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Bermeja, a ilha de 1539 que o México não acha

Cartas espanholas desenharam a ilha por 4 séculos ao norte de Yucatán. Em 2009, um navio da UNAM foi ao ponto marcado e só achou mar.

Carta náutica antiga do golfo do México com uma ilhota avermelhada ao norte de Yucatán.

Golfo do México, ao norte de Yucatán

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O jornal mexicano El Universal publicou em junho de 2009 a manchete “No existe la isla Bermeja” (Não existe a ilha Bermeja), ao noticiar a volta de um navio de pesquisa da Universidade Nacional Autônoma do México, a UNAM. A manchete pôs fim a uma busca de meses e abriu uma briga política que ainda não terminou.

O navio tinha ido a um ponto do golfo do México, em mar aberto ao norte da península de Yucatán. Ali, segundo cartas náuticas espanholas e mexicanas, deveria haver uma ilha pequena, de terra avermelhada. Os pesquisadores varreram a área com sonar e radar e encontraram água funda e fundo de areia.

A ilha tinha nome desde o século 16: Bermeja, que em espanhol quer dizer avermelhada. Aparecia em atlas impressos em Sevilha, em mapas de navegação ingleses e em cartas oficiais do próprio México até o século 20. Ninguém registrou um desembarque nela, mas ela seguia desenhada.

O problema virou caso de Estado por causa do que existe debaixo daquele mar. O golfo do México guarda algumas das maiores reservas de petróleo em águas profundas do continente. Uma ilha, por menor que fosse, mudaria a linha que separa o que é do México e o que é dos Estados Unidos.

Pela Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar, de 1982, cada ilha gera em volta de si uma zona econômica exclusiva (faixa de mar onde só o dono explora pesca, gás e petróleo) de até 200 milhas náuticas. Sem Bermeja, essa faixa recuava para a costa de Yucatán.

Em 2009, a ausência da ilha caiu numa hora delicada. México e Estados Unidos negociavam a divisão de um bolsão de petróleo no meio do golfo. Bastou a manchete para que deputados e senadores mexicanos levantassem uma suspeita em plenário: Bermeja não teria sumido sozinha.

A acusação apontava para Washington. Segundo a tese, a ilha teria sido destruída ou apagada dos mapas para que a fronteira marítima favorecesse as petroleiras americanas. A primeira pergunta que os parlamentares fizeram foi simples: quem, exatamente, ganhou com o sumiço?

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I  A Conspiração do Dia

A acusação no Senado mexicano

A suspeita ganhou voz oficial em 2008 e 2009, quando parlamentares do PRI e do PAN, os dois maiores partidos do Congresso mexicano na época, pediram à UNAM e à Marinha uma busca formal pela ilha Bermeja antes de qualquer acordo de petróleo com os Estados Unidos.

O alvo era um espaço do mapa que os diplomatas chamavam de “hoyos de dona” (buracos de rosquinha). São dois bolsões de mar no meio do golfo, fora das 200 milhas de qualquer país, cercados pelas zonas do México, dos Estados Unidos e de Cuba.

O bolsão ocidental foi dividido por um tratado assinado em junho de 2000 entre os governos de Ernesto Zedillo e Bill Clinton. O México ficou com a maior parte da área, e os dois países aceitaram uma moratória sobre a exploração na faixa da fronteira.

O argumento dos parlamentares

Os parlamentares contestavam a base do cálculo. Se Bermeja existisse, a zona exclusiva mexicana se esticaria para o norte e engoliria boa parte do bolsão. O México não teria precisado negociar aquela área: ela já seria dele.

A pergunta seguinte foi quem tinha desenhado a linha de 2000 sem a ilha. Os negociadores mexicanos usaram como ponto de base o arquipélago de Alacranes e o Cayo Arenas, recifes reais e habitados por militares. Bermeja ficou de fora porque nenhum levantamento recente a tinha confirmado.

Daí nasceu a versão mais forte da conspiração. Para os acusadores, alguém sabia que a ilha existia, ou tinha existido, e trabalhou para que ela sumisse antes da assinatura. O suspeito preferido era a CIA, citada em discursos e em reportagens de rádio na Cidade do México.

O que a tese dizia ter acontecido

As versões variavam. A mais radical falava em dinamite ou bombardeio para afundar uma ilha baixa de areia. Outra dizia que mapas antigos tinham sido retirados de arquivos para apagar o registro. Uma terceira sustentava que a ilha existia e que o governo mexicano escondia o dado por conveniência.

Nenhuma delas veio com documento, testemunha ou foto. O que os parlamentares tinham era o vazio no mar e um acordo que favorecia, em parte, o vizinho do norte.

Foi para responder a essa acusação que o navio da UNAM saiu do porto de Tuxpan. A missão era medir o fundo do mar no ponto das cartas e dizer, com instrumento, se havia ali uma ilha, um recife afundado ou nada.

 
 

II  A Origem

Uma ilha desenhada por 4 séculos

A primeira aparição conhecida de Bermeja está no “Islario general de todas las islas del mundo” (Ilhário geral de todas as ilhas do mundo), atlas do cosmógrafo espanhol Alonso de Santa Cruz, preparado a partir de 1539 para o rei Carlos I da Espanha.

Santa Cruz era cosmógrafo (cartógrafo oficial) da Casa de Contratação de Sevilha, o órgão que controlava as rotas para a América. Ele montava os mapas com relatos de pilotos que voltavam das Índias, e não visitava os lugares que desenhava.

Bermeja entrou nesse atlas como uma ilhota no caminho entre Cuba e Veracruz. Daí em diante, ela foi copiada de carta em carta. Um cartógrafo pegava o mapa do anterior, reproduzia as ilhas e acrescentava o que os pilotos novos contavam.

A cópia que vira prova

Nesse método, um erro de 1539 podia sobreviver por séculos. Bastava que nenhum navio passasse exatamente pelo ponto e voltasse dizendo que ali só havia mar. No golfo, as rotas comerciais desviavam dos baixios de Yucatán, e a área de Bermeja ficava fora do caminho mais usado.

A posição também dançava. Cada carta punha a ilha em coordenadas um pouco diferentes, às vezes dezenas de quilômetros de distância umas das outras. Os pilotos do século 16 mediam latitude com astrolábio e não tinham como medir longitude com precisão em alto-mar.

O México independente herdou esses mapas. Bermeja continuou em cartas oficiais mexicanas do século 19 e em publicações do século 20, e aparecia em listas de ilhas do território nacional sem que ninguém fosse conferir.

As buscas antes de 2009

O sumiço começou a ser notado quando o petróleo do golfo virou estratégico. A Marinha mexicana fez buscas na região nos anos 1990, segundo declarações de parlamentares no debate de 2009, e também não achou terra firme.

A expedição da UNAM de 2009 usou o navio oceanográfico Justo Sierra, da própria universidade. Os pesquisadores fizeram sondagens no ponto clássico e nas coordenadas alternativas das cartas antigas. Encontraram fundo entre 40 e 50 metros, sem sinal de ilha afundada recente.

O relatório da UNAM apontou três explicações possíveis. A ilha pode ter sido um erro de cartografia desde o início. Pode ter sido um banco de areia que a erosão e os furacões desfizeram ao longo de séculos. Ou pode ter afundado por movimento do fundo marinho, hipótese que os próprios geólogos consideraram a menos provável naquele trecho estável do golfo.

 

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III  O Combustível

O petróleo debaixo do ponto vazio

O que mantém a conspiração viva é o tamanho da aposta: o bolsão ocidental do golfo fica sobre a mesma bacia geológica de campos americanos como o Great White, que a Shell começou a explorar em 2010 a cerca de 2.400 metros de profundidade.

A tese da CIA resolve um incômodo real. É difícil aceitar que um país perdeu área de petróleo por causa de um erro de desenho de 500 anos. Uma ilha explodida por espiões dá um culpado, e um culpado estrangeiro reforça discurso em ano de eleição.

Mas a explosão esbarra na física. Afundar uma ilha inteira, mesmo pequena e de areia, deixaria cratera, entulho espalhado e registro sísmico. Os sismógrafos da região não apontaram nada parecido, e o levantamento do Justo Sierra mostrou fundo regular no ponto marcado.

O acordo que veio depois

O México seguiu negociando sem Bermeja. Em fevereiro de 2012, os governos de Felipe Calderón e Barack Obama assinaram o Acordo sobre Jazidas Transfronteiriças de Hidrocarbonetos (reservas de petróleo e gás que cruzam a fronteira). O texto regula como os dois países exploram juntos os campos cortados pela linha.

O acordo encerrou a moratória do tratado de 2000 e abriu a área para leilões dos dois lados. Nenhuma das partes citou a ilha no texto final. Para a diplomacia mexicana, a questão estava resolvida pelo relatório da UNAM.

O que se sabe e o que não se sabe

Sabe-se que nenhuma ilha existe hoje no ponto das cartas, e que nenhuma expedição moderna encontrou restos de uma. Também se sabe que a linha de 2000 foi traçada com recifes reais como base, e não com Bermeja.

Não se sabe se a ilha existiu algum dia. Nenhum relato de desembarque, amostra de rocha ou registro de farol sobreviveu. O atlas de Santa Cruz não diz qual piloto informou a ilha, e esse nome pode nunca aparecer, porque os relatos originais da Casa de Contratação se perderam em boa parte.

A hipótese mais aceita entre cartógrafos é a do erro copiado: um baixio, uma mancha de algas ou uma confusão de coordenadas registrada em 1539 e replicada por quatro séculos. A conspiração da CIA não tem prova, e a ilha também não.

“Se Bermeja nunca existiu, por que o México a manteve nos mapas oficiais até o século 20?”

Confira sozinho, em três buscas:

• o “Islario general” de Alonso de Santa Cruz, na Biblioteca Nacional da Espanha;

• o tratado de 9 de junho de 2000 entre México e Estados Unidos sobre o golfo;

• a expedição do navio Justo Sierra, da UNAM, em 2009.

 
 
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Quiz da edição

No ponto exato onde as cartas náuticas situavam a ilha Bermeja, qual foi a profundidade do fundo marinho que a expedição da UNAM mediu em 2009?

AMenos de 5 metros, compatível com um banco de areia raso
BMais de 300 metros, um cânion submarino profundo
CEntre 40 e 50 metros, sem sinal de ilha afundada recente
DO navio não chegou ao ponto marcado por causa do mau tempo

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