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Guerra do Paraguai: a mão inglesa que os despachos de Londres não mostram

Em 1979, Chiavenato culpou a Inglaterra pela guerra; em 2002, Doratioto abriu os arquivos britânicos e achou Londres longe do gatilho.

Vapor de guerra diante de uma fortaleza à beira de um rio sul-americano.

Rio Paraguai, 1868

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A editora Brasiliense lançou em São Paulo, em 1979, um livro do jornalista Júlio José Chiavenato com a acusação estampada na capa: "Genocídio americano: a Guerra do Paraguai".

O título acusava o Brasil, a Argentina e o Uruguai de massacrar um vizinho. O livro apontava um mandante acima dos três: a Inglaterra, que teria empurrado a Tríplice Aliança (o pacto militar dos três países contra o Paraguai) para arrasar uma economia que crescia sem pedir dinheiro a Londres.

Segundo Chiavenato, o Paraguai de Francisco Solano López tinha fundição de ferro, estaleiro, telégrafo e ferrovia, e nenhum banqueiro estrangeiro mandando no Tesouro. Um país assim seria mau exemplo para a América do Sul, e o Império Britânico teria pago os vizinhos para apagá-lo.

A tese caiu em terreno pronto. O Brasil vivia sob ditadura militar, os quartéis celebravam o Duque de Caxias como patrono do Exército, e um livro que transformava a vitória de 1870 em crime soava como resistência. Criticar os generais de 1870 era um jeito de criticar os generais do presente.

A obra vendeu por anos, entrou em apostilas de cursinho e em livros didáticos, e formou professores que ensinavam a guerra como encomenda inglesa. Muitos alunos saíram da escola sabendo só essa versão.

Em 2002, a Companhia das Letras lançou Maldita Guerra: nova história da Guerra do Paraguai, do historiador Francisco Doratioto, professor da Universidade de Brasília. Ele passou anos em arquivos de Assunção, Buenos Aires, Montevidéu, Rio de Janeiro e Londres.

Os papéis britânicos da época contam outra história. Quando a guerra começou, o Brasil nem conversava com a Inglaterra: as relações diplomáticas entre os dois governos estavam cortadas desde 1863.

Um império que planejou uma guerra sem embaixador na capital do principal executor é um enredo estranho. Para entender como ele pegou, vale montar a tese do jeito que Chiavenato montou, peça por peça, antes de abrir os despachos.

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I  A Conspiração do Dia

O Paraguai que Londres teria apagado

A tese de Júlio José Chiavenato tem três peças: um Paraguai autônomo, um império britânico com medo dele e três vizinhos pagos para a guerra.

A peça inicial descreve o país. Desde Carlos Antonio López, pai de Solano e presidente de 1844 a 1862, o Estado paraguaio controlava a erva-mate, a madeira e o comércio exterior, e tocava obras públicas sem empréstimo externo.

Nos anos 1850, a fundição de ferro de Ybycuí começou a operar, o estaleiro de Assunção passou a montar vapores e, em 1861, a ferrovia fez a primeira viagem. Chiavenato leu essas obras como indústria nascente, capaz de dispensar o tecido de Manchester.

A segunda peça é o motivo. A Inglaterra vendia manufaturas ao Prata e precisava de algodão; com a Guerra Civil americana (1861 a 1865) cortando o algodão do Sul dos Estados Unidos, o Paraguai viraria, na leitura da tese, plantação obrigatória.

A terceira peça é o dinheiro. Em 1865, o Império do Brasil tomou um empréstimo com a casa bancária Rothschild, em Londres, e a tese trata a operação como prova de que os banqueiros bancaram a invasão.

Com as três peças, o enredo se fecha sozinho: Londres tinha motivo, meio e agentes, e o Paraguai tinha cometido o crime de dar certo sem ajuda.

O livro reforça o enredo com cenas de horror: batalhões de meninos em Acosta Ñu, em 16 de agosto de 1869, a cólera nos acampamentos, a fome nas vilas. As cenas aconteceram. O que falta é o papel que ligue o gabinete britânico à ordem de atacar.

Chiavenato não cita despacho do Foreign Office (o ministério das Relações Exteriores britânico) mandando alguém à guerra, nem contrato de Londres com Rio, Buenos Aires ou Montevidéu. A ligação entre banqueiro e canhão vem por dedução.

A tese também inverte a ordem dos fatos. Quem abriu fogo foi o Paraguai: em novembro de 1864, Solano López mandou apreender o vapor brasileiro Marquês de Olinda no rio Paraguai e, em dezembro, invadiu Mato Grosso.

Em abril de 1865, as tropas paraguaias entraram em Corrientes, província argentina. Só em 1º de maio Brasil, Argentina e Uruguai assinaram o tratado da aliança, e o texto nomeava o alvo.

"A guerra não é contra o povo do Paraguai, mas contra o seu governo."

Tratado da Tríplice Aliança, artigo 7º, Buenos Aires, 1º de maio de 1865 (tradução livre do espanhol).

 
 

II  A Origem

Um argentino, uma ditadura e um best-seller

Chiavenato não inventou a mão inglesa: ele a trouxe de Buenos Aires, onde o historiador León Pomer publicou La guerra del Paraguay: ¡gran negocio! (A guerra do Paraguai: grande negócio!) em 1968.

Pomer escrevia na tradição do revisionismo argentino, corrente que relia a história oficial contra os liberais de Buenos Aires, como o presidente Bartolomé Mitre, e reabilitava caudilhos (chefes políticos regionais com tropa própria) como Juan Manuel de Rosas.

No Paraguai, a reabilitação de López veio antes. Em 1936, o governo do coronel Rafael Franco declarou Solano López herói nacional, e a ditadura de Alfredo Stroessner, de 1954 a 1989, fez dele símbolo da pátria.

Nos anos 1960 e 1970, a teoria da dependência (escola que explicava o atraso latino-americano pela subordinação às potências) deu moldura acadêmica ao enredo. Um Paraguai autônomo esmagado por Londres cabia inteiro nela.

Chiavenato juntou as duas correntes numa linguagem de reportagem, com adjetivos fortes e capítulos curtos. Lançado no ano da Lei da Anistia, o livro circulou entre estudantes e professores que queriam desmontar a história contada pelos quartéis.

A história dos quartéis merecia revisão. Os manuais antigos tratavam López como tirano louco e a aliança como cruzada da civilização, e escondiam saques e fome. Chiavenato atacou essa versão com razão e trocou um herói de manual por um vilão do mesmo tamanho.

Doratioto entrou pela porta dos arquivos. Leu a correspondência diplomática de quatro países e os relatórios que os representantes britânicos no Prata mandavam para Londres.

Os relatórios mostram um governo que queria os rios do Prata abertos e em paz, porque guerra fecha porto e atrasa pagamento. Edward Thornton, ministro britânico em Buenos Aires, escrevia sobre López com desconfiança, sem ordem nenhuma para empurrar os aliados ao combate.

O rompimento com o Brasil explica o resto. No começo de 1863, o ministro britânico no Rio, William Dougal Christie, mandou navios da Marinha Real apreender mercantes brasileiros na saída da baía de Guanabara, numa disputa sobre marinheiros presos e uma carga saqueada no litoral gaúcho.

Dom Pedro II pagou a indenização cobrada sob protesto e, em junho de 1863, rompeu relações com Londres. O episódio entrou nos livros como Questão Christie.

A reconciliação só veio em setembro de 1865, em Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, quando Thornton apresentou ao imperador as desculpas da rainha Vitória. A guerra já corria havia nove meses, e o suposto mandante tinha acabado de voltar a falar com o suposto executor.

 

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III  O Combustível

Os ingleses que trabalhavam para López

O Paraguai de Solano López, apresentado pela tese como país fechado aos ingleses, dependia de engenheiros, médicos e maquinistas britânicos contratados pelo próprio Estado.

O engenheiro-chefe do governo era o inglês William Whytehead, que projetou o arsenal de Assunção. O médico-chefe do Exército paraguaio era o escocês William Stewart, que acompanhou as tropas até o fim da campanha.

Máquinas, vapores e técnicos vinham da firma londrina John and Alfred Blyth, fornecedora do governo paraguaio. A ferrovia de 1861 foi traçada por engenheiros britânicos, com trilhos e locomotivas trazidos da Inglaterra.

A historiadora Josefina Plá levantou nomes, salários e funções desses contratados em The British in Paraguay, 1850-1870, publicado em 1976. A autonomia industrial da tese tinha sotaque de Londres.

O algodão também não sustenta o motivo. Durante a falta provocada pela Guerra Civil americana, as fábricas inglesas se abasteceram no Egito e na Índia, e o algodão do Sul dos Estados Unidos voltou ao mercado em 1865.

O empréstimo dos Rothschild tampouco prova encomenda. Banqueiros de Londres emprestavam ao Brasil desde a Independência, a juros de mercado, e depois da guerra emprestaram ao próprio Paraguai derrotado, em 1871 e 1872.

Doratioto não absolve os aliados. Maldita Guerra descreve a ocupação de Assunção em 1869, os saques, a caçada a López até Cerro Corá, onde ele caiu em 1º de março de 1870, e a destruição da população paraguaia.

Thomas Whigham e Barbara Potthast, em artigo publicado em 1999 na Latin American Research Review, estimaram que o Paraguai perdeu entre 60% e 69% dos habitantes que tinha antes da guerra.

É esse luto que alimenta a tese. Uma tragédia desse tamanho pede um culpado à altura, e um império distante, rico e sem rosto serve melhor que a soma de ambição de López, cálculo de Mitre e teimosia de Pedro II.

A versão inglesa ainda livra os três países de olhar para dentro. Se Londres puxou os cordões, ninguém em Assunção, Buenos Aires ou no Rio precisa responder pelas decisões que tomou.

O que o caso estabeleceu: a guerra nasceu de disputas no Prata, com o Paraguai abrindo fogo em 1864; os despachos britânicos lidos por Doratioto não trazem ordem de Londres, e o Brasil estava sem relações com a Inglaterra quando ela começou.

O que continua sem resposta: o tamanho exato da perda paraguaia. Os censos anteriores a 1864 são incompletos e contestados, e por essa razão as estimativas dos historiadores seguem variando.

"Se Londres queria a guerra, por que estava sem embaixador no Rio quando ela começou?"

Confira sozinho, em três buscas:
o rompimento entre Brasil e Grã-Bretanha em junho de 1863, na Questão Christie;
o encontro de Edward Thornton com Pedro II em Uruguaiana, em setembro de 1865;
o artigo 7º do Tratado da Tríplice Aliança, de 1º de maio de 1865.

 
 
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