força ao boicote. Quem descobria pelo folheto que a fralda e o café tinham o mesmo dono sentia que tinha descoberto um segredo, e passava a desconfiar de toda a prateleira.

O folheto também não trazia data, assinatura nem endereço. Sem autor para contestar, cada cópia parecia vir de um conhecido de confiança, o vizinho, o pastor, a colega da igreja.

A tese tinha, por fim, um apelo moral. Não pedia ao leitor que acreditasse em nada impossível, só que conferisse um desenho que estava na própria despensa.

 
 

II  A Origem

Um carimbo de caixote no porto de Cincinnati

O homem na lua nasceu de um descuido de estiva: em 1851, carregadores do porto de Cincinnati, no rio Ohio, começaram a pintar uma cruz nos caixotes de velas da Procter & Gamble para separá-los das cargas de outras firmas.

A empresa tinha sido fundada em 1837 pelo fabricante de velas William Procter e pelo saboeiro James Gamble, dois cunhados que se casaram com duas irmãs. Vendia velas e sabão para as cidades do rio.

A cruz dos carregadores virou estrela, e a estrela ganhou um círculo. Com os anos, alguém da casa desenhou um rosto de lua dentro do círculo e completou a imagem com 13 estrelas.

As estrelas homenageavam as 13 colônias que fundaram os Estados Unidos, o mesmo número da primeira bandeira do país. A lua era um enfeite comum da época, usado em rótulos de vários fabricantes.

A empresa registrou o desenho como marca em 1882. Durante quase um século, o homem na lua apareceu em caixas, anúncios e papéis timbrados sem que ninguém visse nele nada além de uma marca antiga.

Quando o telefone começou a tocar

O folheto do diabo começou a circular no fim dos anos 1970, primeiro no meio-oeste americano. Ninguém sabe quem escreveu a primeira versão, e a empresa nunca conseguiu identificar o autor.

Em 1982, o rumor chegou ao auge. A própria Procter & Gamble informou à imprensa naquele ano que recebia 15 mil ligações por mês de consumidores perguntando se a empresa adorava o diabo.

A empresa respondeu em várias frentes. Processou pessoas que distribuíam os folhetos, entre elas pastores e vendedores, e pediu ao evangelista Billy Graham que gravasse uma declaração dizendo que a acusação era falsa.

A produção do The Phil Donahue Show também desmentiu: nenhum executivo da Procter & Gamble tinha sido entrevistado no programa. Nenhuma gravação da suposta confissão jamais apareceu.

Os desmentidos baixavam o volume por alguns meses, e o folheto voltava. Em abril de 1985, a direção decidiu tirar o logo das embalagens dos produtos, mantendo o desenho só em papéis da empresa. O porta-voz explicou que a mudança economizava espaço nas caixas, e quase ninguém acreditou.

Em 1991, a casa redesenhou o homem na lua, com a barba alisada para eliminar os cachos que formavam o 666. Anos depois, passou a usar só as letras P&G como assinatura principal.

 

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III  O Combustível

Uma mensagem de voz para milhares de revendedores

O rumor ganhou segunda vida em 1995 dentro de uma concorrente: Randy Haugen, distribuidor de alto escalão da Amway em Utah, gravou uma mensagem no sistema de correio de voz da rede repetindo a história do pacto com o diabo.

A mensagem dizia que o presidente da Procter & Gamble tinha falado de satanismo num programa de televisão e terminava com a lista de produtos a evitar. Os revendedores da Amway, que vendiam itens concorrentes, eram exatamente o público que lucrava com o boicote.

A Procter & Gamble processou Haugen e outros distribuidores em 1995, acusando-os de difamação e de concorrência desleal. A própria Amway foi incluída numa ação separada, que acabou rejeitada pela Justiça.

O caso contra os distribuidores se arrastou por mais de uma década, com recursos e idas e vindas entre tribunais. Em março de 2007, o júri federal em Salt Lake City condenou Haugen e mais 3 ex-distribuidores a pagar 19,25 milhões de dólares.

Por que o rumor não morre

A história tinha um motor comercial. No caso da Amway, quem espalhava a acusação ganhava dinheiro quando o cliente trocava o Tide da prateleira pelo sabão vendido de porta em porta.

Também tinha um motor religioso. O começo dos anos 1980 viveu nos Estados Unidos uma onda de medo de cultos satânicos, com livros, sermões e reportagens de televisão sobre rituais que nunca se comprovaram.

E tinha um motor visual. Um desenho antigo, cheio de detalhes, oferece o que o boato precisa: qualquer pessoa pode olhar a caixa e achar a prova por conta própria.

Os 19,25 milhões de dólares de 2007 não apagaram o folheto da internet. Versões do texto, com a mesma confissão inventada, ainda circulam em correntes de mensagem e fóruns religiosos.

O próprio recuo de 1985 reforçou a suspeita. Para quem acreditava no folheto, uma empresa inocente não teria motivo para esconder o logo.

O que o caso estabeleceu: o homem na lua nasceu de um carimbo de porto de 1851, as 13 estrelas são as 13 colônias e nenhum executivo da empresa confessou pacto algum na televisão.

O que continua sem resposta: quem escreveu o primeiro folheto, no fim dos anos 1970. A Procter & Gamble investigou por anos e nunca chegou ao nome.

"Se o logo escondia um pacto, por que ele estava nas caixas desde 1851?"

Confira sozinho, em três buscas:
a reportagem da Associated Press de 20 de março de 2007 sobre o júri de Salt Lake City;
o ano de registro da marca do homem na lua, 1882;
o anúncio de abril de 1985 em que a empresa tirou o logo das embalagens.

 
 
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