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ED 032
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O dossiê que a CIA montou contra a própria CIA

Em 25 de junho de 2007, a CIA publicou as quase setecentas páginas que o próprio diretor mandara reunir em 1973.

Mesa de arquivo com pasta de documentos desclassificados aberta sob luz de abajur, carimbo desfocado e microfilme ao lado.

Langley, junho de 2007

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"Huge C.I.A. Operation Reported in U.S. Against Antiwar Forces, Other Dissidents in Nixon Years", estampou o The New York Times na primeira página de 22 de dezembro de 1974, em reportagem assinada por Seymour Hersh. O texto descrevia arquivos internos da agência sobre vigilância de cidadãos americanos dentro do próprio país, e mencionava um levantamento que a CIA teria feito de si mesma pouco antes.

O levantamento existia. Tinha sido reunido em 1973, dentro do quartel-general em Langley, por ordem do diretor de inteligência central James R. Schlesinger, e ficou conhecido internamente pelo apelido de Family Jewels, as joias de família. Não era um documento escrito por um adversário externo, nem o resultado de uma invasão de arquivo. Era a resposta que centenas de funcionários deram, por escrito, a um memorando do chefe pedindo que relatassem qualquer atividade da casa que estivesse fora do que a lei de 1947 autorizava.

O que chegou às gavetas da diretoria era um catálogo de operações domésticas: correspondência aberta e fotografada antes de seguir viagem, telefones de jornalistas grampeados para descobrir quem vazava, um cidadão estrangeiro mantido preso em instalação da agência por anos, verba e material entregues a homens que depois foram presos no complexo Watergate, e o registro de tentativas de eliminar líderes políticos no exterior.

O maço ficou trancado por três décadas e meia. Trechos vazaram na imprensa em 1974 e alimentaram as investigações do Congresso no ano seguinte, mas o conjunto só virou documento público em 25 de junho de 2007, quando a CIA publicou o arquivo na sua sala de leitura eletrônica depois de um pedido de acesso protocolado pelo National Security Archive, da Universidade George Washington, em 1992.

O que sai dessa liberação não é uma denúncia de fora para dentro. É a lista que uma agência de espionagem fez das próprias infrações, no papel timbrado dela, com nomes de programas e datas. Vale ler o que estava escrito lá.

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I  A Conspiração do Dia

O catálogo que a agência fez de si mesma

A tese diz que o documento liberado em 2007 registra, por escrito e em linguagem interna, um conjunto de operações que a CIA conduziu contra cidadãos e alvos que estavam fora da sua alçada legal, e que o inventário foi produzido pela própria casa, não por um investigador externo.

O primeiro item do catálogo é a correspondência. Entre 1952 e 1973, funcionários da agência trabalharam num setor postal do aeroporto Kennedy, em Nova York, separando cartas trocadas entre os Estados Unidos e a União Soviética. Envelopes eram abertos a vapor, o conteúdo fotografado e a carta seguia viagem. O programa aparece nas páginas sob a sigla HTLINGUAL, e a contagem interna fala em milhares de cartas por ano.

O segundo item são os repórteres. Em 1963, dois colunistas de Washington, Robert S. Allen e Paul Scott, tiveram o telefone grampeado numa operação que o dossiê chama de Project Mockingbird. Anos depois, equipes de vigilância acompanharam a rotina do colunista Jack Anderson e de repórteres do Washington Post e da revista Newsweek, com o objetivo declarado de encontrar a fonte interna que estava entregando material sigiloso.

O terceiro item é a detenção. Yuri Nosenko, oficial soviético que passou para o lado americano em 1964, foi mantido pela agência em confinamento por mais de três anos, parte do tempo numa cela sem janela, enquanto interrogadores tentavam decidir se ele era desertor verdadeiro ou plantado por Moscou. A detenção aconteceu em solo americano, sem processo judicial.

O quarto item é a farmacologia. As páginas descrevem administração de substâncias a pessoas que não sabiam o que tomavam, dentro da pesquisa sobre controle de comportamento que a agência tocou nos anos cinquenta e sessenta.

A pergunta que o documento coloca de pé: por que uma agência criada para operar fora das fronteiras montou, ela mesma, uma lista das vezes em que operou dentro delas.

O quinto item são os planos contra líderes estrangeiros. O maço traz o registro de contatos com figuras do crime organizado americano, entre elas John Rosselli e Sam Giancana, para uma tentativa contra Fidel Castro, além de menções a operações voltadas a Patrice Lumumba, no Congo, e a Rafael Trujillo, na República Dominicana.

O sexto item liga a agência ao escândalo que derrubaria o presidente. As páginas registram apoio material a Howard Hunt, ex-funcionário da casa, com disfarce, câmera e aparelho para alterar a voz, itens que reaparecem na história da invasão do edifício Watergate em 1972.

Falta entender o que levou um diretor a pedir esse inventário, e por que ele foi pedido exatamente em maio de 1973.

 
 

II  A Origem

Um memorando de maio de 1973 com Watergate na televisão

A origem tem data, autor e motivo declarado. Em 9 de maio de 1973, James R. Schlesinger, no cargo de diretor havia poucos meses, mandou um comunicado a toda a agência ordenando que qualquer funcionário relatasse atividades que estivessem, ou parecessem estar, fora do mandato legal da casa.

O primeiro fio é o cargo em brasa. Schlesinger tinha assumido em fevereiro de 1973 e passou o começo do mandato descobrindo, pela imprensa, que a agência havia fornecido equipamento a Howard Hunt. A ordem interna nasceu de um susto de gestão: o diretor queria saber o tamanho do problema antes que um promotor ou um comitê perguntasse primeiro.

O segundo fio é o calendário do escândalo. Em maio de 1973, o Senado americano abria as audiências televisionadas sobre o arrombamento da sede do Partido Democrata. O país inteiro assistia a funcionários do governo detalhando operações clandestinas em horário nobre, e a chance de a CIA aparecer no meio daquilo deixou de ser hipótese.

O terceiro fio é quem juntou o material. O inspetor-geral da agência, William Broe, recolheu as respostas. O resultado somava quase setecentas páginas, boa parte em memorando datilografado, com relatos de primeira mão e referências a operações antigas que muita gente da casa preferia esquecer.

"A agência precisava de uma cirurgia, e a operação exigia expor o paciente."

William Colby, Honorable Men: My Life in the CIA, 1978.

O quarto fio é a troca de comando. Schlesinger deixou o cargo em julho de 1973 para assumir a Defesa, e quem herdou o maço foi William Colby. Diferente do antecessor, Colby escolheu levar o assunto ao Congresso e informar comitês de supervisão, decisão que dividiu a agência e lhe rendeu, dentro de casa, a fama de ter entregado o serviço.

O quinto fio é o vazamento. Seymour Hersh apurou parte do conteúdo com fontes internas e publicou em dezembro de 1974. A reação política foi imediata: em janeiro de 1975 o presidente Gerald Ford criou uma comissão presidida pelo vice Nelson Rockefeller, e o Senado instalou o comitê presidido por Frank Church, que passaria o ano seguinte inteiro ouvindo depoimentos.

O sexto fio é a consequência normativa. Em 18 de fevereiro de 1976, Ford assinou a ordem executiva 11905, que proibiu expressamente empregados do governo americano de se envolver em conspiração para eliminar líderes políticos estrangeiros. A proibição foi renovada por presidentes seguintes e continua no texto da ordem executiva 12333, de 1981.

Falta olhar o que as páginas publicadas em 2007 realmente entregam, e o que elas seguem escondendo.

 

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III  O Combustível

O que as páginas mostram e o que continua tarjado

A tese resiste porque o registro é interno, datado e agora público. Existe o memorando de 9 de maio de 1973 assinado pelo diretor, existem as respostas dos funcionários em papel da própria agência, e existe o arquivo digitalizado disponível para qualquer pessoa baixar da sala de leitura eletrônica da CIA.

O cuidado necessário é com a leitura de que o maço seria uma confissão completa. O documento é uma coleção de relatos voluntários, filtrada por quem quis responder e por quem revisou. Ausência de um programa nas páginas não prova que ele não existiu.

O que está documentado: o anúncio da liberação foi feito pelo diretor Michael Hayden em 21 de junho de 2007, e o arquivo entrou no ar em 25 de junho de 2007, com 702 páginas. O National Security Archive publicou no mesmo mês um resumo do conteúdo, apoiado no pedido de acesso que a instituição havia protocolado em 1992.

O que o próprio arquivo limita: boa parte das páginas saiu com tarjas pretas sobre nomes de funcionários, de países e de operações em curso. Vários memorandos aparecem com parágrafos inteiros suprimidos, e a numeração indica trechos retirados antes da digitalização.

O que continua em disputa: o alcance real de cada programa. Historiadores divergem sobre quantas pessoas foram atingidas pela abertura de correspondência e sobre até onde as tentativas contra líderes estrangeiros chegaram na prática. O relatório provisório do comitê Church, publicado em novembro de 1975, tratou os planos contra Castro como reais porém malsucedidos.

As datas do caso, com a origem de cada uma:

·  Início da abertura de correspondência no programa HTLINGUAL: 1952
·  Grampo nos colunistas Allen e Scott, no Project Mockingbird: 1963
·  Confinamento do desertor soviético Yuri Nosenko pela agência: 1964
·  Memorando de James Schlesinger pedindo o inventário interno: 9 de maio de 1973
·  Reportagem de Seymour Hersh na primeira página do The New York Times: 22 de dezembro de 1974
·  Criação da comissão Rockefeller pelo presidente Gerald Ford: janeiro de 1975
·  Ordem executiva 11905, proibindo conspiração para eliminar líderes estrangeiros: 18 de fevereiro de 1976
·  Publicação integral do arquivo pela CIA na sala de leitura eletrônica: 25 de junho de 2007

A parte mais frágil do que circula por aí é a ideia de que a liberação de 2007 revelou segredos inéditos. Boa parte do conteúdo já tinha aparecido nos relatórios do comitê Church e da comissão Rockefeller entre 1975 e 1976. O que 2007 acrescentou foi a redação original, com o vocabulário interno, os nomes de programas e a assinatura de quem escreveu cada relato.

Então por que o arquivo continua valendo a leitura? Porque ele mostra o momento em que uma instituição fechada tentou medir a própria distância em relação à lei que a criou, e registrou o resultado por escrito. O documento sobreviveu justamente por ter sido produzido para uso interno, sem intenção de virar peça pública.

As joias de família são o caso mais concreto de autoinventário de infração feito por um serviço de inteligência ocidental. A lição que fica para qualquer denúncia parecida: procurar o papel que a própria instituição produziu rende mais do que discutir o que ela nega em entrevista.

"Um inventário escrito pela própria agência acusada vale como prova ou como versão dela?"

Confira sozinho, em três buscas: a data do memorando de Schlesinger que originou o dossiê, o total de páginas que a CIA publicou em 2007 e o número da ordem executiva que passou a proibir conspiração contra líderes estrangeiros.

 
 

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