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O território israelense fica no cruzamento de três continentes. Toda primavera e todo outono, bandos imensos de cegonhas, pelicanos, águias e falcões passam por ali, entre a Europa, a Ásia e a África.
A passagem é tão concentrada que vira problema de aviação. Uma ave grande batendo num caça pode derrubar o avião, e a Força Aérea israelense perdeu aeronaves e pilotos em choques com pássaros nas décadas de 1970 e 1980.
O programa acadêmico que marca aves em Israel nasceu da necessidade militar de saber onde os bandos voam, em que altura e em que mês, para tirar os aviões do caminho. |
O ornitólogo do radar
Quem conduz essa pesquisa é Yossi Leshem, ornitólogo da Universidade de Tel Aviv. A partir dos anos 1980, ele mapeou as rotas de migração com radar, planadores motorizados e observadores em terra, e entregou os mapas à Força Aérea.
Com os mapas, os voos de treino passaram a evitar os corredores de migração nas semanas de pico. Leshem fundou depois o Centro Internacional para o Estudo da Migração de Aves, em Latrun, ligado à universidade.
Do mapa à anilha
O trabalho de marcação cresceu junto com o barateamento do GPS. Grifos, cegonhas e águias passaram a carregar transmissores, e as anilhas com o endereço de Tel Aviv se espalharam pelo Oriente Médio e pela África.
Cada ave marcada leva o dado de volta ao laboratório. O mesmo mapa serve à conservação do grifo e à segurança dos voos, e a ligação com a Força Aérea alimenta a desconfiança dos vizinhos.
Leshem tentou usar as aves no sentido oposto. Montou projetos com Jordânia e territórios palestinos para monitorar corujas usadas no controle de roedores em plantações, com pesquisadores dos dois lados.
A conta do espião
Um espião precisa ir aonde o mandam, voltar com o dado e passar despercebido. O grifo voa ao sabor das correntes de ar quente, pousa onde há carcaça e chama atenção com quase três metros de asa.
As aves marcadas por Israel não cumprem nenhum dos três requisitos. Cumprem outro papel: mostram por onde a vida selvagem cruza fronteiras fechadas para pessoas.
A suspeita sobrevive porque junta dois fatos reais. Israel tem um serviço secreto ativo na região, e a pesquisa com aves serve também à Força Aérea. Falta o terceiro fato, a ave espiã, e nenhum governo vizinho jamais exibiu um.
Confira sozinho, em 3 buscas:
• a reportagem do Gulf News sobre a soltura do abutre R65, de janeiro de 2011;
• o caso do falcão-peneireiro da província de Elazığ, de maio de 2013;
• o trabalho de Yossi Leshem com a Força Aérea israelense sobre rotas de migração.
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