In partnership with

Conspiração do Dia   Conspiração do Dia
ED 046

100% escolheram Teoria da internet morta. Sai em 23/09.

{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

Bielefeld não existe: a piada de 1994 e o milhão de euros de 2019

Um estudante de Kiel decretou numa lista da Usenet que a cidade era encenação, e 25 anos depois a própria prefeitura pôs 1 milhão de euros na mesa.

Mapa alemão sobre mesa de arquivo à luz de abajur, com a área de Bielefeld recortada e vazia, fichas e microfilme ao lado.

O buraco no mapa que virou tese, 1994

▼
 

Ocomunicado da Bielefeld Marketing, agência de turismo mantida pela prefeitura alemã, saiu em 22 de agosto de 2019 com a chamada "Die Bielefeldverschwörung", a conspiração de Bielefeld, e uma oferta pública de 1 milhão de euros a quem apresentasse prova irrefutável de que a cidade não existe.

Bielefeld existe no cadastro, no mapa e no orçamento. Fica no noroeste da Alemanha, no estado da Renânia do Norte-Vestfália, e a prefeitura informa cerca de 340 mil habitantes, o que a põe entre as vinte maiores do país. Tem uma universidade aberta em 1969, a fábrica de fermento e pudim Dr. Oetker desde 1891 e um castelo medieval, o Sparrenburg, erguido no século 13 sobre a colina que domina o centro.

As regras do concurso couberam num parágrafo. Qualquer pessoa podia enviar a prova, em qualquer formato, num prazo de duas semanas que se encerrava no dia 4 daquele setembro. Um grupo de funcionários da agência leria tudo. A Bielefeld Marketing contabilizou cerca de 2.000 envios: vídeos, equações, mapas rabiscados, laudos falsos de satélite e cartas manuscritas de gente que jurava nunca ter cruzado com um morador da cidade.

O resultado saiu em setembro de 2019. Nenhum envio convenceu o grupo de leitura, o milhão ficou no caixa e a agência anunciou o encerramento da teoria por falta de prova, com a fórmula que ela mesma escolheu: a conspiração estava desfeita. A campanha custou uma fração do prêmio e rendeu reportagem em jornal de dez países.

A prefeitura tinha um motivo comercial claro. Desde os anos 1990, quem digitava o nome da cidade em qualquer buscador recebia primeiro a negação dela, e não o castelo, a universidade ou a fábrica. Pagar para encerrar a brincadeira saía mais barato do que continuar disputando a primeira linha do resultado.

A piada que a prefeitura tentou enterrar tinha então 25 anos, um mecanismo de argumentação fechado e um teste de três perguntas que qualquer leitor podia aplicar em si mesmo naquele minuto.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Conspiração do Dia

Três perguntas que apagam uma cidade

A tese é que Bielefeld não existe: o lugar seria uma encenação sustentada por um grupo anônimo, tratado no texto original apenas como SIE, ELES, com placas de estrada, prédios, empresas e moradores fabricados, e quem afirma ter estado lá foi enganado ou trabalha na encenação.

O teste que acompanha a tese tem três perguntas. Você conhece alguém de Bielefeld? Você já esteve em Bielefeld? Você conhece alguém que já esteve em Bielefeld? Três respostas negativas, diz o texto, bastam como prova.

O truque está na saída que o argumento fecha. Resposta afirmativa em qualquer das três perguntas não derruba a tese: ela transforma quem respondeu em agente ou em vítima da encenação. Nenhuma observação do mundo real pode contrariar a afirmação, e essa impossibilidade é justamente o que a piada queria expor nas teorias sérias que circulavam na época sobre agências de inteligência.

Os supostos responsáveis pela farsa vêm em três variantes no texto original, todas propositalmente batidas: a CIA, o serviço secreto israelense Mossad e extraterrestres que usariam a universidade local como base. O autor nunca escolheu uma, e a ausência de escolha virou parte do jogo.

O cenário ajudou. A autoestrada A2, que corta a região, passou anos com obras e desvios, e o folclore da piada tratava cada interdição como manobra para impedir a chegada de curiosos. Placas arrancadas, saídas fechadas e desvios sinalizados renderam fotografias que circulavam como evidência de bloqueio deliberado.

Em novembro de 2012, num encontro com cidadãos registrado em vídeo pelo governo alemão, a chanceler Angela Merkel comentou uma visita que fizera à cidade e emendou "wenn es das überhaupt gibt", se é que existe. A plateia riu, a frase virou manchete na imprensa alemã e a piada ganhou o carimbo mais improvável possível: o da chefe de governo.

A tese também trouxe um aviso embutido, peça comum nos dossiês que ela parodiava: quem investigasse demais correria risco, e o sumiço de curiosos ficaria por conta de ELES. O recado servia de blindagem contra a única atitude capaz de encerrar a conversa, que era pegar o trem e descer na estação central da cidade.

Contra tudo isso pesa o cartório. Bielefeld recebeu direitos de cidade em 1214, sob o conde Hermann IV de Ravensberg, aparece em documento medieval, paga e recolhe impostos, elege prefeito e registra nascimentos. A discussão nunca foi sobre a geografia. Foi sobre um texto de humor que conseguiu sobreviver ao próprio contexto, e esse texto tem autor, data e endereço.

 
 

II  A Origem

O post de 16 de maio de 1994

A origem é um único post assinado por Achim Held, então estudante de ciência da computação na Universidade de Kiel, publicado em 16 de maio de 1994 na Usenet, a rede de fóruns de texto que antecedeu a web comercial, no grupo alemão de conversa absurda de.talk.bizarre.

Held contou depois que a ideia nasceu numa festa de estudantes. Um convidado ouviu que outro, Ralf Neukirchen, era de Bielefeld e reagiu com a frase feita "Das gibt's doch gar nicht", que em português corresponde a "isso nem existe" e se usa para expressar espanto. Held achou graça na literalidade da expressão e passou a semana seguinte transformando a piada de mesa em documento.

O texto que ele escreveu imita a forma dos dossiês conspiratórios que circulavam nos fóruns: hipótese, perguntas de verificação, suspeitos possíveis, aviso de perigo a quem investigasse. A graça dependia de o leitor reconhecer o formato antes do conteúdo.

"Bielefeld? Das gibt's doch gar nicht!"

Bielefeld? Isso nem existe! Achim Held, post no grupo de.talk.bizarre da Usenet, 16 de maio de 1994.

O texto fez o caminho da época. Copiado de fórum em fórum, virou arquivo de perguntas frequentes, depois página na web, depois camiseta, depois piada pronta em programa de televisão. Held manteve a autoria discreta por alguns anos e só passou a dar entrevistas quando a atribuição já corria errada, com gente reivindicando o texto.

Na virada dos anos 2000 ele já repetia em entrevista que não havia mensagem política nenhuma, que Bielefeld fora escolhida por acaso e que qualquer cidade média de nome pouco marcante teria servido. O alvo era o raciocínio circular, não o município.

O meio em que o texto nasceu explica parte da sobrevida. A Usenet não tinha dono, curadoria nem apagamento central: cada servidor guardava uma cópia das mensagens e as repassava adiante, de modo que retirar o texto de circulação era tecnicamente impossível mesmo para quem o escreveu. Held publicou uma vez e perdeu o controle do que tinha escrito na mesma semana.

A prefeitura levou tempo para decidir o que fazer. Reagiu primeiro com irritação e desmentido, tentou ignorar, e nos anos 2010 mudou de lado: passou a vender a piada como marca da cidade em campanhas de turismo, o que desembocou no prêmio de 2019.

 

Quem banca a edição de hoje

Replace 16 supplements in one daily drink.

David Beckham. Giannis Antetokounmpo. Aryna Sabalenka. Inter Miami CF. The world's best choose IM8 because performance starts with what you do every day.

Daily Ultimate Essentials and Longevity deliver a complete, clinically formulated system for energy, digestion, sleep, focus and healthy aging. In a 12-week randomized controlled trial, 95% felt a boost in daily energy, 85% felt less bloated with better digestion, 80% reported better sleep and 75% reported sharper focus and mental clarity.

IM8 is NSF Certified for Sport, tested against 280+ banned substances and recommended by 300+ clinicians. With 50 million servings sold across 46 countries, discover the IM8 routine trusted at the highest levels of sport—and built for everyday life. See the clinical results.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  O Combustível

Quatro razões para a piada não morrer

A primeira razão é a arquitetura do argumento. Uma afirmação que converte toda contradição em prova a favor não pode ser vencida com fato. Quem nunca foi a Bielefeld confirma a tese, quem foi é cúmplice, e a discussão termina onde começou.

A segunda razão é o tamanho certo do alvo. Bielefeld é grande o bastante para constar em mapa e pequena o bastante para que o alemão médio nunca tenha ido lá. Uma cidade de 340 mil habitantes sem cartão postal nacional cabe perfeitamente no papel de lugar que ninguém checa.

A terceira razão é a adesão dos próprios acusados. Prefeitura, universidade e clube de futebol passaram a brincar com a tese em material oficial, e a cidade chegou a estampar a negação nas próprias campanhas. Instituição que entra na piada renova a piada todo ano.

A quarta razão é o custo zero de repetição. A tese cabe numa frase e o teste cabe em três perguntas, formato que sobreviveu à migração da Usenet para o fórum, do fórum para o blog, do blog para a rede social. Nada precisou ser adaptado.

O prêmio, porém, produziu efeito contrário ao anunciado. O concurso rendeu à cidade a maior cobertura internacional que ela já teve, e a notícia que viajou pelo mundo foi a da tese, não a do desmentido. Quem leu a manchete guardou a frase de 1994 e esqueceu o resultado de 2019.

Contra a permanência trabalha o desgaste do próprio autor. Held disse em entrevistas que a piada já tinha rendido o que devia render e que preferia vê-la aposentada, e o prêmio de 2019 foi desenhado exatamente para encerrá-la com data e assinatura.

O que o caso estabeleceu: Achim Held publicou o texto fundador em 16 de maio de 1994, num grupo de humor da Usenet; a tese se organiza em três perguntas de verificação impossíveis de refutar; a Bielefeld Marketing ofereceu 1 milhão de euros em 22 de agosto de 2019 e, depois de cerca de 2.000 envios, anunciou em setembro do mesmo ano que nenhum servia.

O que ficou sem resposta: ninguém fora da agência leu os envios. A Bielefeld Marketing não publicou a lista das respostas, os nomes de quem participou nem o critério usado para reprovar cada uma, e o número de 2.000 vem do comunicado da própria agência, sem auditoria independente. Também não existe registro de quanto a campanha custou aos cofres municipais, porque a prefeitura tratou o valor como despesa de marketing sem detalhamento público. Sem os envios e sem a planilha, a conta final do episódio continua sendo a versão de quem organizou o concurso.

O saldo é uma inversão engraçada: uma cidade real gastou dinheiro público para comprar a prova de que não existe, não conseguiu comprá-la, e saiu do episódio mais conhecida do que entrou.

A lição prática de Bielefeld: argumento que transforma toda objeção em confirmação não é forte, é imune, e imunidade a fato é defeito, nunca qualidade.

"Quantas cidades você jura que existem sem nunca ter pisado em nenhuma delas?"

Confira sozinho, em três buscas:
a data exata do post de Achim Held e o grupo da Usenet onde ele saiu;
o valor oferecido pela Bielefeld Marketing em 2019 e o prazo de envio;
quantos habitantes a prefeitura de Bielefeld declara hoje.

 
 
O Manual do Golpe: oito pastas, uma por dia: O prazo que chegou escrito, O Pix que caiu por engano, A ligação da central de segurança, O acesso que você mesmo abre, O número novo do parente, A amizade que demora meses, O dinheiro que pede dinheiro antes, O preço que não fecha a conta. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

Segundo a edição, quantos envios a Bielefeld Marketing recebeu no concurso do milhão de euros?

ACerca de 200
BCerca de 2.000
CCerca de 20.000
DCerca de 200.000

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🕵️🕵️🕵️🕵️🕵️  ótima 🕵️🕵️🕵️🕵️  boa 🕵️🕵️🕵️  ok 🕵️🕵️  ruim 🕵️  péssima
 
Recomendação de Newsletter
A Origem das Palavras

A Origem das Palavras

Todo dia, 12:12. Uma palavra que você usa sem pensar revela séculos de história escondida, em dois minutos de leitura.

Quero receber →

 
Indique e destrave

Indique essa newsletter para um amigo

Cada leitor confirmado pelo seu link sobe um degrau da escada de prêmios.

  
você1

{{indicacoes_confirmadas | 0}} confirmadas · faltam {{indicacoes_falta | 1}} pra próxima recompensa

● 1
Pack de wallpapers
Pack de wallpapers
■ 3
Edição de Colecionador do mês
Edição de Colecionador do mês
▲ 5
ebook O Manual do Golpe
ebook O Manual do Golpe

Pegar meu link de indicação →

 
Sua jornada
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub
{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}
 
 
 

Agora você sabe o fim.

Conspiração do Dia

CONSPIRAÇÃO DO DIA

Uma teoria por dia, explicada até o fim

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter