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João Paulo I: a freira que sumiu do comunicado do Vaticano

O Vaticano pôs o secretário no lugar da irmã Vincenza Taffarel, e David Yallop viu no banco da Santa Sé o motivo de um crime.

Quarto escuro no Vaticano com abajur aceso sobre folhas de anotação ao lado de uma cama.

O quarto do papa no Vaticano, 1978

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A Rádio Vaticano leu o comunicado da Santa Sé na manhã de 29 de setembro, em 1978, com esta frase: "O secretário particular do Papa, não o tendo encontrado na capela como de costume, procurou-o no quarto e encontrou-o morto na cama, com a luz acesa, como quem estava lendo".

O papa era Albino Luciani, que escolhera ser chamado João Paulo I e ocupava o cargo havia 33 dias. Eleito em 26 de agosto, virou o pontificado mais curto desde 1605, quando Leão XI governou a Igreja por 27 dias. Nascido numa aldeia das Dolomitas, filho de um operário socialista, tinha sido patriarca de Veneza e falava nas audiências sem o plural majestático, contando histórias de Pinóquio para explicar o catecismo.

O texto oficial trazia mais dois dados. O médico Renato Buzzonetti tinha atestado o óbito e situado a hora por volta das 23h da véspera. E o papa, segundo os porta-vozes, segurava nas mãos A Imitação de Cristo, livro de devoção escrito no século XV.

Em poucas semanas, duas peças da frase principal se desfizeram. Quem abriu a porta do quarto foi uma religiosa, a irmã Vincenza Taffarel, que cuidava da casa de Luciani desde os tempos de bispo. O secretário chegou depois, chamado por ela.

A leitura também mudou. As folhas nas mãos do papa eram anotações de trabalho, e o livro devocional tinha entrado na versão pública por escolha da assessoria.

Não houve autópsia. O corpo foi embalsamado em menos de um dia, e a imprensa italiana passou a perguntar que outros ajustes o comunicado continha.

Seis anos depois, o jornalista britânico David Yallop somou as duas correções, a pressa do embalsamamento e um banco com contas suspeitas, e publicou uma resposta que acusava gente com cargo e endereço. A primeira seção mostra o que o livro dele sustenta, suspeito por suspeito.

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I  A Conspiração do Dia

Seis suspeitos num livro de 1984

David Yallop, escritor britânico nascido em Londres em 1937, lançou em 1984 o livro In God's Name (Em Nome de Deus), no qual afirma que Albino Luciani, o papa João Paulo I, foi envenenado no Palácio Apostólico.

A obra saiu pela editora Jonathan Cape, em Londres, e pela Bantam, nos Estados Unidos. Foi traduzida para dezenas de línguas e chegou ao Brasil com o título Em Nome de Deus, vendida nas bancas de aeroporto como reportagem investigativa.

A tese começa pelo motivo. Segundo Yallop, Luciani tinha decidido revisar as contas do IOR (Istituto per le Opere di Religione, Instituto para as Obras de Religião), o banco da Santa Sé, e afastar o homem que o presidia, o arcebispo americano Paul Marcinkus.

O livro lista seis pessoas que teriam perdido poder ou dinheiro com essa faxina. Marcinkus encabeça a relação. Depois vem o cardeal francês Jean Villot, secretário de Estado, que Yallop descreve como prestes a ser substituído.

O terceiro é o cardeal John Cody, arcebispo de Chicago, investigado na época por desviar recursos da diocese. Os três restantes vêm do mundo financeiro: Roberto Calvi, presidente do Banco Ambrosiano, de Milão; Michele Sindona, banqueiro siciliano já processado nos Estados Unidos; e Licio Gelli, chefe da P2 (Propaganda Due, "Propaganda Dois"), loja maçônica clandestina.

Para o método, Yallop sugere a digitalina, remédio cardíaco extraído da planta dedaleira, que em dose alta provoca parada do coração e deixa pouco rastro sem exame toxicológico. A ausência de autópsia, no raciocínio dele, fechava a porta para qualquer prova.

Ele acrescenta um terceiro elemento: objetos do quarto que teriam desaparecido na manhã seguinte, entre eles os óculos, os chinelos, as folhas de anotação e um frasco de remédio. A família de Luciani, segundo o livro, nunca os recebeu.

O livro não identifica quem teria preparado o veneno, nem apresenta exame, testemunha ou documento que mostre a digitalina no corpo. A acusação se apoia em motivo, oportunidade e nas contradições do comunicado oficial.

"Morte súbita, que pode ser relacionada com um infarto agudo do miocárdio."

Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, 1978, com o diagnóstico assinado pelo médico Renato Buzzonetti sem exame interno do corpo.

 
 

II  A Origem

O café das cinco e meia

A irmã Vincenza Taffarel, da congregação das Irmãs de Maria Menina, deixou o café do papa numa bandeja às 5h30 e, sem resposta à batida na porta, entrou no quarto.

Ela contou a cena em depoimentos que ficaram décadas guardados. Encontrou Luciani sentado na cama, com os óculos no rosto, a luz acesa e folhas datilografadas nas mãos. Chamou então os dois secretários, o irlandês John Magee e o italiano Diego Lorenzi.

O relato dela chegou ao público inteiro em 2017, no livro Papa Luciani. Cronaca di una morte (Papa Luciani, crônica de uma morte), da jornalista italiana Stefania Falasca, editado pela Piemme. Falasca era vice-postuladora da causa de beatificação, função de quem reúne as provas a favor do candidato a santo.

O livro reproduz também o prontuário. Na tarde da véspera, Luciani sentira uma dor no peito e recusara chamar o médico. Tomava havia anos o Effortil, remédio para pressão baixa, e em 1975 tivera uma trombose numa veia do olho.

Por que o Vaticano trocou a freira pelo secretário? A explicação dada depois por pessoas da Cúria foi o decoro: parecia impróprio anunciar que uma mulher entrara sozinha no quarto do papa de madrugada. A troca protegeu a etiqueta e entregou aos desconfiados a primeira mentira comprovada.

A troca do livro tinha outra razão. As folhas eram anotações para discursos e nomeações, assunto de governo que a Secretaria de Estado não quis expor. A Imitação de Cristo soava piedosa e não revelava plano algum.

O embalsamamento ficou com os irmãos Ernesto e Renato Signoracci, chamados na mesma sexta-feira. O corpo seguiu para exposição pública na Basílica de São Pedro, e o pedido italiano por autópsia esbarrou numa resposta seca: nenhuma norma da Igreja a exigia para um papa.

O enterro aconteceu em 4 de outubro, nas Grutas Vaticanas, sob a basílica. Doze dias depois, o conclave escolheu o polonês Karol Wojtyla, e o assunto parecia encerrado dentro dos muros.

Cada correção tinha explicação banal. Somadas, porém, deixaram três lacunas documentadas: quem achou o corpo, o que ele lia e por que ninguém abriu o tórax.

 

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III  O Combustível

O banco que quebrou em 1982

O combustível da tese veio depois da morte, e veio de Milão. Em junho de 1982, o Banco Ambrosiano desabou com um rombo estimado pelo Banco da Itália em 1,3 bilhão de dólares, boa parte escoada para empresas de fachada no Panamá.

Várias dessas empresas pertenciam, no papel, ao IOR. Marcinkus tinha assinado cartas de patrocínio, documentos em que o banco da Santa Sé se declarava responsável pelas dívidas delas.

Dias antes da falência, Roberto Calvi foi encontrado enforcado sob a ponte de Blackfriars, em Londres, com tijolos nos bolsos. A primeira investigação britânica falou em suicídio; um segundo inquérito, em 1983, deixou o caso em aberto, e a Justiça italiana tratou a morte como homicídio.

Michele Sindona também terminou sob suspeita. Condenado nos Estados Unidos e depois na Itália pelo assassinato de um advogado, tomou um café com cianeto na prisão de Voghera, em 1986, e morreu dois dias depois.

Em 1981, a polícia italiana tinha achado na casa de Licio Gelli, em Castiglion Fibocchi, a lista dos membros da P2, com ministros, generais e banqueiros. Calvi e Sindona apareciam nela.

Em 1984, o IOR aceitou pagar cerca de 240 milhões de dólares aos credores do Ambrosiano, num acordo assinado em Genebra, sem admitir culpa. Marcinkus, alvo de um mandado de prisão italiano em 1987, ficou protegido pela imunidade do Estado do Vaticano e se aposentou no Arizona, nos Estados Unidos, em 1990.

O acordo saiu no mesmo ano do livro de Yallop, e a coincidência vendeu a tese.

A conta, contudo, tem um problema de calendário. Todos esses escândalos vieram à tona entre 1981 e 1986, anos depois da noite no Palácio Apostólico. Em 1978, ninguém fora da cúpula sabia do buraco em Milão, e nenhum documento mostra Luciani planejando uma auditoria.

O jornalista britânico John Cornwell recebeu acesso ao Vaticano e publicou em 1989 A Thief in the Night (Um ladrão na noite). Concluiu por morte natural, provavelmente uma embolia pulmonar agravada pelo descaso de quem cercava um papa doente.

Falasca, com o prontuário de 2017, chegou a outra causa natural: um evento isquêmico no coração. O papa Francisco beatificou Luciani em setembro de 2022, depois de a Congregação para as Causas dos Santos examinar os mesmos papéis.

O que o caso estabeleceu: o comunicado de 1978 trocou a irmã Vincenza Taffarel pelo secretário e o maço de anotações pela Imitação de Cristo; não houve autópsia; o livro de Yallop acusa seis pessoas sem exame nem testemunha do envenenamento.

O que continua sem resposta: a causa exata. Sem exame interno, o infarto de Buzzonetti, a embolia de Cornwell e a isquemia de Falasca são deduções a partir de sintomas, e o corpo, sepultado nas Grutas Vaticanas, nunca foi examinado por dentro.

"Se o Vaticano mentiu sobre quem abriu a porta, por que acreditar no restante do comunicado?"

Confira sozinho, em três buscas:
o texto do comunicado da Santa Sé lido pela Rádio Vaticano em 1978;
o depoimento da irmã Vincenza Taffarel no livro de Stefania Falasca, de 2017;
o valor que o IOR pagou aos credores do Banco Ambrosiano no acordo de Genebra de 1984.

 
 
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Quiz da edição

O comunicado oficial da Santa Sé disse que o secretário particular encontrou o papa morto. Segundo o texto, quem na verdade abriu a porta do quarto primeiro?

AO médico Renato Buzzonetti
BA irmã Vincenza Taffarel
CO cardeal Jean Villot
DO secretário John Magee

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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