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A tese resiste porque o desmentido mais forte veio de dentro. O artigo de Robert J. Hanyok, historiador do centro de história criptológica da NSA, revisou o acervo de interceptações da agência sobre 2 a 4 de agosto de 1964 e concluiu que o ataque do dia 4 não ocorreu, que os sinais apresentados como prova diziam respeito ao combate do dia 2, e que a maior parte do material relevante ficou de fora dos relatórios enviados aos tomadores de decisão.
O cuidado necessário está no salto seguinte, o de tratar a operação inteira como armação montada com meses de antecedência para fabricar um pretexto. O próprio Hanyok descreve um processo diferente e menos cinematográfico: analistas convencidos da própria hipótese, correção posterior que nunca subiu a cadeia e um encobrimento que serviu para não expor o erro.
O que está documentado: a NSA divulgou em 30 de novembro de 2005 o artigo "Skunks, Bogies, Silent Hounds, and the Flying Fish: The Gulf of Tonkin Mystery, 2-4 August 1964", publicado antes no periódico interno Cryptologic Quarterly, junto com centenas de páginas de traduções e relatórios de interceptação; o National Security Archive, na Universidade George Washington, publicou o conjunto em coletânea comentada em janeiro de 2008.
O que a defesa da tese sustenta: que a autorização de guerra mais consequente do período foi votada em três dias, sobre um episódio que o comandante em campo já classificava como duvidoso por escrito antes da votação, e que o Congresso decidiu sem ver o material que existia no acervo da agência.
O que continua em disputa: a intenção. Erro de análise sob pressão, com encobrimento posterior para preservar reputações, e fabricação deliberada de pretexto levam ao mesmo desfecho histórico, mas separam responsabilidades diferentes, e historiadores continuam divididos sobre qual leitura o material sustenta.
As datas do caso, com a origem de cada uma:
| · Incursão de comandos sul-vietnamitas contra ilhas do Norte, no OPLAN 34A: 31 de julho de 1964 |
| · Combate documentado entre o USS Maddox e três lanchas torpedeiras: 2 de agosto de 1964 |
| · Suposto segundo ataque e ordem de represália aérea: 4 de agosto de 1964 |
| · Aprovação da Resolução do Golfo de Tonkin no Congresso: 7 de agosto de 1964 |
| · Revogação da resolução pelo Congresso americano: 1971 |
| · Liberação do estudo interno da NSA e das interceptações: 30 de novembro de 2005 |
A parte mais frágil da versão popular é a ideia de um roteiro perfeito, com cada peça encaixada de véspera por um punhado de homens numa sala. O mar estava ruim, o sonar acusava contato onde não havia, o comandante pediu revisão e a máquina política pegou o material que confirmava o que já queria fazer. Pressa e conveniência explicam mais do que onisciência.
Então por que a suspeita segue de pé mais de sessenta anos depois? Porque a parte central dela virou texto oficial da agência responsável pela inteligência daquela noite. Uma guerra que consumiu quase três milhões de vidas no Sudeste Asiático foi autorizada por um Congresso que votou sobre um episódio inexistente, e um governo que tinha o material capaz de desmentir a versão manteve o material fora da mesa.
O caso do Golfo de Tonkin é o exemplo raro em que a correção veio do próprio arquivo técnico, sem tribunal e sem delação, e ainda assim levou quatro décadas para sair da gaveta. O que ficou no imaginário foi a lição de que decisão votada em três dias costuma repousar sobre informação que ninguém teve tempo de conferir.
"Uma autorização de guerra votada sobre informação que a própria agência sabia frágil ainda é uma decisão do Congresso?"
Confira antes de aceitar qualquer versão sobre agosto de 1964: quem assinou o pedido de reavaliação e em que horário, quantos senadores votaram contra a resolução, e em que ano a agência americana liberou o estudo sobre as próprias interceptações.
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