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Cícero não esperou os historiadores. Publicou os quatro discursos contra Catilina em 60 antes de Cristo, revisados por ele mesmo, e escreveu sobre o próprio consulado em grego, em prosa e num poema épico em latim.
O poema, “De consulatu suo” (Sobre o seu consulado), trazia um verso que virou piada já na Antiguidade: “O fortunatam natam me consule Romam” (Ó Roma afortunada, nascida sob o meu consulado). O retórico Quintiliano, na “Instituição Oratória”, em torno do ano 95, o cita como exemplo de verso infeliz, e o satirista Juvenal zombou dele na Sátira X.
Os discursos que chegaram até hoje são, portanto, a versão editada três anos depois, quando Cícero já precisava justificar as execuções diante de Clódio. Nenhum estudioso sabe quanto o texto mudou entre a fala no Senado e o rolo publicado, porque a versão oral não foi registrada por mais ninguém.
A conspiração que veio antes
Cícero e Salústio falam também de uma “primeira conjuração”, em 66 e 65 antes de Cristo, em que Catilina teria planejado matar cônsules no primeiro dia do ano. O historiador Robin Seager, no artigo “The First Catilinarian Conspiracy” (A primeira conspiração de Catilina), publicado na revista Historia em 1964, concluiu que esse episódio foi montado depois, com boatos de campanha eleitoral.
Em 64, Cícero já tinha atacado Catilina no discurso “In toga candida” (Na toga branca, a roupa dos candidatos), do qual só restam fragmentos. A imagem do conspirador nato estava pronta antes da conspiração de 63, e o consulado de Cícero ganhou dela o seu grande feito.
A voz do réu
O único texto atribuído a Catilina é uma carta a Quinto Lutácio Cátulo, copiada por Salústio. Nela, Catilina diz que assumiu a causa dos pobres porque tinha sido roubado do fruto do seu trabalho e da honra que lhe era devida. Se a carta foi copiada fielmente, ninguém consegue provar: não existe outra cópia para comparar.
A reavaliação demorou. Em 1850, o norueguês Henrik Ibsen estreou na literatura com a peça “Catilina”, que trata o personagem como rebelde trágico contra um Senado corrupto. Historiadores do século XX, Seager entre eles, passaram a ler Catilina como um nobre endividado e ambicioso, culpado de rebelião armada, mas menor do que o monstro dos discursos.
O tamanho real do plano de incêndio continua sem resposta em fonte nenhuma. A rebelião de Mânlio existiu e terminou em batalha. As cartas aos alóbroges existiram e foram lidas no Senado. Os detalhes do massacre planejado vêm só de Cícero e de quem o leu.
Fica a questão para quem lê: quando o único relato de um crime é o de quem puniu os culpados, quanto dele é prova e quanto é defesa?
Confira sozinho, em 3 buscas:
• a Primeira Catilinária, de 8 de novembro de 63 antes de Cristo;
• o artigo de Robin Seager na revista Historia, de 1964;
• a carta de Catilina a Cátulo, em Salústio, capítulo 35.
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