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O combustível da tese veio depois da morte, e veio de Milão. Em junho de 1982, o Banco Ambrosiano desabou com um rombo estimado pelo Banco da Itália em 1,3 bilhão de dólares, boa parte escoada para empresas de fachada no Panamá.
Várias dessas empresas pertenciam, no papel, ao IOR. Marcinkus tinha assinado cartas de patrocínio, documentos em que o banco da Santa Sé se declarava responsável pelas dívidas delas.
Dias antes da falência, Roberto Calvi foi encontrado enforcado sob a ponte de Blackfriars, em Londres, com tijolos nos bolsos. A primeira investigação britânica falou em suicídio; um segundo inquérito, em 1983, deixou o caso em aberto, e a Justiça italiana tratou a morte como homicídio.
Michele Sindona também terminou sob suspeita. Condenado nos Estados Unidos e depois na Itália pelo assassinato de um advogado, tomou um café com cianeto na prisão de Voghera, em 1986, e morreu dois dias depois.
Em 1981, a polícia italiana tinha achado na casa de Licio Gelli, em Castiglion Fibocchi, a lista dos membros da P2, com ministros, generais e banqueiros. Calvi e Sindona apareciam nela.
Em 1984, o IOR aceitou pagar cerca de 240 milhões de dólares aos credores do Ambrosiano, num acordo assinado em Genebra, sem admitir culpa. Marcinkus, alvo de um mandado de prisão italiano em 1987, ficou protegido pela imunidade do Estado do Vaticano e se aposentou no Arizona, nos Estados Unidos, em 1990.
O acordo saiu no mesmo ano do livro de Yallop, e a coincidência vendeu a tese.
A conta, contudo, tem um problema de calendário. Todos esses escândalos vieram à tona entre 1981 e 1986, anos depois da noite no Palácio Apostólico. Em 1978, ninguém fora da cúpula sabia do buraco em Milão, e nenhum documento mostra Luciani planejando uma auditoria.
O jornalista britânico John Cornwell recebeu acesso ao Vaticano e publicou em 1989 A Thief in the Night (Um ladrão na noite). Concluiu por morte natural, provavelmente uma embolia pulmonar agravada pelo descaso de quem cercava um papa doente.
Falasca, com o prontuário de 2017, chegou a outra causa natural: um evento isquêmico no coração. O papa Francisco beatificou Luciani em setembro de 2022, depois de a Congregação para as Causas dos Santos examinar os mesmos papéis.
O que o caso estabeleceu: o comunicado de 1978 trocou a irmã Vincenza Taffarel pelo secretário e o maço de anotações pela Imitação de Cristo; não houve autópsia; o livro de Yallop acusa seis pessoas sem exame nem testemunha do envenenamento.
O que continua sem resposta: a causa exata. Sem exame interno, o infarto de Buzzonetti, a embolia de Cornwell e a isquemia de Falasca são deduções a partir de sintomas, e o corpo, sepultado nas Grutas Vaticanas, nunca foi examinado por dentro.
"Se o Vaticano mentiu sobre quem abriu a porta, por que acreditar no restante do comunicado?"
Confira sozinho, em três buscas: o texto do comunicado da Santa Sé lido pela Rádio Vaticano em 1978; o depoimento da irmã Vincenza Taffarel no livro de Stefania Falasca, de 2017; o valor que o IOR pagou aos credores do Banco Ambrosiano no acordo de Genebra de 1984.
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