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O conde de Oxford e as 7 peças posteriores a 1604

Um professor inglês apontou Edward de Vere como o verdadeiro Shakespeare em 1920. A Tempestade e um naufrágio de 1609 atrapalham a tese.

Retrato elisabetano de um nobre de gola rendada junto a um manuscrito teatral à luz de vela.

Hackney, Londres, onde o conde de Oxford viveu

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A editora londrina Cecil Palmer estampou na capa de um livro de 1920 a frase “'Shakespeare' Identified” (Shakespeare identificado). O autor, John Thomas Looney, dava aula numa escola de Gateshead, no norte da Inglaterra, e dizia ter achado o verdadeiro dono das peças.

O nome apontado por ele era Edward de Vere, o 17º conde de Oxford, cortesão da rainha Elizabeth I, poeta nas horas vagas e patrono de companhias de atores.

Looney chegou ao conde por eliminação. Montou uma lista de traços que o autor das peças teria, como intimidade com a corte, conhecimento da Itália e gosto por falcoaria, e saiu atrás de quem encaixava no retrato.

O sobrenome do professor virou piada fácil na imprensa inglesa, porque soa como loony (maluco, em inglês). Ele pedia que se pronunciasse “Lôni”, e a tese andou assim mesmo. O livro ganhou edição americana no mesmo ano e chegou aos leitores dos dois lados do Atlântico.

Em 1922 surgiu em Londres a Shakespeare Fellowship (Irmandade Shakespeare), sociedade criada para discutir a autoria das peças. Nos anos 1930, Sigmund Freud, o pai da psicanálise, passou a defender o conde em público.

O ponto fraco da tese mora num registro de paróquia. Edward de Vere foi enterrado em Hackney, nos arredores de Londres, em julho de 1604.

Pelo calendário aceito pela maioria dos estudiosos, sete peças estrearam depois do enterro: Macbeth, Rei Lear, Antônio e Cleópatra, Coriolano, Conto de Inverno, A Tempestade e Henrique VIII. Esta última pegou fogo, literalmente: um tiro de canhão de cena incendiou o teatro Globe numa apresentação de 1613.

A Tempestade é o caso mais duro. A peça usa detalhes de um naufrágio real nas Bermudas, ocorrido em 1609, cinco anos depois do sepultamento do conde.

Os defensores de Oxford têm resposta para esse calendário. Para entender a resposta, o começo está no método do professor e num poema esquecido que ele encontrou numa antologia.

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I  A Conspiração do Dia

O professor de Gateshead

A resposta de ontem

Quem mandou trocar o busto da papisa em Siena?

O papa Clemente VIII, em 1600. O busto com a inscrição Johannes VIII, foemina de Anglia (João VIII, mulher da Inglaterra) foi retocado e rebatizado como o papa Zacarias, a pedido do cardeal e historiador Cesare Baronio, e segue assim na fileira de cabeças de papas da catedral.

John Thomas Looney nasceu em South Shields, no nordeste da Inglaterra, em 1870. Era seguidor do positivismo (a doutrina do francês Auguste Comte que punha a ciência como base da moral) e ensinava inglês quando começou a desconfiar de William Shakespeare, o ator nascido em Stratford-upon-Avon em 1564.

Looney nunca apresentou um documento ligando Edward de Vere às peças. A tese inteira se apoia em semelhanças entre a vida do conde e o enredo das obras.

O professor dividiu o retrato do autor em duas listas. A primeira trazia traços gerais, como gênio literário, excentricidade e fama de ser incompreendido. A segunda trazia os especiais, como origem nobre, simpatia pelo catolicismo e pouca cabeça para dinheiro.

Com o retrato pronto, ele folheou antologias de poesia elisabetana. Num poema chamado Women (Mulheres), assinado por Oxford, achou a mesma estrofe de seis versos usada em Vênus e Adônis, o livro de 1593 que estreou o nome Shakespeare na imprensa. O poema longo foi dedicado a Henry Wriothesley, o conde de Southampton, outro nobre da corte.

Os paralelos com Hamlet

A peça que mais pesou no livro foi Hamlet. Looney enumerou as coincidências:

1. Oxford perdeu o pai aos 12 anos, em 1562, e cresceu como tutelado (menor sob guarda legal) na casa de William Cecil, o lorde Burghley, conselheiro-chefe da rainha.

2. Burghley tinha fama de dar conselhos longos e espionar o próprio filho, como Polônio faz com Laertes.

3. Oxford casou em 1571 com Anne Cecil, filha de Burghley, como Hamlet corteja Ofélia, filha de Polônio.

4. Voltando da Itália em 1576, o navio do conde foi assaltado por piratas no Canal da Mancha. Hamlet também cai nas mãos de piratas a caminho da Inglaterra.

O nome escondido

Faltava explicar por que um conde usaria outro nome. Looney respondeu com o estigma da imprensa: na corte elisabetana, nobre não assinava peça vendida ao público de teatro.

Ele também apontou a dedicatória dos Sonetos, impressos por Thomas Thorpe em 1609, que chama o autor de “ever-living poet” (poeta sempre vivo). Para os seguidores de Looney, a expressão só cabia a quem já tinha partido.

A pensão da rainha

Em 1586, Elizabeth I concedeu a Oxford uma pensão anual de mil libras, sem dizer para quê. Looney leu ali um pagamento secreto por peças patrióticas. Os documentos do Tesouro não registram o motivo, e ninguém achou papel que o esclareça.

O professor publicou ainda, em 1921, os poemas de Oxford reunidos. Looney se foi em 1944 sem ver a tese aceita por nenhuma universidade inglesa. Os departamentos de literatura seguem, até hoje, atribuindo as peças ao ator de Stratford.

 
 

II  A Origem

Antes do conde, Francis Bacon

As dúvidas sobre William Shakespeare nasceram 63 anos antes do livro de Looney, e o suspeito inicial era outro.

Em 1857, a americana Delia Bacon lançou um livro defendendo que as peças saíram de um grupo liderado pelo filósofo Francis Bacon.

O título era The Philosophy of the Plays of Shakspere Unfolded (A filosofia das peças de Shakespeare revelada). Delia não tinha parentesco com o filósofo, apesar do sobrenome. O livro vendeu pouco, mas fundou uma escola: os baconianos.

Os baconianos procuraram mensagens cifradas nas peças. O americano Ignatius Donnelly publicou em 1888 The Great Cryptogram (O grande criptograma), com supostos códigos escondidos no texto do Primeiro Fólio, a coletânea das peças impressa em 1623.

O vazio dos papéis

A desconfiança se alimentava da escassez de documentos sobre o homem de Stratford. Sobram seis assinaturas dele, todas com grafias diferentes, e nenhuma carta ou manuscrito de peça.

O testamento de 1616 não cita livro nenhum. Deixa à mulher, Anne Hathaway, a segunda melhor cama da casa, detalhe que os céticos repetem há século e meio. Os registros da escola primária de Stratford daquela época se perderam, então não há lista provando que ele estudou ali.

Mark Twain entrou na briga em 1909 com o livro Is Shakespeare Dead? (Shakespeare morreu?). Ele comparou o caso a outros mistérios sem prova e se declarou baconiano.

A troca de suspeito

Looney mudou o jogo porque abandonou os códigos. No lugar das cifras, ofereceu uma biografia. O método agradou quem achava improvável um filho de luveiro, sem universidade, escrever sobre reis e cortes.

Freud aderiu nos anos 1930, depois de ler o livro duas vezes. Ele incluiu a mudança de opinião numa nota da própria autobiografia.

“I no longer believe that William Shakespeare the actor from Stratford was the author of the works which have been ascribed to him” (Já não creio que William Shakespeare, o ator de Stratford, tenha sido o autor das obras atribuídas a ele). Sigmund Freud, Um estudo autobiográfico, nota de 1935.

Com Freud, a tese de Oxford ganhou um avalista famoso e passou a ocupar o lugar de Bacon como a principal rival de Stratford. O baconismo sobreviveu em pequenos grupos, mas perdeu a dianteira.

 

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III  O Combustível

O naufrágio de 1609

Em julho de 1609, o navio Sea Venture, que levava colonos ingleses para a Virgínia, encalhou nas Bermudas depois de uma tempestade. Todos os 150 a bordo chegaram vivos à praia.

William Strachey, um dos náufragos, contou a viagem numa carta datada de julho de 1610, escrita em Jamestown, que circulou em cópia manuscrita por Londres.

A carta descreve fogo-de-santelmo no mastro, a tripulação exausta e uma ilha com fama de enfeitiçada. A Tempestade repete o cenário e chama as ilhas de “still-vex'd Bermoothes” (as Bermudas sempre agitadas).

Se a peça bebeu na carta, foi escrita depois de 1610. A primeira apresentação registrada aconteceu na corte do rei Jaime I, em novembro de 1611.

A resposta dos oxfordianos

Os defensores do conde respondem por dois caminhos. O primeiro diz que as fontes do naufrágio já existiam antes, em relatos de viagem como os de Richard Eden, de 1555. O segundo diz que Oxford deixou rascunhos e outros autores terminaram as peças.

O segundo caminho esbarra nas parcerias. Henrique VIII e Os Dois Nobres Parentes foram escritas com John Fletcher, que estreou como dramaturgo depois de 1604. Péricles divide autoria com George Wilkins, ativo só a partir de 1606.

Macbeth traz outra trava: o porteiro faz piada com um equivocator (o enrolador que jura com duplo sentido). A palavra remete ao julgamento do jesuíta Henry Garnet, de 1606, pela Conspiração da Pólvora.

Dois nomes numa lista

Em 1598, o clérigo Francis Meres publicou Palladis Tamia (A despenseira de Palas), um catálogo dos escritores ingleses. Ele cita os dois homens como pessoas diferentes, na mesma frase.

“The best for Comedy amongst us bee, Edward Earle of Oxforde [...] Shakespeare” (Os melhores na comédia entre nós são Edward, conde de Oxford [...] Shakespeare). Francis Meres, Palladis Tamia, 1598.

Por que a tese segue viva

Em 1987, três juízes da Suprema Corte americana, William Brennan, Harry Blackmun e John Paul Stevens, presidiram um julgamento simulado na American University, em Washington, e deram ganho a Stratford. O filme Anônimo, de Roland Emmerich, recontou a versão de Oxford em 2011.

A Declaração de Dúvida Razoável, lançada em 2007, ganhou as assinaturas dos atores Derek Jacobi e Mark Rylance. Nenhum documento novo ligando o conde às peças apareceu desde 1920, e a tese depende de explicar as sete estreias posteriores ao enterro.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o registro de sepultamento de Edward de Vere na igreja de Hackney, em 1604;

• o verso “still-vex'd Bermoothes” no primeiro ato de A Tempestade;

• a carta de William Strachey sobre o Sea Venture, impressa por Samuel Purchas em 1625.

 
 
Quiz da edição

Segundo o calendário aceito pela maioria dos estudiosos, quantas peças atribuídas a Shakespeare estrearam depois do enterro do conde de Oxford, em julho de 1604?

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