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A demora tinha causa jurídica. Até 1985, a lei do estado de Victoria só permitia ao legista (o magistrado que investiga mortes suspeitas) abrir inquérito quando havia um corpo para examinar.
Sem cadáver, Holt ficou num limbo. A polícia de Victoria fez um relatório em 1968 que apontava afogamento, mas nenhum tribunal declarou a morte nem a causa dela.
A lei de 1985
A Lei dos Legistas de Victoria, aprovada em 1985, passou a permitir inquérito sobre morte presumida, mesmo sem corpo, quando houvesse indícios fortes de que a pessoa tinha morrido no estado.
Mesmo com a lei nova, o caso Holt esperou. Só em 2003 o gabinete do legista decidiu revisar uma série de afogamentos antigos sem corpo, e o do primeiro-ministro entrou na lista.
O que o legista concluiu
O legista estadual Graeme Johnstone ouviu testemunhas e examinou os arquivos policiais. Os depoimentos dados em 1967 pelas quatro testemunhas da praia foram a base principal da análise, e nenhum deles apontava fuga ou encontro no mar. Em setembro de 2005, concluiu que Harold Holt morreu afogado por acidente em Cheviot Beach, em 17 de dezembro de 1967.
Johnstone descartou as três teorias que circulavam: não encontrou indício de suicídio, de ação da CIA nem de fuga para um submarino chinês. Apontou o mar agitado, a idade, o ombro machucado e a confiança excessiva de Holt na própria força.
O corpo continua desaparecido. A explicação aceita pelos especialistas é que as correntes da região o levaram para o fundo ou para o alto-mar, onde tubarões e a própria água fariam o resto. A hipótese não tem prova, e o relatório não fingiu provar.
A piscina batizada de Holt
Uma ironia ficou de herança. Em 1969, Melbourne inaugurou um centro aquático municipal batizado em homenagem a Holt, no bairro de Glen Iris. Ainda funciona e recebe nadadores todos os dias, uma homenagem que os australianos citam com humor desde a inauguração.
A teoria do submarino sobreviveu ao inquérito porque ocupou um espaço que o Estado deixou aberto durante 38 anos. Quando a explicação oficial chegou, a história do espião já tinha virado parte do folclore australiano.
A pergunta que o caso deixa: quanto tempo um vazio oficial precisa durar para que uma história bem contada passe a parecer fato?
Confira sozinho, em 3 buscas:
• o livro “The Prime Minister Was a Spy”, de Anthony Grey, 1983;
• a decisão do legista Graeme Johnstone, de setembro de 2005;
• a Lei dos Legistas de Victoria, de 1985.
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