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O Buda de ouro de Baguio e os US$ 22 bilhões de Honolulu
Um serralheiro disse ter achado o tesouro de Yamashita em 1971 e perdido a peça para homens de Marcos, e um júri do Havaí pôs preço na história.
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O Buda de ouro achado em Baguio, 1971
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A manchete do jornal Deseret News, de Salt Lake City, em 21 de julho de 1996, dizia Hawaii Jury Awards $22 Billion Against the Estate of Marcos: júri do Havaí condena o espólio de Marcos a 22 bilhões de dólares.
O homem que abriu aquele processo não estava na sala. Rogelio Roxas era serralheiro em Baguio, cidade de montanha a cerca de 250 quilômetros ao norte de Manila, e dizia ter escavado em 24 de janeiro de 1971 um túnel em terreno vizinho ao Hospital Geral da cidade. Dentro, segundo o relato que ele sustentou até o fim da vida, havia uma estátua de Buda em ouro com cerca de um metro de altura, caixas de madeira lacradas e barras de metal amarelo empilhadas contra a parede.
Roxas contou que levou a estátua para a casa dele no bairro de Aurora Hill, mostrou a peça a vizinhos e a repórteres da imprensa local e, em abril de 1971, viu homens armados que se identificaram como agentes do Bureau Nacional de Investigação das Filipinas retirarem tudo do imóvel. Em 19 de abril, um Buda dourado foi depositado no tribunal municipal de Baguio, e ele declarou que aquela peça não era a que tinham tirado dele. Em 18 de maio daquele ano, conforme o relato acolhido depois pela Justiça do Havaí, Roxas foi preso e interrogado.
A ação chegou a um tribunal estadual de Honolulu em 1988, dois anos depois de Ferdinand Marcos deixar as Filipinas e se instalar no arquipélago americano. Roxas faleceu em 25 de maio de 1993, antes do julgamento começar, e o processo seguiu em nome do espólio dele e da Golden Budha Corporation, empresa a que ele havia cedido os direitos sobre o achado. Em julho de 1996, o júri fixou a indenização em 22 bilhões de dólares, valor que com juros passou de 40 bilhões antes de qualquer recurso.
A cifra transformou uma caçada de tesouro num caso de tribunal, com transcrição, perito e testemunha sob juramento. Antes dela já existia uma acusação mais velha, repetida em voz baixa nas Filipinas desde os anos 1970, que explicava de onde teria vindo a fortuna do presidente.
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I A Conspiração do Dia
O serralheiro e os homens do palácio
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A acusação é que Ferdinand Marcos montou uma operação de Estado para localizar, escavar e confiscar o ouro que o Exército japonês teria enterrado nas Filipinas no fim da Segunda Guerra, que a fortuna da família saiu dela, e que Rogelio Roxas foi o caso em que o esquema apareceu à luz do dia.
O nome do tesouro vem de Tomoyuki Yamashita, general que comandou as forças japonesas nas Filipinas a partir de outubro de 1944 e se rendeu em setembro de 1945. Foi julgado por um tribunal militar americano em Manila, condenado e enforcado em 23 de fevereiro de 1946, em Los Baños.
A lenda sustenta que o Japão recolheu ouro e joias de bancos e templos do sudeste asiático ocupado, concentrou a carga nas Filipinas quando o cerco naval americano fechou a rota para Tóquio e enterrou tudo em túneis abertos por prisioneiros de guerra. Nenhum inventário japonês desse depósito foi localizado em arquivo público.
Roxas era ex-militar, trabalhava com fechaduras e pertencia a uma associação local de caçadores de tesouro, atividade que exigia licença do governo filipino. O ponto onde ele cavou saiu de duas conversas: a de um filho de soldado japonês que servira na região e a de um antigo intérprete do Exército japonês, ambos com lembrança de um túnel perto do hospital.
Pelo relato dele, a cabeça da estátua era removível e o corpo era oco, com punhados de diamantes brutos guardados dentro. Fotografias da peça em Aurora Hill circularam na imprensa filipina em 1971, e uma comissão do Senado filipino chegou a ouvir o caso ainda naquele ano, antes de a lei marcial suspender investigações do tipo em setembro de 1972.
A defesa que a família Marcos sustentou por décadas usava o mesmo tesouro em sentido contrário: Ferdinand afirmava ter enriquecido ao encontrar ouro japonês nos anos 1940, quando advogava, e não ao desviar dinheiro público. A tese explicava lingotes sem origem declarada e seguiu na boca de Imelda depois da queda.
O relato do serralheiro tem buracos reconhecidos pelos próprios advogados dele. Ninguém pesou o Buda diante de testemunha independente, a contagem de barras saiu de estimativa visual à luz de lampião, e o que a polícia devolveu ao tribunal de Baguio nunca foi confrontado com a peça fotografada.
A acusação se sustenta menos na memória de quem cavou e mais no que dois tribunais americanos puseram por escrito.
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II A Origem
O que ficou escrito nos autos de Honolulu
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A origem documental da suspeita está no processo aberto em Honolulu em 1988, que obrigou testemunhas, peritos e a família Marcos a descrever sob juramento o Buda, as barras e a noite da apreensão, e produziu um registro público que sobreviveu a todos os recursos posteriores.
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O júri do tribunal estadual do Havaí decidiu em julho de 1996 em favor de duas partes: a Golden Budha Corporation, pela conversão do tesouro em proveito alheio, e o espólio de Roxas, pela prisão e pela agressão de 1971.
A defesa de Imelda Marcos sustentou que o marido nada recebeu, argumento que o tribunal rejeitou por contradizer o que a própria família declarara antes, em outros processos, sobre a origem da fortuna.
Em 17 de novembro de 1998, a Suprema Corte do Havaí reformou a condenação bilionária. Manteve a conclusão de que Roxas encontrou um tesouro e de que Ferdinand Marcos se apropriou dele, e derrubou a conta pelo motivo descrito no próprio texto.
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"The evidence, adduced at trial, of the value of the thousands of gold bars allegedly contained in unopened boxes discovered by Roxas and converted by Ferdinand was too speculative to support an award of damages."
A prova produzida no julgamento sobre o valor dos milhares de lingotes de ouro supostamente contidos em caixas fechadas descobertas por Roxas e convertidas por Ferdinand era especulativa demais para sustentar uma indenização. Roxas v. Marcos, opinião da Suprema Corte do Havaí, 17 de novembro de 1998.
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Caixa lacrada que ninguém abriu não vira base de cálculo. O tribunal devolveu o caso à primeira instância para novo julgamento restrito ao valor da estátua e das barras efetivamente vistas.
Os números que sobraram no fim da fila são modestos diante da manchete de 1996: 6 milhões de dólares ao representante do espólio de Roxas, Felix Dacanay, pelas violações sofridas pelo serralheiro, e 13.275.848 dólares e 37 centavos à Golden Budha Corporation. As duas condenações recaem sobre Imelda Marcos nos limites da participação dela no espólio do marido, e os recursos da família foram negados entre novembro de 2005 e janeiro de 2006.
Fora do tribunal americano, a contabilidade corre em outro balcão. A Comissão Presidencial de Bom Governo, criada pelo governo filipino em 1986 para recuperar bens da família Marcos, informa ter recuperado cerca de 3,6 bilhões de dólares até 2021. O Guinness World Records registra o caso na categoria de maior roubo a um governo, com estimativa de 5 a 10 bilhões de dólares desviados.
Nenhum desses ativos foi rastreado até um túnel em Baguio. Saíram de contas na Suíça, imóveis em Nova York, joias apreendidas e empresas de fachada, patrimônio que dispensa lenda de guerra.
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