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100% escolheram Cosmonautas perdidos. Aqui está.
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As fitas de Turim e o cosmonauta apagado
Dois irmãos italianos diziam captar vozes em órbita desde 1960, e Moscou levou 25 anos para admitir o que houve com Valentin Bondarenko.
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Torre Bert, a antena caseira dos irmãos
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"SOS a tutto il mondo", SOS para o mundo inteiro, foi a mensagem em código Morse que a agência de notícias italiana Continentale divulgou em 2 de fevereiro de 1961, dizendo que dois radioamadores de Turim a haviam captado vinda de uma nave soviética tripulada em apuros.
A União Soviética não havia anunciado voo tripulado nenhum. Faltavam dois meses para Yuri Gagarin dar a primeira volta na Terra, em 12 de abril de 1961, e o programa espacial soviético só existia em público depois que um lançamento dava certo: nome do piloto, foto sorrindo, medalha no Kremlin. O que falhava não era desmentido, era omitido.
Os dois radioamadores tinham sobrenome de família de médicos e nome de dupla de circo: Achille Judica-Cordiglia, então com vinte e um anos, e Giovanni Battista Judica-Cordiglia, com dezoito. Montaram uma estação de escuta num prédio abandonado na periferia de Turim, com material comprado em ferro-velho e peças doadas por empresas de telefonia, e batizaram o lugar de Torre Bert.
Entre 1960 e 1965, eles disseram ter gravado em fita magnética uma sequência de episódios: um coração batendo cada vez mais devagar, uma respiração ofegante, uma voz feminina em russo repetindo que estava pegando fogo, um homem falando até a transmissão cortar. Os áudios rodaram em rádios europeias, viraram capa de revista e sustentaram por décadas a tese dos cosmonautas perdidos, pilotos que teriam saído da Terra sem constar de lista alguma.
Nenhum desses episódios apareceu em comunicado oficial, em telemetria divulgada ou em lista de tripulação. Sobraram as bobinas, as transcrições feitas pelos próprios irmãos e a desconfiança legítima de um público que via o Kremlin anunciar apenas triunfos.
A tese pedia uma prova documental que ninguém tinha. Ela veio de um lugar que nenhum dos irmãos previu, vinte e cinco anos depois, num jornal soviético, e tratava de um rapaz de vinte e quatro anos que nunca chegou a subir.
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I A Conspiração do Dia
As bobinas gravadas num prédio vazio
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A acusação atual é que Moscou escondeu uma fila de cosmonautas que saíram da Terra antes de Gagarin e nunca voltaram. A versão que sustenta a acusação nasceu em fita magnética de rolo, gravada por dois estudantes italianos que ninguém nunca auditou.
Achille Judica-Cordiglia e Giovanni Battista Judica-Cordiglia começaram em 4 de outubro de 1957, no quintal de casa, captando o bipe do Sputnik 1 com um gravador emprestado do pai, médico legista em Turim. A gravação dos bipes é real e foi reconhecida por técnicos europeus, e abriu portas: a partir dali eles receberam equipamento usado de empresas e de militares italianos.
Em 1960 a dupla montou Torre Bert num antigo bunker alemão desativado perto de San Maurizio Canavese, com uma antena parabólica improvisada, receptores de ondas curtas e um teletipo. Passavam noites varrendo faixas de frequência atrás de tráfego soviético e americano.
O primeiro áudio polêmico saiu em 28 de novembro de 1960: um sinal em Morse repetindo SOS, com afastamento progressivo que eles interpretaram como uma nave escapando da órbita terrestre. Em 2 de fevereiro de 1961 veio a gravação de batimentos cardíacos e respiração, atribuída por eles a um cosmonauta agonizante.
A fita mais famosa é de 17 de maio de 1961: uma voz feminina em russo, entrecortada, que os irmãos transcreveram como alguém dizendo que via chamas, que a cápsula estava quente e que o mundo jamais saberia. Em 1965, a gravação foi ao ar em emissoras europeias e a imprensa batizou a voz de Ludmila, nome que não consta de documento soviético nenhum.
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"Non abbiamo mai detto di sapere chi fosse. Abbiamo registrato."
Nunca dissemos saber quem era. Nós gravamos. Achille Judica-Cordiglia, entrevista no documentário "Space Hackers", direção de Elena Cordelli, Itália, 2007.
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As objeções técnicas vieram depressa e não saíram do lugar desde então. Os arquivos soviéticos abertos nos anos 1990, incluindo os diários do general Nikolai Kamanin, chefe do treinamento dos cosmonautas, listam cada voo tripulado e cada candidato do primeiro grupo de vinte, sem baixa em órbita. Falantes nativos de russo que ouviram as fitas apontam frases gramaticalmente truncadas e vocabulário fora do padrão de rádio militar. E o efeito Doppler, a mudança de tom de um sinal conforme a fonte se aproxima ou se afasta, aparece de forma irregular nas bobinas.
Os irmãos nunca entregaram as fitas originais para análise independente com cadeia de custódia documentada. Eles seguem afirmando que gravaram o que captaram, sem atribuir nome, e a coleção permanece com a família em Turim.
O que a tese dos cosmonautas perdidos nunca teve foi um nome com certidão. Havia um, e ele estava guardado num arquivo em Moscou.
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II A Origem
Torre Bert contra o arquivo fechado
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A origem documental do caso real está num incidente de 23 de março de 1961, numa câmara de isolamento de Moscou, com um piloto de vinte e quatro anos cujo nome foi apagado das fotografias oficiais do primeiro grupo de cosmonautas.
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Valentin Vassilievitch Bondarenko, nascido em Kharkov em 16 de fevereiro de 1937, era o mais jovem dos vinte pilotos selecionados em 1960 para o primeiro grupo de cosmonautas soviéticos, o mesmo grupo de Gagarin e de Gherman Titov.
Em março de 1961 ele cumpria a última etapa de um teste de isolamento de dez dias no Instituto de Medicina Biológica de Moscou, dentro de uma câmara pressurizada com atmosfera rica em oxigênio, condição que deixa qualquer material comum absurdamente inflamável.
Ao retirar sensores da pele, Bondarenko limpou o local com um chumaço de algodão embebido em álcool e o jogou de lado. O algodão caiu sobre a resistência quente de um fogareiro elétrico. Com oxigênio em excesso no ar, a câmara pegou fogo em segundos, e a diferença de pressão impedia abrir a escotilha de imediato.
Ele foi retirado com queimaduras em quase todo o corpo e levado ao hospital Botkin, onde não resistiu oito horas depois, em 23 de março de 1961. Tinha vinte dias de vida a mais que o voo de Gagarin, marcado para 12 de abril.
O caso foi classificado. A família recebeu pensão e um enterro em Kharkov, e a causa oficial registrada no atestado de óbito não mencionava o programa espacial. Fotografias de grupo do primeiro esquadrão foram retocadas para remover o rosto dele, prática de retoque aplicada também a Grigori Nelyubov, Ivan Anikeiev e Valentin Filatiev, desligados do programa em 1963 por indisciplina.
O silêncio durou vinte e cinco anos. Em abril de 1986, sob a política de transparência anunciada por Mikhail Gorbatchov, o jornalista Yaroslav Golovanov publicou no jornal soviético Izvestia a reportagem que revelou o acidente da câmara e o nome de Bondarenko, informação confirmada em seguida pela agência estatal TASS e reproduzida pela imprensa ocidental.
Golovanov tinha autoridade rara sobre o assunto: engenheiro aeroespacial de formação, ele chegou a ser selecionado em 1965 como candidato a cosmonauta jornalista antes de dedicar a carreira ao registro histórico do programa.
A revelação de 1986 mudou o mapa do caso. Provou que Moscou escondia baixa de cosmonauta, e ao mesmo tempo mostrou que a baixa escondida havia acontecido no chão, numa câmara de treinamento, sem foguete e sem órbita.
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