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O corpo de Evita escondido 14 anos em Milão
Os militares levaram o corpo embalsamado de Eva Perón em 1955. Ele só reapareceu em 1971, num caixão aberto diante de Juan Perón, em Madri.
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Puerta de Hierro, Madri, 1971
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A Subsecretaria de Informações da Presidência argentina leu na rádio, na noite de 26 de julho de 1952, que Eva Perón tinha “passado à imortalidade” às 20h25. Tinha 33 anos e um câncer de útero que os médicos esconderam dela até o último mês.
Buenos Aires parou. Por quase duas semanas, filas de quarteirões inteiros passaram diante do caixão no Ministério do Trabalho e depois no Congresso. As floriculturas da capital ficaram sem estoque, e flores chegaram de trem do interior.
O marido, o presidente Juan Domingo Perón, já tinha contratado um especialista para que o corpo nunca se desfizesse. O plano era expor Evita para sempre num monumento gigante, desenhado para o centro da cidade.
O monumento não saiu do papel. Em setembro de 1955, um golpe militar derrubou Perón, que partiu para o exílio. O corpo embalsamado ficou para trás, guardado no segundo andar da sede da Confederação Geral do Trabalho, a CGT, central sindical do país.
Numa noite de novembro de 1955, um caminhão do Exército levou o caixão embora. A família não foi avisada. Os jornais não publicaram uma linha. Por 16 anos, nenhum argentino comum soube onde Eva Perón estava.
Os boatos ocuparam o vazio: o corpo teria sido jogado no rio da Prata, dissolvido em cal, levado num navio para o meio do Atlântico. Cada versão tinha defensores, e nenhuma tinha prova. Perón, exilado entre o Paraguai, o Panamá, a Venezuela e a Espanha, pediu o corpo de volta por anos e nunca recebeu resposta oficial.
A resposta apareceu em setembro de 1971, numa casa de subúrbio em Madri, quando um caixão de madeira escurecida foi aberto diante do viúvo. Dentro estava ela, com o rosto intacto e o corpo marcado por pancadas.
Antes de chegar a Madri, o caixão rodou Buenos Aires em segredo, e a primeira parada foi um quartel de inteligência.
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I A Conspiração do Dia
O caixão no quartel de inteligência
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O responsável pelo sumiço foi o tenente-coronel Carlos Eugenio Moori Koenig, chefe do Serviço de Inteligência do Exército, que recebeu do governo militar a ordem de tirar o corpo da CGT e dar a ele um enterro cristão e anônimo.
O governo da chamada Revolução Libertadora, apelido que os golpistas deram a si mesmos, tinha um problema político. O corpo atraía devotos, e qualquer túmulo conhecido viraria santuário peronista. Destruir o cadáver ofenderia a Igreja e metade do país. A saída escolhida foi sumir com ele sem deixar papel assinado.
Moori Koenig não cumpriu a ordem do enterro. Segundo depoimentos colhidos anos depois pelo jornalista Tomás Eloy Martínez, ele deslocou o caixão por Buenos Aires durante meses: um furgão parado em ruas diferentes, um depósito militar, a casa de um subordinado.
As velas na calçada
Onde o caixão parava, apareciam velas acesas e flores na calçada na manhã seguinte. A explicação mais aceita é que militares peronistas vazavam a localização. Os oficiais da operação leram o padrão como vigilância de um comando inimigo.
O episódio mais grave aconteceu na casa do major Eduardo Arandía, que escondeu o caixão no sótão. Numa madrugada, ouviu barulho, achou que eram peronistas e disparou contra a sombra. Era a mulher dele, grávida, que não sobreviveu.
Moori Koenig acabou levando o corpo para o próprio gabinete, no prédio do serviço de inteligência, onde o guardava de pé numa caixa de madeira. Funcionários relataram que ele o mostrava a visitas e falava com o caixão em voz baixa, à noite, depois de beber. Em 1956 foi afastado do cargo e mandado para um posto longe da capital.
A Operação Traslado
O presidente de fato, general Pedro Eugenio Aramburu, passou a missão ao coronel Héctor Cabanillas. Em 1957, Cabanillas montou a Operação Traslado (transferência), com ajuda do padre Francisco Rotger, da Companhia de São Paulo, que fez a ponte com a Igreja na Itália.
O caixão saiu do porto de Buenos Aires num navio rumo a Gênova, registrado como bagagem de uma viúva italiana. Em maio de 1957, foi enterrado no Cimitero Maggiore (Cemitério Maior) de Milão, sob a lápide de María Maggi de Magistris.
A viúva nunca existiu: tinha papéis forjados e uma história de imigrante que voltava para casa. Uma italiana, Giuseppina Airoldi, levou flores ao túmulo por anos sem saber quem estava ali. O endereço ficou num envelope lacrado, entregue a um tabelião.
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II A Origem
Um ano de banhos no segundo andar
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Eva Perón pôde ficar escondida por anos porque o corpo não se decompunha: o anatomista espanhol Pedro Ara Sarría o embalsamou entre 1952 e 1953, trocando o sangue por soluções de formol, álcool e glicerina.
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Ara era professor de anatomia em Córdoba, na Argentina, e tinha fama na Europa por peças que pareciam vivas. Perón o chamou antes do fim. O trabalho começou na mesma noite de 26 de julho, ainda no quarto da residência presidencial.
A primeira etapa precisava ser rápida, porque o velório público estava marcado. Ara injetou fixadores pelas artérias e deixou o corpo apto para semanas de exposição. O tratamento definitivo veio depois, a portas fechadas.
O laboratório da CGT
Encerrado o velório, o caixão foi para a sede da CGT, onde Ara montou um laboratório. Por cerca de um ano, ele mergulhou o corpo em banhos sucessivos e cobriu a pele com camadas de cera e de plástico transparente.
O resultado conservava cílios, unhas e a cor da pele. O corpo ficou menor e mais leve que em vida, com a aparência de quem dorme, e Ara proibia que qualquer pessoa o tocasse sem a presença dele. Ara descreveu o processo em “El caso Eva Perón” (O caso Eva Perón), memórias publicadas em 1974, um ano depois da morte do autor, em Madri.
O monumento que não veio
O destino final seria o Monumento ao Descamisado, termo que designava o trabalhador pobre que apoiava Perón. Era uma torre projetada para Buenos Aires, com o caixão numa cripta na base. As obras mal tinham começado quando veio o golpe, e o terreno escavado foi abandonado pelos militares.
Evita também deixou instruções. No testamento “Mi voluntad suprema” (Minha vontade suprema), lido por Perón na Praça de Maio em 17 de outubro de 1952, ela escreveu: “Quero viver eternamente com Perón e com meu povo”.
Os golpistas leram a frase como ameaça. Um corpo intacto, exposto num prédio sindical, mantinha vivo o movimento que eles tinham acabado de derrubar. O decreto 4161, de 1956, proibiu em público até as palavras Perón e Evita.
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