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O buraco na parede do laboratório de Sóchi

Um advogado canadense, mais de 1.000 atletas russos e frascos com tampa riscada: como a troca de urina passou despercebida por quatro anos.

Frascos de urina lacrados passando por um buraco rente ao chão numa parede de laboratório.

Sóchi, Rússia, fevereiro de 2014

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O New York Times publicou em 12 de maio de 2016 a manchete “Russian Insider Says State-Run Doping Fueled Olympic Gold” (Delator russo diz que doping do Estado rendeu ouro olímpico). O delator tinha nome, cargo e endereço novo em Los Angeles.

Grigory Rodchenkov dirigiu por uma década o laboratório antidoping de Moscou, o único da Rússia credenciado para testar atletas. Em novembro de 2015, ele deixou o cargo, embarcou para os Estados Unidos e passou a contar aos repórteres Rebecca Ruiz e Michael Schwirtz o que tinha feito nas Olimpíadas de Inverno de Sóchi, em fevereiro de 2014.

A história parecia roteiro de filme ruim. Segundo Rodchenkov, durante os Jogos, a urina dos atletas russos dopados saía do laboratório oficial por um buraco aberto na parede, rente ao chão, e entrava num prédio vizinho controlado pelo FSB, o serviço secreto russo.

Do outro lado, agentes abriam os frascos lacrados, despejavam a urina suja e punham no lugar urina limpa, coletada dos mesmos atletas meses antes. De madrugada, os frascos voltavam pelo buraco e seguiam para análise como se nada tivesse acontecido.

A Rússia tinha terminado Sóchi no topo do quadro de medalhas, com 13 ouros. O ministro do Esporte, Vitaly Mutko, chamou a reportagem de invenção. O Kremlin disse que o químico era um fugitivo tentando salvar a própria pele.

Rodchenkov não falava de longe. Ele próprio tinha preparado as drogas dos atletas e treinado a equipe que manuseava os frascos, e levou na mala cópias de planilhas com nomes, datas de coleta e resultados.

O caso parecia a palavra de um homem contra a de um governo. A Agência Mundial Antidoping, a WADA, decidiu não escolher lado no escuro e contratou um advogado canadense para conferir cada frase do relato com prova física.

O advogado se chamava Richard McLaren. Ele recebeu os frascos, os bancos de dados e as mensagens, e devolveu um relatório com mais de mil nomes.

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I  A Conspiração do Dia

A assinatura de Richard McLaren

Richard McLaren, professor de direito em Ontário e árbitro do Tribunal Arbitral do Esporte, recebeu a encomenda da WADA em maio de 2016. Tinha 57 dias para dizer se a troca de amostras de Sóchi tinha acontecido.

A primeira parte do relatório saiu em 18 de julho de 2016. McLaren confirmou o relato de Rodchenkov e foi além: o esquema não era invenção de um químico sozinho, e sim operação dirigida pelo Ministério do Esporte, com apoio do FSB.

A segunda parte, publicada em dezembro de 2016, ampliou o alcance. Mais de mil atletas russos, de mais de 30 esportes de verão, de inverno e paralímpicos, tinham se beneficiado da manipulação de amostras entre 2011 e 2015.

As tampas que denunciaram o truque

A prova mais forte veio dos próprios frascos. A urina de controle é guardada no BEREG-KIT, um kit de garrafas da empresa suíça Berlinger com tampa projetada para quebrar se alguém tentar abrir depois de fechada.

A equipe de McLaren levou frascos de Sóchi a peritos forenses. Nas tampas, sob microscópio, apareceram riscos e marcas de ferramenta, sinal de que alguém tinha aberto o lacre sem quebrá-lo e fechado de novo.

Para tirar a dúvida, o laboratório contratado pela investigação tentou abrir garrafas novas do mesmo modelo. Conseguiu, com instrumentos finos, e deixou nas tampas marcas iguais às encontradas nos frascos de Sóchi.

Outros frascos traziam uma impossibilidade química. Algumas amostras tinham mais sal do que o corpo humano consegue eliminar na urina, resultado do ajuste feito às pressas para a urina limpa imitar a densidade da suja.

A frase do relatório

McLaren escolheu as palavras com cuidado de advogado. O texto final usou a expressão que, até ali, só os teóricos da conspiração usavam a respeito do esporte russo.

“Existiu uma conspiração institucional entre atletas de esportes de verão e de inverno, que participaram com autoridades russas do Ministério do Esporte e sua estrutura, junto com o FSB, para manipular os controles de doping.” Richard McLaren, Relatório McLaren, segunda parte, 2016.

O relatório também listou as competições afetadas. Além de Sóchi, entraram os Jogos de Londres em 2012, a Universíade de Kazan em 2013 e o Mundial de Atletismo de Moscou, no mesmo ano.

McLaren deixou claro um limite. Ele não tinha poder de punir ninguém: entregava a prova, e as federações e o Comitê Olímpico Internacional decidiriam o destino de cada atleta.

O próprio Vitaly Mutko pagou parte do preço. Em dezembro de 2017, o COI baniu o ex-ministro do Esporte de qualquer Olimpíada pelo resto da vida.

 
 

II  A Origem

Do laboratório de Moscou ao quarto vizinho

O esquema de Sóchi nasceu de uma denúncia anterior, feita por um casal de russos que trabalhava dentro do sistema.

Vitaly Stepanov, funcionário da agência antidoping russa, a RUSADA, e a mulher dele, a corredora Yuliya Stepanova, gravaram conversas com treinadores e médicos. Em dezembro de 2014, o jornalista alemão Hajo Seppelt levou o material ao ar num documentário da emissora ARD.

A primeira investigação

A WADA reagiu com uma comissão independente presidida por Dick Pound, ex-presidente da própria agência. O relatório da comissão Pound, de novembro de 2015, registrou que o laboratório de Moscou destruiu 1.417 amostras dias antes de uma visita de inspetores.

O laboratório perdeu o credenciamento. Rodchenkov, que assinava como diretor, renunciou e deixou a Rússia semanas depois, com a ajuda do cineasta americano Bryan Fogel, que filmava um documentário sobre doping.

Como a troca funcionava

O relato de Rodchenkov, conferido depois por McLaren, descreve uma linha de montagem em quatro etapas:

1. Meses antes dos Jogos, os atletas do esquema coletavam a própria urina limpa, guardada congelada num prédio do FSB em Sóchi.

2. Durante as Olimpíadas, a amostra oficial entrava no laboratório e era passada por um buraco na parede para a sala vizinha, controlada pelos agentes.

3. Os agentes abriam a tampa do BEREG-KIT sem quebrar o lacre, trocavam a urina e acrescentavam sal ou café solúvel para acertar a densidade.

4. Antes do amanhecer, o frasco voltava pelo buraco e seguia para a análise oficial, que dava resultado negativo.

Os investigadores de McLaren localizaram a passagem na parede entre as duas salas, no ponto onde Rodchenkov tinha dito que ela estava, tapada para não chamar atenção.

O coquetel da Duquesa

Para os atletas, Rodchenkov criou um coquetel apelidado de Duquesa: três esteroides anabolizantes (hormônios sintéticos que aumentam força e massa muscular) dissolvidos em bebida alcoólica.

Os homens tomavam a mistura com uísque Chivas; as mulheres, com vermute Martini. O álcool acelerava a absorção pela mucosa da boca e encurtava a janela em que a droga aparecia no exame.

A combinação permitia treinar dopado até perto da prova. Se algo escapasse, a troca de urina no laboratório cobria o resto.

A defesa russa

Moscou nunca admitiu a participação do Estado. O governo reconheceu falhas no sistema antidoping, mas atribuiu tudo a Rodchenkov, acusado na Rússia de abuso de autoridade e alvo de pedido de prisão.

 

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III  O Combustível

Bandeira neutra e um tribunal na Suíça

As punições vieram em ondas, e cada uma alimentou um lado diferente da história. O Comitê Olímpico Internacional criou duas comissões em 2016, a Schmid e a Oswald, para julgar o caso de Sóchi atleta por atleta.

Em dezembro de 2017, o COI suspendeu o Comitê Olímpico Russo dos Jogos de Inverno de PyeongChang, na Coreia do Sul. Os atletas aprovados competiram sob a sigla OAR, de “Olympic Athletes from Russia” (Atletas Olímpicos da Rússia), com bandeira neutra.

O recurso em Lausanne

A comissão Oswald baniu para sempre dezenas de atletas de Sóchi e retirou medalhas, entre elas os ouros do esquiador Alexander Legkov. Os punidos recorreram ao Tribunal Arbitral do Esporte, em Lausanne, na Suíça.

Em fevereiro de 2018, o tribunal anulou as punições de 28 desses atletas por falta de prova individual. A existência do esquema não estava em julgamento: faltava ligar cada frasco riscado a cada nome. Legkov recuperou o ouro.

Na Rússia, a decisão virou prova de perseguição. Fora dela, virou exemplo de como um esquema bem montado protege até os beneficiados quando a prova é coletiva.

Nos outros 11 casos, o tribunal manteve a perda das medalhas de Sóchi.

O banco de dados

Em 2019, a Rússia entregou à WADA o banco de dados do laboratório de Moscou. Peritos da agência encontraram registros apagados e alterados pouco antes da entrega.

A WADA puniu o país com quatro anos de afastamento. Em dezembro de 2020, o Tribunal Arbitral do Esporte reduziu a pena para dois anos, e os russos competiram em Tóquio e em Pequim sob a sigla ROC, sem hino nem bandeira.

O que sustenta a dúvida

A versão do complô ocidental se apoia em fatos reais: a fuga de Rodchenkov, o documentário Ícaro, de Bryan Fogel, que ganhou o Oscar em 2018, e as absolvições de Lausanne. O relatório responde com tampas riscadas, sal impossível e mensagens trocadas entre funcionários.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• a primeira parte do Relatório McLaren, de 18 de julho de 2016, no site da WADA;

• a decisão do Tribunal Arbitral do Esporte sobre Alexander Legkov, de fevereiro de 2018;

• a reportagem do New York Times de 12 de maio de 2016, de Rebecca Ruiz e Michael Schwirtz.

Rodchenkov nunca voltou à Rússia depois de novembro de 2015.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Onde vive hoje Grigory Rodchenkov, o químico russo que contou ao mundo como os frascos passavam pela parede de Sóchi?

 
 
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Quantos dias Richard McLaren teve, a partir da encomenda da WADA em maio de 2016, para confirmar se a troca de amostras em Sóchi tinha acontecido?

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