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Em 1974, Fort Knox abriu o cofre para 100 jornalistas

Peter Beter gravava fitas cassete jurando um cofre vazio. O Tesouro levou congressistas ao Kentucky para ver as barras de perto.

Fachada de granito do depósito de ouro de Fort Knox, no Kentucky.

O depósito de Fort Knox, aberto em 1936

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O secretário do Tesouro americano, Steven Mnuchin, publicou no Twitter em 21 de agosto de 2017 a frase “Glad gold is safe!” (Que bom, o ouro está seguro!). Ele tinha passado a tarde dentro do depósito de Fort Knox, no Kentucky, ao lado do senador Mitch McConnell, enquanto o eclipse solar escurecia o céu do estado.

A frase virou piada na mesma hora. Ninguém tinha perguntado ao secretário pelo ouro, e mesmo assim ele achou necessário avisar que o metal continuava no lugar.

O aviso tinha endereço. Há mais de quarenta anos circula nos Estados Unidos a suspeita de um cofre vazio, com as barras levadas embora em segredo e paredes de granito guardando só a fama.

O prédio ajuda a suspeita. Fica dentro de uma base do Exército, cercado por cerca dupla, guaritas e câmeras. Nenhum turista entra, nenhuma visita guiada existe, e o próprio Tesouro diz no site oficial que o depósito não recebe visitantes.

Quem guarda o maior estoque de ouro do governo americano e não deixa ninguém olhar oferece um convite pronto. Basta uma voz confiável dizer em público a frase proibida: lá dentro não tem nada.

Essa voz apareceu nos anos 1970. Saiu da boca de um advogado de Washington com passagem por um banco federal, terno escuro e fala pausada de professor.

Ele trocou a televisão pelo correio. Gravava fitas cassete todo mês, vendia por assinatura e deixava o boato correr de toca-fitas em toca-fitas, de sala em sala.

O assinante recebia o pacote em casa, ouvia na cozinha ou no carro e emprestava a fita ao vizinho na semana seguinte.

A pressão cresceu a ponto de obrigar o governo a um gesto raro. Numa manhã de 1974, o Tesouro destrancou a porta do cofre e deixou entrar gente de fora pela primeira vez.

O gesto resolveu menos do esperado. Para entender por quê, é preciso começar pelo advogado e pelo conteúdo das fitas.

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I  A Conspiração do Dia

As fitas de Peter Beter

Peter David Beter nasceu na Virgínia Ocidental em 1921 e fez carreira como advogado em Washington. Entre 1961 e 1967, foi conselheiro jurídico geral do Export-Import Bank, o banco federal americano de crédito ao comércio exterior.

Em 1973, Beter publicou o livro The Conspiracy Against the Dollar (A conspiração contra o dólar). A tese do volume: um grupo de banqueiros internacionais manobrava a moeda americana para tomar as reservas do país.

Para Beter, as barras tinham saído de Fort Knox escondidas e cruzado o oceano até cofres particulares da Europa, e o governo guardava o segredo para evitar pânico.

O correio das fitas

Em 1975, ele lançou o Dr. Beter Audio Letter (Carta em áudio do Dr. Beter). Cada edição era uma fita cassete de cerca de uma hora, gravada no tom calmo de quem lê um relatório.

A série durou até 1982 e somou 80 fitas. Os assinantes copiavam as gravações e passavam para amigos, igrejas e grupos de discussão, numa rede de distribuição sem jornal, sem rádio e sem editor.

O formato blindava a mensagem. Uma fita não tem espaço para resposta nem para checagem. O ouvinte escuta a voz de um ex-advogado do governo e recebe a acusação já com a autoridade do cargo antigo.

Os culpados de Beter

As fitas apontavam nomes. Os principais acusados eram a família Rockefeller e os bancos ligados a ela, descritos como donos de um plano para quebrar o dólar e comprar o ouro barato.

Beter acrescentava detalhes de espionagem. Falava em operações noturnas, caminhões sem placa e agentes estrangeiros, e com o passar dos anos misturou ao ouro outras acusações, como sósias de líderes mundiais e bases soviéticas secretas.

Nenhuma dessas afirmações veio acompanhada de documento. Beter citava fontes anônimas de dentro do governo e pedia ao ouvinte confiança no histórico dele. Quando uma previsão falhava, a fita seguinte explicava o atraso como parte do plano dos acusados, e a lista de assinantes seguia crescendo.

A conta do metal

O argumento central dependia de um número oficial. O Tesouro americano declara em Fort Knox 147,3 milhões de onças troy (a unidade de peso dos metais preciosos, com 31,1 gramas), segundo o relatório mensal de reservas de ouro publicado pelo próprio Tesouro.

Esse volume equivale a cerca de 4.580 toneladas, perto de metade do ouro do governo americano. Para Beter, o número existia só no papel. Ele morreu em 1987 sem apresentar prova do esvaziamento.

 
 

II  A Origem

A porta de 20 toneladas

O depósito nasceu de uma decisão de 1933. Em 5 de abril, o presidente Franklin Roosevelt assinou a Ordem Executiva 6102, obrigando os cidadãos a entregar moedas, barras e certificados de ouro ao Federal Reserve, o banco central americano.

O Gold Reserve Act (Lei da Reserva de Ouro), de 1934, passou o metal recolhido para o Tesouro. O governo precisava de um lugar longe da costa, protegido de invasão pelo mar, para guardar tudo.

O Tesouro escolheu um terreno da base militar de Fort Knox, no interior do Kentucky, cedido pelo Exército, e cercou o cofre de soldados permanentes.

O prédio de granito

A obra terminou em dezembro de 1936 e custou cerca de 560 mil dólares, de acordo com a Casa da Moeda americana. As paredes levam granito, concreto e aço, e a porta do cofre pesa mais de 20 toneladas.

Nenhum funcionário conhece a combinação inteira. Cada pessoa da equipe sabe só uma parte da sequência, e a abertura exige várias delas juntas, diante de uma fechadura com trava de tempo.

A segurança externa fica com a polícia da Casa da Moeda, uma força federal própria, e a base do Exército em volta abriga milhares de soldados. Quem chega sem autorização é barrado na estrada, quilômetros antes do prédio.

Os trens de 1937

O ouro chegou de trem a partir de janeiro de 1937, vindo das casas da moeda de Filadélfia e Nova York. Os vagões viajaram com guarda armada, e o transporte foi tratado como operação militar.

Durante a Segunda Guerra, o mesmo cofre guardou a Declaração de Independência, a Constituição americana e uma cópia da Magna Carta (a carta inglesa de 1215 que limitou o poder do rei). Os documentos voltaram a Washington em 1944.

O dólar solto do ouro

Em 15 de agosto de 1971, o presidente Richard Nixon suspendeu a conversão do dólar em ouro para governos estrangeiros. Até ali, um banco central podia trocar dólares por metal a 35 dólares a onça.

A medida fez o público perguntar o destino do ouro. Se o dólar não valia mais metal, para quem servia o cofre? Beter ofereceu a resposta: a decisão de Nixon escondia um estoque já desaparecido.

Em agosto de 1974, o Congresso aprovou a lei devolvendo aos americanos o direito de ter ouro, a valer a partir de 31 de dezembro. O assunto voltou às primeiras páginas, e a pergunta sobre Fort Knox chegou ao Capitólio.

 

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III  O Combustível

A manhã de 23 de setembro

O secretário do Tesouro, William Simon, decidiu responder com a porta aberta. Em 23 de setembro de 1974, a diretora da Casa da Moeda, Mary Brooks, levou ao depósito uma comitiva de congressistas e cerca de 100 jornalistas.

Era a primeira vez, desde a inauguração em 1936, que pessoas de fora do governo entravam no cofre de Fort Knox, e a visita continua sendo a única do tipo.

O que os visitantes viram

O grupo entrou em turmas pequenas. Os funcionários abriram um dos compartimentos internos e mostraram as pilhas de barras, cada uma com cerca de 12,4 quilos.

Os fotógrafos registraram o metal, e os jornais publicaram as imagens no dia seguinte. A cena correu o país.

A falha da prova

A visita mostrou um compartimento, não o cofre inteiro. Ninguém pesou barra por barra, ninguém testou a pureza do metal, e o público ficou com a palavra do Tesouro sobre as outras salas.

Os congressistas voltaram a Washington satisfeitos, e os jornais trataram o caso como encerrado. Nos círculos de assinantes das fitas, a reação foi outra.

Os seguidores de Beter leram a cena ao contrário. Para eles, o governo arrumou um compartimento cheio para a foto e manteve os outros fechados porque estavam vazios. O boato sobreviveu à prova.

O Tesouro respondeu com papel. Desde então, comitês de auditoria e, mais tarde, o Escritório do Inspetor-Geral do Tesouro verificam o estoque e publicam os resultados, contando lacres e testando amostras.

O boato nas redes

Em 2017, Mnuchin repetiu o gesto de 1974 em escala menor, ao lado de McConnell. A frase dele no Twitter reacendeu a dúvida em vez de apagá-la.

Em fevereiro de 2025, o empresário Elon Musk perguntou na rede X quem confirmava a presença do ouro em Fort Knox. O presidente Donald Trump disse em seguida pretender visitar o cofre, e o boato de Beter ganhou nova plateia.

Até a publicação desta edição, nenhum relatório novo mudou o número oficial.

O ouro está lá segundo todas as auditorias publicadas. A dúvida dura porque nenhuma auditoria pública abre todas as salas para câmeras, e a última visita de jornalistas aconteceu em 1974.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o relatório mensal de reservas de ouro do Tesouro, com os 147,3 milhões de onças;

• as fotos da visita de 23 de setembro de 1974, com Mary Brooks;

• a Ordem Executiva 6102, assinada por Roosevelt em 1933.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, em que data o Tesouro abriu a porta do cofre de Fort Knox para congressistas e jornalistas pela primeira vez?

A15 de agosto de 1971
B23 de setembro de 1974
C31 de dezembro de 1974
D21 de agosto de 1975

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