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Harold Holt: o livro de 1983 que pôs o premiê num submarino chinês

Um mergulho em Cheviot Beach, um corpo que o mar não devolveu e um inquérito que a lei de Victoria só permitiu em 2005.

Praia rochosa de Cheviot Beach sob mar agitado, com ondas fortes quebrando nas pedras.

Cheviot Beach, Victoria, dezembro de 1967

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A editora londrina Weidenfeld & Nicolson publicou em 1983 um livro com a manchete na capa: “The Prime Minister Was a Spy” (O primeiro-ministro era um espião). O premiê da capa era Harold Holt, chefe do governo australiano que entrou no mar em dezembro de 1967 e nunca voltou.

O autor, Anthony Grey, não era um teórico de porão. Correspondente da agência Reuters em Pequim, ele passou de 1967 a 1969 em prisão domiciliar, mantido pelos Guardas Vermelhos (as milícias estudantis da Revolução Cultural) como refém diplomático. Saiu do cativeiro famoso e com um nome respeitado no jornalismo britânico.

Depois de solto, Grey escreveu romances de espionagem e um relato do cativeiro, “Hostage in Peking” (Refém em Pequim), de 1970. Sabia contar uma intriga, e o caso Holt tinha todos os ingredientes de uma.

O currículo deu peso ao livro. Grey escreveu que Holt passava informações à China havia décadas e que, naquele domingo de verão, não se afogou: nadou até um submarino chinês que o esperava ao largo da costa de Victoria e foi levado embora.

A fonte principal era Ronald Titcombe, ex-oficial da Marinha australiana, que dizia ter acompanhado o caso por dentro. Nenhum documento oficial confirmava o relato. Nenhum também o desmentia em detalhe, porque não havia corpo, testamento de despedida nem sentença sobre a morte.

A Austrália tinha, em 1983, um primeiro-ministro desaparecido havia 16 anos e nenhuma conclusão formal sobre o que acontecera com ele. As buscas de 1967 tinham terminado sem resultado, e o estado de Victoria não abria inquérito de morte sem cadáver.

O vazio virou terreno fértil, porque cada versão podia ser contada sem medo de esbarrar num laudo. Além do submarino, circulavam versões de suicídio, de sequestro e de assassinato encomendado pela CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos, por causa da Guerra do Vietnã.

Para entender como uma história dessas ganhou capa de editora, é preciso voltar à praia onde tudo começou, ao meio-dia de 17 de dezembro de 1967.

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I  A Conspiração do Dia

O mergulho em Cheviot Beach

Harold Edward Holt, primeiro-ministro da Austrália desde janeiro de 1966, chegou a Cheviot Beach, perto de Portsea, no estado de Victoria, na manhã de domingo, 17 de dezembro de 1967. Tinha 59 anos.

A praia ficava dentro de uma área militar em Point Nepean, fechada ao público. Holt tinha casa de veraneio em Portsea e conhecia aquelas águas desde jovem. Era nadador e praticante de pesca submarina, com fama de entrar no mar em dias que outros evitavam.

Naquele domingo ele estava com quatro acompanhantes: a vizinha Marjorie Gillespie, a filha dela, Vyner, o namorado da moça, Martin Simpson, e o amigo Alan Stewart. A maré estava alta e a arrebentação, forte.

Os minutos na água

Por volta do meio-dia, Holt disse que ia nadar. Alan Stewart entrou só na parte rasa. Os outros ficaram na areia e nas pedras.

Marjorie Gillespie contou à polícia que viu Holt nadar para longe, sumir entre as ondas e a água ferver como se algo a revolvesse por baixo. Em poucos minutos não havia mais sinal dele.

Holt tinha um problema no ombro e sentia dores havia meses, segundo relatos de pessoas próximas reunidos depois pela polícia. Aquela praia também tinha correntes de retorno (fluxos que puxam o banhista para o fundo) conhecidas pelos moradores.

A busca que não achou nada

A polícia de Victoria, a Marinha e a Força Aérea montaram uma das maiores buscas da história do país. Mergulhadores, barcos e helicópteros vasculharam a costa por dias.

Nada foi encontrado: nem corpo, nem roupa de banho, nem objeto pessoal. A busca terminou oficialmente sem resultado.

Em 22 de dezembro de 1967, uma cerimônia em memória de Holt reuniu na Catedral de São Paulo, em Melbourne, o presidente americano Lyndon Johnson e o príncipe Charles. Foi um funeral sem caixão.

Sem certidão de óbito, o governo tratou o desaparecimento como morte para fins práticos. O ministro John McEwen assumiu o governo de forma interina, e John Gorton tomou posse como primeiro-ministro em janeiro de 1968.

Nos papéis, porém, nada mudou. Holt seguia sem atestado, e a família não podia encerrar formalmente o inventário pelo caminho comum, que exigia prova da morte.

 
 

II  A Origem

O informante da Marinha e o repórter de Pequim

Anthony Grey levou anos montando o livro. A tese central vinha de Ronald Titcombe, que se apresentava como ex-oficial da Marinha australiana com acesso a informações de inteligência.

Segundo Grey, Holt teria sido recrutado pela China ainda jovem, na década de 1920, e seguido como informante durante a carreira política. Em 1967, temendo ser descoberto, teria combinado a fuga pelo mar.

Grey sustentou que a Marinha australiana tinha registrado sinais de um submarino estranho na região naquele mês e que o registro fora abafado. O livro não reproduziu esse documento, e nenhum arquivo militar liberado depois o confirmou.

O roteiro do livro era preciso: Holt entra na água, alcança mergulhadores que o aguardam, e um submarino o recolhe longe da vista da praia.

Por que o roteiro parecia possível

Holt era bom nadador e mergulhador. A praia era isolada, dentro de terreno militar. O corpo nunca apareceu. Para quem queria acreditar, esses três fatos encaixavam.

Havia ainda o contexto político. Holt tinha levado tropas australianas ao Vietnã e declarado apoio total aos Estados Unidos. Em Washington, em 30 de junho de 1966, discursou ao lado de Lyndon Johnson e cunhou a frase que o acompanharia: “All the way with LBJ” (Até o fim com LBJ).

Na leitura de Grey, um aliado tão vocal dos americanos seria o disfarce perfeito para um agente de Pequim.

Os furos que os críticos apontaram

Historiadores e ex-militares rejeitaram a tese logo depois do lançamento. Os submarinos chineses daquela época eram movidos a diesel e operavam perto da costa da China; uma travessia secreta até o sul da Austrália estava fora do alcance conhecido da frota.

Nenhum arquivo chinês, americano ou australiano liberado depois trouxe sinal de recrutamento. Titcombe nunca apresentou documento que sustentasse o relato. A credibilidade do livro repousava sobre a palavra de uma fonte só, repassada por um autor que não testemunhou nada.

A viúva, Zara Holt, rejeitou publicamente a versão do espião. Pessoas próximas lembraram que Holt era um político conservador de carreira, ministro desde a década de 1930, sem qualquer ligação conhecida com o comunismo.

O governo chinês nunca comentou a acusação. O livro vendeu, ganhou manchetes e não mudou a posição oficial: Holt continuava desaparecido, sem causa de morte declarada.

 

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III  O Combustível

O inquérito que só chegou em 2005

A demora tinha causa jurídica. Até 1985, a lei do estado de Victoria só permitia ao legista (o magistrado que investiga mortes suspeitas) abrir inquérito quando havia um corpo para examinar.

Sem cadáver, Holt ficou num limbo. A polícia de Victoria fez um relatório em 1968 que apontava afogamento, mas nenhum tribunal declarou a morte nem a causa dela.

A lei de 1985

A Lei dos Legistas de Victoria, aprovada em 1985, passou a permitir inquérito sobre morte presumida, mesmo sem corpo, quando houvesse indícios fortes de que a pessoa tinha morrido no estado.

Mesmo com a lei nova, o caso Holt esperou. Só em 2003 o gabinete do legista decidiu revisar uma série de afogamentos antigos sem corpo, e o do primeiro-ministro entrou na lista.

O que o legista concluiu

O legista estadual Graeme Johnstone ouviu testemunhas e examinou os arquivos policiais. Os depoimentos dados em 1967 pelas quatro testemunhas da praia foram a base principal da análise, e nenhum deles apontava fuga ou encontro no mar. Em setembro de 2005, concluiu que Harold Holt morreu afogado por acidente em Cheviot Beach, em 17 de dezembro de 1967.

Johnstone descartou as três teorias que circulavam: não encontrou indício de suicídio, de ação da CIA nem de fuga para um submarino chinês. Apontou o mar agitado, a idade, o ombro machucado e a confiança excessiva de Holt na própria força.

O corpo continua desaparecido. A explicação aceita pelos especialistas é que as correntes da região o levaram para o fundo ou para o alto-mar, onde tubarões e a própria água fariam o resto. A hipótese não tem prova, e o relatório não fingiu provar.

A piscina batizada de Holt

Uma ironia ficou de herança. Em 1969, Melbourne inaugurou um centro aquático municipal batizado em homenagem a Holt, no bairro de Glen Iris. Ainda funciona e recebe nadadores todos os dias, uma homenagem que os australianos citam com humor desde a inauguração.

A teoria do submarino sobreviveu ao inquérito porque ocupou um espaço que o Estado deixou aberto durante 38 anos. Quando a explicação oficial chegou, a história do espião já tinha virado parte do folclore australiano.

A pergunta que o caso deixa: quanto tempo um vazio oficial precisa durar para que uma história bem contada passe a parecer fato?

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o livro “The Prime Minister Was a Spy”, de Anthony Grey, 1983;

• a decisão do legista Graeme Johnstone, de setembro de 2005;

• a Lei dos Legistas de Victoria, de 1985.

 
 
Quiz da edição

Segundo o livro de 1983, quem foi a fonte que sustentou a tese de que Holt virou espião chinês?

AAnthony Grey, o autor do livro
BZara Holt, viúva do premiê
CRonald Titcombe, ex-oficial da Marinha australiana
DJohn Gorton, sucessor de Holt no cargo

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