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Em 2010, sauditas prenderam um grifo com anilha de Tel Aviv

Um abutre com GPS virou suspeito de espionagem no deserto. Três anos depois, um falcão turco passou pelo raio X pelo mesmo motivo.

Grifo em voo com transmissor GPS preso às costas.

Um grifo marcado por pesquisadores israelenses

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O site israelense Arutz Sheva publicou em janeiro de 2011 a manchete “Vulture in Saudi Custody Suspected as Mossad Agent” (Abutre sob custódia saudita é suspeito de ser agente do Mossad). A manchete parecia piada, e não era.

Nas últimas semanas de dezembro de 2010, moradores de uma área rural da Arábia Saudita encontraram no chão um grifo, abutre grande de pescoço pelado e asas de quase três metros abertas.

O bicho trazia nas costas uma pequena caixa com antena. Na perna, uma anilha de metal (o anel de identificação que os biólogos prendem nas aves) com as palavras Tel Aviv University.

Para quem achou a ave, a leitura foi imediata. Um animal vindo de Israel, com aparelho eletrônico preso ao corpo, só podia estar ali a serviço do Mossad, o serviço secreto israelense.

A ave foi entregue às autoridades. Jornais sauditas publicaram a captura, e a versão do espião se espalhou por fóruns e sites em árabe, com centenas de comentários garantindo que os sionistas treinavam pássaros para vigiar o reino.

O caso caiu num terreno já preparado. Semanas antes, em dezembro de 2010, ataques de tubarão perto de Sharm el-Sheikh, no Egito, tinham levado o governador do Sinai do Sul, Mohamed Abdel Fadil Shousha, a admitir na televisão a hipótese de um tubarão guiado por Israel.

Um tubarão e um abutre no mesmo inverno formam uma série. E uma série pede uma explicação única por trás.

A explicação dos israelenses era bem menos cinematográfica. A caixa nas costas do grifo gravava a posição, a altitude e a velocidade do voo, e mais nada.

Mesmo assim, o grifo não ficou sozinho na lista de suspeitos. Outras aves com anilha israelense apareceram em países vizinhos nos anos seguintes, e cada uma ganhou a sua acusação.

Para entender por que uma ave de pesquisa vira espiã tão fácil, é preciso começar pelo grifo e pelas letras gravadas na anilha dele.

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I  A Conspiração do Dia

O abutre R65

O grifo capturado na Arábia Saudita tinha registro: R65, código da anilha dada a ele pela Autoridade de Natureza e Parques de Israel, o órgão público que cuida das reservas e da fauna do país.

O R65 fazia parte de um programa de proteção do grifo (Gyps fulvus, em latim), espécie em queda forte em Israel desde a segunda metade do século passado, envenenada por iscas deixadas para chacais e lobos.

O transmissor do R65 era um GPS de pesquisa, preso às costas para mostrar aos biólogos por onde a ave voava, onde dormia e onde comia.

O aparelho nas costas

A função do aparelho foi descrita na época pela própria Autoridade de Natureza e Parques. A frase de um funcionário do órgão foi parar na imprensa internacional:

“O aparelho não faz nada além de receber e guardar dados básicos sobre a localização da ave, a altitude e a velocidade.”

O equipamento não tem câmera nem microfone. Grava pontos no mapa e manda os dados para a equipe de pesquisa, que acompanha cada grifo marcado como quem acompanha um entregador num aplicativo.

O ecólogo Ohad Hatzofe, da Autoridade de Natureza e Parques, lembrou na época um detalhe simples: o grifo voa até onde o vento e a comida o levam, sem respeitar fronteira. Um espião sem controle de rota é um espião inútil.

A anilha de Tel Aviv

As letras Tel Aviv University tinham explicação igualmente prosaica. A Universidade de Tel Aviv participava do monitoramento das aves, e a anilha trazia o endereço de quem devia ser avisado caso alguém achasse o animal.

A inscrição funciona como etiqueta de bagagem. Quem acha devolve o dado ao remetente, e o pesquisador descobre onde a ave pousou.

No R65, o endereço de devolução virou prova de acusação. A etiqueta dizia de onde o bicho vinha, e de onde ele vinha bastava para a suspeita.

O órgão israelense pediu publicamente a devolução da ave. O pedido, feito pela imprensa, reforçou para os desconfiados a ideia de um agente valioso, já que ninguém reclama com tanta pressa de um pássaro comum.

A soltura

O príncipe Bandar bin Saud, chefe do órgão saudita de vida selvagem, desautorizou a versão do espião. Criticou os jornalistas por publicarem o caso sem checar e disse a jornais do Golfo que a ave seria solta depois de revisados os sistemas.

O jornal Gulf News publicou em seguida que a Arábia Saudita libertou o abutre. A data exata da soltura e o destino posterior do R65 não aparecem nos registros públicos.

 
 

II  A Origem

O falcão no raio X

Em maio de 2013, moradores de um vilarejo da província de Elazığ, no leste da Turquia, encontraram um falcão-peneireiro, ave de rapina pequena que caça insetos e roedores no campo.

Na perna, a anilha trazia uma sequência de números e as palavras Tel Avivunia Israel. Os moradores ficaram desconfiados e levaram a ave às autoridades da província.

O falcão foi levado à Universidade Fırat, em Elazığ, e passou por raio X para verificar se havia algum microchip escondido dentro do corpo.

O exame

Os médicos veterinários fizeram as imagens e não acharam nada. Nenhum chip, nenhum fio, nenhum aparelho. Só ossos, penas e a anilha de metal do lado de fora.

Depois do exame, o falcão foi liberado. A imprensa turca e a israelense registraram o caso com ironia, e a palavra espião apareceu entre aspas em quase todos os títulos.

O raio X respondeu à pergunta técnica e deixou intacta a desconfiança política. Quem acreditava no falcão espião passou a dizer que o chip podia estar bem escondido.

A fila de suspeitos

O falcão turco entrou numa fila longa. Em dezembro de 2012, um grifo com transmissor israelense foi capturado em Darfur, no Sudão, e de novo a imprensa local falou em espionagem.

Em janeiro de 2016, outro grifo marcado por Israel pousou no sul do Líbano e foi capturado por moradores de uma aldeia. A ave voltou a Israel dias depois, com a mediação da força de paz da ONU na região.

Os golfinhos e os tubarões

A lista não parou nas aves. Em 2015, o grupo palestino Hamas anunciou ter capturado em Gaza um golfinho com câmera, também acusado de trabalhar para Israel.

O padrão se repete em cada caso. Um animal atravessa uma fronteira fechada, carrega um equipamento ou uma inscrição, e a explicação mais simples perde para a mais dramática.

Nenhum dos casos terminou com prova de espionagem apresentada em público, em nenhum dos países.

 

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III  O Combustível

A rota das aves sobre Israel

O território israelense fica no cruzamento de três continentes. Toda primavera e todo outono, bandos imensos de cegonhas, pelicanos, águias e falcões passam por ali, entre a Europa, a Ásia e a África.

A passagem é tão concentrada que vira problema de aviação. Uma ave grande batendo num caça pode derrubar o avião, e a Força Aérea israelense perdeu aeronaves e pilotos em choques com pássaros nas décadas de 1970 e 1980.

O programa acadêmico que marca aves em Israel nasceu da necessidade militar de saber onde os bandos voam, em que altura e em que mês, para tirar os aviões do caminho.

O ornitólogo do radar

Quem conduz essa pesquisa é Yossi Leshem, ornitólogo da Universidade de Tel Aviv. A partir dos anos 1980, ele mapeou as rotas de migração com radar, planadores motorizados e observadores em terra, e entregou os mapas à Força Aérea.

Com os mapas, os voos de treino passaram a evitar os corredores de migração nas semanas de pico. Leshem fundou depois o Centro Internacional para o Estudo da Migração de Aves, em Latrun, ligado à universidade.

Do mapa à anilha

O trabalho de marcação cresceu junto com o barateamento do GPS. Grifos, cegonhas e águias passaram a carregar transmissores, e as anilhas com o endereço de Tel Aviv se espalharam pelo Oriente Médio e pela África.

Cada ave marcada leva o dado de volta ao laboratório. O mesmo mapa serve à conservação do grifo e à segurança dos voos, e a ligação com a Força Aérea alimenta a desconfiança dos vizinhos.

Leshem tentou usar as aves no sentido oposto. Montou projetos com Jordânia e territórios palestinos para monitorar corujas usadas no controle de roedores em plantações, com pesquisadores dos dois lados.

A conta do espião

Um espião precisa ir aonde o mandam, voltar com o dado e passar despercebido. O grifo voa ao sabor das correntes de ar quente, pousa onde há carcaça e chama atenção com quase três metros de asa.

As aves marcadas por Israel não cumprem nenhum dos três requisitos. Cumprem outro papel: mostram por onde a vida selvagem cruza fronteiras fechadas para pessoas.

A suspeita sobrevive porque junta dois fatos reais. Israel tem um serviço secreto ativo na região, e a pesquisa com aves serve também à Força Aérea. Falta o terceiro fato, a ave espiã, e nenhum governo vizinho jamais exibiu um.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• a reportagem do Gulf News sobre a soltura do abutre R65, de janeiro de 2011;

• o caso do falcão-peneireiro da província de Elazığ, de maio de 2013;

• o trabalho de Yossi Leshem com a Força Aérea israelense sobre rotas de migração.

 
 
Quiz da edição

No falcão capturado na província de Elazığ, na Turquia, em maio de 2013, que exame os veterinários da Universidade Fırat fizeram para procurar um microchip escondido no corpo da ave?

AEndoscopia pelo bico
BRessonância magnética
CRaio X
DNecropsia completa

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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