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ED 029
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O ataque que nenhum radar confirmou e a guerra que ele autorizou

Um historiador da própria NSA concluiu que o segundo ataque de 4 de agosto de 1964 não aconteceu, e o texto ficou fechado até 2005.

Destróier americano no mar à noite sob céu fechado, holofotes riscando a água escura do Golfo de Tonkin.

Golfo de Tonkin, agosto de 1964

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"Vietnam War Intelligence 'Deliberately Skewed,' Secret Study Says", estampou o jornal americano The New York Times em 2 de dezembro de 2005, em reportagem assinada por Scott Shane. A matéria tratava de um artigo escrito dentro da NSA, a agência americana que intercepta comunicações, por um historiador da própria casa, e mantido sob classificação por cerca de cinco anos depois de pronto.

O autor do estudo era Robert J. Hanyok, e o texto tinha saído no Cryptologic Quarterly, publicação interna que circula entre analistas da agência e não chega a leitor de fora. O título dado por ele era longo e quase brincalhão para um documento de segurança nacional: "Skunks, Bogies, Silent Hounds, and the Flying Fish: The Gulf of Tonkin Mystery, 2-4 August 1964". A NSA liberou o artigo com um pacote de documentos de interceptação em 30 de novembro de 2005, quarenta e um anos depois da noite que ele reconstruía.

O que estava em jogo não era um detalhe de arquivo militar. Em 7 de agosto de 1964, três dias depois daquela noite no mar, o Congresso dos Estados Unidos aprovou a Resolução do Golfo de Tonkin, que autorizava o presidente Lyndon Johnson a usar força armada no Sudeste Asiático sem declaração formal de guerra. A votação saiu 416 a 0 na Câmara e 88 a 2 no Senado, com voto contrário apenas dos senadores Wayne Morse e Ernest Gruening. Aquele texto virou a base jurídica do envio de tropas americanas ao Vietnã pelos anos seguintes.

Durante décadas, quem duvidou da versão oficial daquela noite trabalhou com testemunho de piloto, memória de marinheiro e relatório contraditório. O artigo interno da NSA mudou o material disponível: passou a existir uma reconstrução das próprias interceptações, feita por um historiador contratado pela agência que produziu o material, com acesso ao acervo bruto e sem plateia externa para agradar.

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I  A Conspiração do Dia

Um golpe assinado em papel timbrado

A tese diz que o combate naval de 4 de agosto de 1964, usado para justificar o primeiro bombardeio americano em território norte-vietnamita e a resolução que autorizou a guerra, nunca aconteceu, e que o governo dos Estados Unidos apresentou ao Congresso um recorte de interceptações que sustentava a versão do ataque enquanto deixava de fora o material que a contradizia.

O primeiro argumento vem do comandante que estava lá. Poucas horas depois do suposto combate, o capitão John Herrick, no comando da patrulha, mandou uma mensagem pedindo cautela: a revisão da ação fazia muitos contatos relatados e torpedos disparados parecerem duvidosos, o clima instável e um operador de sonar ansioso responderiam por boa parte dos registros, e ele sugeria avaliação completa antes de qualquer nova ação. A ordem de bombardeio saiu mesmo assim.

O segundo argumento vem do céu. O comandante James Stockdale sobrevoou a área naquela noite, em missão de caça lançada do porta-aviões Ticonderoga, com visibilidade sobre os dois destróieres americanos. Ele escreveu depois que teve o melhor lugar da casa para assistir ao episódio e que os navios atiravam contra alvos fantasmas, sem embarcação inimiga nenhuma no mar.

O terceiro argumento é o das interceptações. O estudo de Hanyok sustenta que as mensagens norte-vietnamitas apresentadas como prova do ataque de 4 de agosto tratavam, na verdade, do combate ocorrido dois dias antes, com salvamento de embarcação danificada e contagem de baixas do dia 2. A tradução e a datação usadas em Washington encaixaram material antigo numa noite nova.

Se o comandante da própria patrulha pediu por escrito uma reavaliação antes de qualquer resposta militar, por que a decisão de bombardear foi anunciada em rede nacional antes de a reavaliação existir?

O que a tese cobra da defesa: explicar por que o pacote de interceptações levado ao Congresso continha o material favorável à versão do ataque e não continha o material que apontava para outro dia e outro combate, se os dois lotes estavam no mesmo acervo da mesma agência.

Há a questão do calendário. O estudo ficou pronto por volta de 2001, circulou internamente e só foi liberado no fim de 2005, quando a resolução já tinha sido revogada havia mais de trinta anos e nenhuma consequência prática recaía sobre quem tomou a decisão em 1964.

A tese depende de mostrar que a patrulha estava em rota conhecida e ligada a operações ofensivas em curso, e não passeando por acaso em águas neutras. Falta reconstruir o que dois destróieres americanos faziam ali naquela semana.

 
 

II  A Origem

O petróleo nacionalizado em 1951

A origem tem nome de plano e data de execução. Em 31 de julho de 1964, comandos sul-vietnamitas bombardearam ilhas do Norte dentro do programa americano OPLAN 34A, e o destróier USS Maddox patrulhava a mesma costa recolhendo sinais eletrônicos enquanto os tiros aconteciam.

O primeiro fio é o programa secreto. O OPLAN 34A previa sabotagem, desembarque de agentes e ataque costeiro contra o Vietnã do Norte, executados por forças sul-vietnamitas com barcos rápidos noruegueses, planejamento americano e negativa pública de Washington.

O segundo fio é a patrulha DESOTO. O Maddox cumpria uma missão de coleta eletrônica que se aproximava do litoral norte-vietnamita para provocar a ativação de radares costeiros e mapear as frequências acionadas. Duas atividades distintas, comandos atacando ilhas e um destróier ouvindo a costa, corriam na mesma água e na mesma semana.

O terceiro fio é o combate real de 2 de agosto. Três lanchas torpedeiras norte-vietnamitas da classe P-4 avançaram contra o Maddox em pleno dia, houve troca de tiros, aviões do porta-aviões Ticonderoga entraram na ação e as lanchas saíram avariadas. Esse primeiro episódio está documentado dos dois lados e ninguém o contesta.

"Nossos destróieres estavam apenas atirando em alvos fantasmas: não havia barcos PT ali. Não havia nada ali senão água preta e poder de fogo americano."

James Stockdale, In Love and War, 1984.

O quarto fio é a política interna. Johnson enfrentava eleição presidencial em novembro daquele ano, disputava com um adversário que o acusava de fraqueza diante do comunismo, e um texto de autorização de força para o Sudeste Asiático já vinha sendo redigido em Washington meses antes da noite no golfo, à espera de um episódio que o justificasse.

O quinto fio é a velocidade da resposta. Na madrugada de 5 de agosto no horário local, aviões americanos atacaram bases navais e depósitos de combustível no Vietnã do Norte na operação batizada Pierce Arrow. Johnson foi à televisão anunciar a retaliação por volta das 23h30 do dia 4 no horário de Washington, antes de os aviões chegarem aos alvos, e a conversa no Congresso sobre a resolução começou na manhã seguinte.

Dois pilotos americanos foram abatidos naquela represália. Um deles, Everett Alvarez Jr., passou mais de oito anos preso no Vietnã do Norte.

Falta a parte que transformou uma suspeita antiga de repórter e de veterano em documento da própria agência que produziu a inteligência da noite.

 

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III  O Combustível

A confissão que chegou em 2013

A tese resiste porque o desmentido mais forte veio de dentro. O artigo de Robert J. Hanyok, historiador do centro de história criptológica da NSA, revisou o acervo de interceptações da agência sobre 2 a 4 de agosto de 1964 e concluiu que o ataque do dia 4 não ocorreu, que os sinais apresentados como prova diziam respeito ao combate do dia 2, e que a maior parte do material relevante ficou de fora dos relatórios enviados aos tomadores de decisão.

O cuidado necessário está no salto seguinte, o de tratar a operação inteira como armação montada com meses de antecedência para fabricar um pretexto. O próprio Hanyok descreve um processo diferente e menos cinematográfico: analistas convencidos da própria hipótese, correção posterior que nunca subiu a cadeia e um encobrimento que serviu para não expor o erro.

O que está documentado: a NSA divulgou em 30 de novembro de 2005 o artigo "Skunks, Bogies, Silent Hounds, and the Flying Fish: The Gulf of Tonkin Mystery, 2-4 August 1964", publicado antes no periódico interno Cryptologic Quarterly, junto com centenas de páginas de traduções e relatórios de interceptação; o National Security Archive, na Universidade George Washington, publicou o conjunto em coletânea comentada em janeiro de 2008.

O que a defesa da tese sustenta: que a autorização de guerra mais consequente do período foi votada em três dias, sobre um episódio que o comandante em campo já classificava como duvidoso por escrito antes da votação, e que o Congresso decidiu sem ver o material que existia no acervo da agência.

O que continua em disputa: a intenção. Erro de análise sob pressão, com encobrimento posterior para preservar reputações, e fabricação deliberada de pretexto levam ao mesmo desfecho histórico, mas separam responsabilidades diferentes, e historiadores continuam divididos sobre qual leitura o material sustenta.

As datas do caso, com a origem de cada uma:

·  Incursão de comandos sul-vietnamitas contra ilhas do Norte, no OPLAN 34A: 31 de julho de 1964
·  Combate documentado entre o USS Maddox e três lanchas torpedeiras: 2 de agosto de 1964
·  Suposto segundo ataque e ordem de represália aérea: 4 de agosto de 1964
·  Aprovação da Resolução do Golfo de Tonkin no Congresso: 7 de agosto de 1964
·  Revogação da resolução pelo Congresso americano: 1971
·  Liberação do estudo interno da NSA e das interceptações: 30 de novembro de 2005

A parte mais frágil da versão popular é a ideia de um roteiro perfeito, com cada peça encaixada de véspera por um punhado de homens numa sala. O mar estava ruim, o sonar acusava contato onde não havia, o comandante pediu revisão e a máquina política pegou o material que confirmava o que já queria fazer. Pressa e conveniência explicam mais do que onisciência.

Então por que a suspeita segue de pé mais de sessenta anos depois? Porque a parte central dela virou texto oficial da agência responsável pela inteligência daquela noite. Uma guerra que consumiu quase três milhões de vidas no Sudeste Asiático foi autorizada por um Congresso que votou sobre um episódio inexistente, e um governo que tinha o material capaz de desmentir a versão manteve o material fora da mesa.

O caso do Golfo de Tonkin é o exemplo raro em que a correção veio do próprio arquivo técnico, sem tribunal e sem delação, e ainda assim levou quatro décadas para sair da gaveta. O que ficou no imaginário foi a lição de que decisão votada em três dias costuma repousar sobre informação que ninguém teve tempo de conferir.

"Uma autorização de guerra votada sobre informação que a própria agência sabia frágil ainda é uma decisão do Congresso?"

Confira antes de aceitar qualquer versão sobre agosto de 1964: quem assinou o pedido de reavaliação e em que horário, quantos senadores votaram contra a resolução, e em que ano a agência americana liberou o estudo sobre as próprias interceptações.

 
 
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