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Avro Arrow: os cinco caças cortados a maçarico em 1959

Um caça supersônico, um míssil americano e uma ordem de destruição sem assinatura: por que o Canadá ainda desconfia de Washington.

Caça Avro Arrow branco em asa delta parado na pista diante de um hangar, com operários em volta.

Malton, Ontário, fevereiro de 1959

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“O desenvolvimento do avião Arrow e do motor Iroquois deve ser encerrado agora”, registrou o Hansard, o diário oficial da Câmara dos Comuns do Canadá, em 20 de fevereiro de 1959. A frase saiu da boca do primeiro-ministro John Diefenbaker, numa sexta-feira, pouco antes das onze da manhã.

Em Malton, nos arredores de Toronto, a notícia chegou pelo rádio. Às quatro da tarde, os alto-falantes da fábrica da Avro Canada mandaram todo mundo para casa. Cerca de 14 mil funcionários da empresa perderam o emprego no mesmo dia, e milhares de outros nas fornecedoras foram dispensados nas semanas seguintes.

Na pista, cinco caças CF-105 Arrow estavam prontos e já tinham voado. Um sexto, equipado com o motor canadense Iroquois, esperava o primeiro voo. Nenhum deles decolou de novo.

Nos meses seguintes, operários com maçaricos cortaram os aviões em pedaços. Asas, fuselagens e trens de pouso viraram sucata vendida por quilo. Os gabaritos de montagem, as ferramentas, os desenhos técnicos e os filmes dos testes também foram destruídos ou desapareceram.

Nenhum documento público mostra quem deu a ordem de destruir tudo. Diefenbaker negou, até o fim da vida, ter mandado cortar os aviões. Os militares disseram cumprir regras de segurança sobre material secreto. A empresa disse ter obedecido ao governo.

Dois anos depois, a Força Aérea do Canadá recebeu 66 caças americanos McDonnell F-101 Voodoo, usados. No lugar do Arrow, o país já tinha aceitado instalar mísseis americanos Bomarc em duas bases, em Ontário e em Quebec.

Para muitos canadenses, as peças se encaixam numa explicação só: Washington não queria um caça canadense competindo com os seus e empurrou Ottawa para a prateleira americana. A crença sobrevive em livros, documentários e numa minissérie de televisão.

Para pesar essa explicação contra os papéis, a história começa num galpão de Malton, no dia em que o mundo olhou para outro lado.

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I  A Conspiração do Dia

A sexta-feira negra de Malton

Em 4 de outubro de 1957, a Avro Canada apresentou o primeiro Arrow a uma plateia de cerca de 13 mil pessoas em Malton. No mesmo dia, a União Soviética pôs em órbita o Sputnik, e a cerimônia sumiu das primeiras páginas.

O avião tinha nascido de um pedido da Real Força Aérea Canadense, de 1953, por um interceptador de longo alcance. A missão era derrubar bombardeiros soviéticos que cruzassem o Ártico rumo às cidades da América do Norte, em qualquer tempo e de dia ou de noite.

O Arrow era grande para um caça: asa em delta, dois motores, dois tripulantes e um compartimento interno de armas. Os engenheiros da Avro desenharam o avião quase do zero, com comandos de voo assistidos eletronicamente, uma novidade para a época.

O radar e o sistema de controle de tiro, chamado Astra, também seriam desenvolvidos sob encomenda, pela americana RCA. O míssil previsto, o Sparrow II, viria de outro fornecedor dos Estados Unidos. Os dois foram cancelados no meio do caminho, e cada troca empurrou o cronograma e o orçamento para cima.

Mach 1,98

O primeiro voo aconteceu em 25 de março de 1958, com o piloto de testes Janusz Żurakowski, um polonês que tinha lutado na Batalha da Inglaterra. Nos meses seguintes, os cinco aviões de pré-série voaram cerca de 70 horas somadas.

Num desses voos, o Arrow chegou a Mach 1,98, quase o dobro da velocidade do som, ainda com motores americanos Pratt & Whitney J75, provisórios. O Iroquois, mais potente, prometia passar disso, mas não chegou a voar instalado no caça.

A conta subia

O custo crescia a cada revisão. O governo liberal de Louis St. Laurent tinha encomendado o projeto, e o conservador Diefenbaker, eleito em 1957, herdou a conta. Somados o avião, o motor, o radar e o míssil previstos, cada unidade sairia muito mais cara do que os planos iniciais.

Em setembro de 1958, Diefenbaker anunciou que o programa seria revisto em seis meses. Ottawa tentou vender o Arrow aos Estados Unidos e ao Reino Unido. Nenhum dos dois comprou.

A Força Aérea britânica já tinha decidido apostar em mísseis, e os americanos ofereceram ao Canadá aviões próprios a preço de ocasião. Dentro do governo, o ministro da Defesa, George Pearkes, defendia que o dinheiro rendia mais em radares e mísseis do que em uma frota pequena de interceptadores caros.

O anúncio de fevereiro veio sem plano de transição para a Avro. A empresa, por decisão do presidente Crawford Gordon, demitiu a força de trabalho inteira no mesmo dia, um gesto que o governo leu como pressão política e os funcionários lembram como a Sexta-Feira Negra.

 
 

II  A Origem

Um míssil no lugar do caça

O argumento oficial do cancelamento era técnico. Na leitura do governo, os bombardeiros soviéticos estavam dando lugar aos mísseis balísticos, e contra um míssil um caça interceptador não servia para nada.

A resposta escolhida foi o Bomarc, um míssil terra-ar americano de longo alcance, guiado pela rede de radares SAGE dos Estados Unidos. O Canadá recebeu duas baterias, em North Bay e em La Macaza, integradas ao comando aéreo conjunto, o NORAD, criado em 1957.

O papel de Washington

Os documentos americanos liberados nas décadas seguintes mostram uma Washington interessada no Bomarc em solo canadense e sem interesse em comprar o Arrow. A Força Aérea dos Estados Unidos tinha os próprios interceptadores e não abriria espaço para um concorrente.

Os mesmos papéis não mostram uma ordem americana para cancelar o caça. O que aparece é um acordo de compartilhamento de produção de defesa, negociado em 1959, pelo qual empresas canadenses poderiam vender peças ao Pentágono. Ottawa trocou um avião próprio por uma fatia da indústria militar do vizinho.

Para Diefenbaker, que tinha feito campanha prometendo reduzir a dependência econômica dos Estados Unidos, a troca era constrangedora. Para os críticos, era a prova de que a política de defesa canadense passava a ser escrita em inglês americano, numa sala do Pentágono.

“O governo examinou com todo o cuidado e em profundidade as prováveis necessidades do avião Arrow e do motor Iroquois.” John Diefenbaker, declaração à Câmara dos Comuns, Hansard, 20 de fevereiro de 1959.

A ordem de destruir

O corte dos aviões é a parte mais difícil de explicar. Um protótipo cancelado costuma ir para museu ou ficar guardado num hangar. Os cinco Arrow foram picados no pátio da fábrica, sob vigilância, ao longo de 1959.

A versão mais citada atribui a ordem aos militares canadenses, preocupados com segredos do radar e dos sistemas de bordo. Nenhum documento com assinatura apareceu até hoje. A falta de um nome responsável deixou o espaço livre para a suspeita de que a ordem veio de fora.

O Bomarc, por sua vez, teve vida curta. Os mísseis canadenses só receberam ogivas nucleares em 1963, depois de uma crise que ajudou a derrubar o próprio governo Diefenbaker, e foram desativados em 1972.

 

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III  O Combustível

Engenheiros na NASA, sobras no lago

Em 1959, cerca de 30 engenheiros da Avro Canada foram contratados pela NASA para o Grupo de Tarefas Espaciais, na Virgínia. Entre eles estavam Jim Chamberlin, chefe de projeto do Arrow, e Owen Maynard, que depois trabalhou no módulo lunar do programa Apollo.

Para quem acreditava na tese do complô, a mudança parecia a última peça. O Canadá perdeu o caça, os aviões viraram sucata e os cérebros atravessaram a fronteira para trabalhar para os americanos.

A contratação foi aberta e documentada. A NASA, criada em 1958, precisava de engenheiros de aviação com experiência em projetos supersônicos, e a Avro tinha acabado de dispensar centenas deles de uma vez.

Muitos outros seguiram para empresas americanas como Boeing, Convair e Lockheed. Estimativas da época falam em centenas de engenheiros e técnicos deixando o Canadá nos dois anos seguintes, numa fuga de talentos que a imprensa canadense chamou de êxodo.

Livros e televisão

A versão do complô ganhou força nos anos 1970 e 1990. Em 1979, o jornalista James Dow publicou “The Arrow”, um relato do projeto e do cancelamento. Em 1992, Palmiro Campagna lançou “Storms of Controversy: The Secret Avro Arrow Files Revealed” (Tempestades de controvérsia: os arquivos secretos do Avro Arrow revelados), com documentos oficiais liberados.

Campagna apontou papéis indicando que o governo já decidira cancelar antes da revisão anunciada. Em 1997, a rede pública CBC exibiu a minissérie “The Arrow”, com Dan Aykroyd no papel de Crawford Gordon, e o caça virou símbolo de soberania perdida.

O que sobrou

Sobrou pouco. O nariz do sexto avião, o que levaria o Iroquois, está hoje no Museu de Aviação e Espaço do Canadá, em Ottawa, com partes das asas e um motor. Como ele escapou do maçarico continua contado de formas diferentes.

Entre 2017 e 2018, mergulhadores do projeto Raise the Arrow recuperaram do fundo do lago Ontário modelos de voo livre em escala, lançados por foguetes nos anos 1950 para testar o desenho. Foram as primeiras peças do programa achadas em décadas.

Fica a questão para quem lê: se o próprio governo do Canadá decidiu e o próprio país pagou, por que tanta gente prefere culpar Washington?

Confira sozinho, em 3 buscas:

• a declaração de Diefenbaker no Hansard de 20 de fevereiro de 1959;

• o livro de Palmiro Campagna, de 1992;

• o nariz do Arrow RL-206 no Museu de Aviação e Espaço do Canadá.

★ RARO

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AJohn Diefenbaker, em documento público
BO presidente da Avro, Crawford Gordon
CNenhum documento com assinatura apareceu até hoje
DO ministro da Defesa George Pearkes

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