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O enterro de Mandela nos anos 1980 nunca aconteceu

Em 2010, Fiona Broome deu nome a uma lembrança falsa coletiva. A psicologia explica o erro, e os seguidores culpam o acelerador do CERN.

Retrato em preto e branco de Nelson Mandela diante de microfones.

Nelson Mandela, solto em 1990

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A BBC publicou em 5 de dezembro de 2013 a manchete “Nelson Mandela dies aged 95” (Nelson Mandela morre aos 95 anos). O ex-presidente sul-africano tinha saído da prisão em 1990, governado o país entre 1994 e 1999 e passado os últimos anos em Joanesburgo, cercado da família.

Para um grupo de leitores americanos, a notícia chegou com cheiro de reprise. Eles diziam lembrar de outro enterro, décadas antes, com Mandela ainda preso pelo regime do apartheid (a segregação racial oficial da África do Sul).

A lembrança vinha com detalhes. Cenas do funeral na televisão, discursos da viúva, protestos nas ruas de Soweto, o bairro negro de Joanesburgo. Nada daquilo existiu nos anos 1980, e os jornais da década não registram enterro nenhum. Mandela passou aqueles anos na prisão de Pollsmoor, na Cidade do Cabo, ainda vivo e ainda sem direito a visita livre.

A pessoa que juntou esses relatos foi a escritora americana Fiona Broome, pesquisadora de fantasmas e casas assombradas. Ela percebeu que não estava sozinha na lembrança errada e, em 2010, abriu um site para recolher casos parecidos.

O nome do site virou o nome do fenômeno: Efeito Mandela. A expressão passou a designar qualquer lembrança falsa compartilhada por muita gente ao mesmo tempo, com os mesmos detalhes errados.

A lista cresceu rápido. Entraram nela o nome de uma família de ursos de livro infantil, uma fala famosa de Darth Vader, o monóculo do mascote do Monopoly e a ponta do rabo do Pikachu.

Broome tinha uma explicação própria, e ela não passava pela psicologia. Ela propôs que essas pessoas tinham atravessado de uma realidade para outra, quase igual, onde só alguns detalhes mudaram.

Os seguidores foram além e encontraram um culpado com endereço na Suíça. A teoria começa no túnel subterrâneo de um laboratório de física na fronteira com a França.

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I  A Conspiração do Dia

Os universos paralelos de Broome

A resposta de ontem

Quem levou ao governo a lama oleosa do Lobato?

O engenheiro agrônomo Manoel Inácio Bastos, que em 1932 viu moradores do Lobato usarem uma lama oleosa como combustível de lamparina. Com o apoio do comerciante Oscar Cordeiro, da Bolsa de Mercadorias da Bahia, ele mandou amostras ao Rio e pressionou o DNPM até a sonda chegar ao bairro.

A teoria do Efeito Mandela tem três peças. Fiona Broome forneceu a primeira: lembranças falsas iguais em pessoas que nunca se viram seriam prova de que a realidade muda. Os fóruns da internet forneceram a segunda, a lista de exemplos. A terceira é o CERN, a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear.

Para os seguidores, quem lembra errado não errou. Lembra de uma linha do tempo anterior, que existiu de fato e foi trocada por outra.

A ideia pega emprestado um termo da física. A interpretação de muitos mundos, proposta pelo físico americano Hugh Everett em 1957, diz que cada resultado possível de um evento quântico acontece num universo separado. Os seguidores usam o nome para dizer que dá para escorregar de um universo para o vizinho.

O túnel de Genebra

O CERN opera desde 2008 o Large Hadron Collider (Grande Colisor de Hádrons), um anel de 27 quilômetros enterrado sob a fronteira da Suíça com a França. A máquina acelera partículas quase à velocidade da luz e as faz bater umas nas outras.

O primeiro feixe circulou no anel em 10 de setembro de 2008. Broome lançou o site em 2010. Para os seguidores, a ordem das datas basta: primeiro a máquina ligou, depois as lembranças começaram a não bater.

Nos vídeos sobre o tema, o colisor rasga o tecido da realidade e funde linhas do tempo. As versões mais radicais dizem que o laboratório faz isso de propósito e esconde o resultado.

A estátua de Shiva

Um objeto do pátio do CERN alimenta a suspeita. Em 2004, o governo da Índia doou ao laboratório uma estátua de Shiva Nataraja, o deus hindu na pose da dança cósmica de criação e destruição.

O CERN explica a escolha num texto oficial: a dança de Shiva serve de metáfora para o movimento das partículas subatômicas, e a Índia é um dos países associados ao laboratório. Os seguidores leem a estátua como sinal de ritual.

Em 2016, um vídeo gravado de uma janela do prédio mostrou uma cerimônia falsa diante da estátua, com figuras de capa preta. O CERN informou à imprensa que o vídeo era brincadeira de funcionários e abriu investigação interna.

O desmentido do laboratório

O CERN responde que o colisor não mexe em memória nem em linha do tempo. As colisões são minúsculas, e raios cósmicos com energia muito maior atingem a atmosfera da Terra há bilhões de anos sem efeito parecido.

Em 2008, antes da primeira operação, o próprio laboratório publicou um relatório de segurança, revisado por físicos de fora da instituição. O documento descartou risco de buraco negro perigoso ou de qualquer alteração no planeta.

Nenhuma medição do colisor registrou desvio de realidade. Os seguidores respondem que a mudança apagaria a prova junto, o que torna a teoria impossível de testar.

 
 

II  A Origem

A sala verde da Dragon Con

A lembrança de Fiona Broome nasceu numa conversa de bastidores. Em 2009, ela estava na Dragon Con, convenção de ficção científica e fantasia em Atlanta, nos Estados Unidos, e comentou na sala de espera dos palestrantes que lembrava do enterro de Mandela.

Broome não foi corrigida. Outras pessoas na sala disseram lembrar do mesmo enterro, na prisão, nos anos 1980, e ela saiu da convenção convencida de que o erro era compartilhado.

No ano seguinte ela abriu o site Mandela Effect. Os primeiros relatos ali tratavam de Mandela, mas logo vieram outros casos, enviados por leitores que achavam ter memória diferente da registrada.

O preso que não era Mandela

Um sul-africano morreu de fato sob custódia do apartheid e teve enterro com cobertura internacional. Steve Biko, líder do movimento Consciência Negra, morreu em setembro de 1977, depois de espancado pela polícia de segurança.

O funeral de Biko, em King William's Town, reuniu uma multidão e saiu nos noticiários do mundo inteiro. Em 1987, o filme Cry Freedom (Grito de liberdade), de Richard Attenborough, levou a história ao cinema, com Denzel Washington no papel de Biko.

Muitos comentaristas do fenômeno apontam Biko como origem provável da confusão: um preso negro famoso, um enterro televisionado e a mesma luta contra o apartheid. Broome rejeitou essa explicação para o próprio caso.

Os ursos e o vilão

A lista ganhou fôlego com fóruns como o Reddit. O caso mais famoso é a família de ursos criada pelos americanos Stan e Jan Berenstain em 1962. Muita gente jura ter lido Berenstein, com e, na capa dos livros.

As capas guardadas em bibliotecas mostram Berenstain, com a. O sobrenome da família de autores sempre foi esse.

O segundo caso mais citado vem do cinema. Quase todo mundo lembra de Darth Vader dizendo “Luke, eu sou seu pai”. A fala original não tem o nome do herói.

“No. I am your father.” (Não. Eu sou seu pai.) Darth Vader, em O Império Contra-Ataca, de 1980.

O monóculo e o rabo

O mascote do Monopoly, o jogo americano que deu origem ao Banco Imobiliário, aparece de cartola, bigode e bengala. Nunca usou monóculo, embora muita gente o desenhe com um.

O Pikachu, da série Pokémon, tem a ponta das orelhas preta e o rabo inteiro amarelo. A memória coletiva pinta a ponta do rabo de preto.

 

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III  O Combustível

O laboratório de Elizabeth Loftus

A psicologia estuda lembrança falsa desde muito antes de Broome dar nome a ela. A pesquisadora americana Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine, passou a carreira mostrando como a memória se reescreve sem o dono perceber.

A memória não grava a cena como uma câmera. Cada vez que alguém lembra de um fato, o cérebro reconstrói a cena, e a reconstrução pode trazer peças que nunca estiveram lá.

Em 1974, Loftus e o colega John Palmer mostraram vídeos de batidas de carro a voluntários. Quem ouviu a pergunta com o verbo “espatifar” estimou velocidades maiores e, dias depois, lembrou de vidro quebrado que o vídeo não mostrava.

O shopping inventado

Em 1995, Loftus e a pesquisadora Jacqueline Pickrell foram mais longe. Contaram a adultos quatro histórias da infância deles, três reais, colhidas com parentes, e uma inventada: a vez em que se perderam num shopping.

Parte dos voluntários passou a lembrar do episódio falso, com detalhes que ninguém tinha fornecido. O experimento ficou conhecido como “perdido no shopping” e virou referência nos tribunais americanos.

O mecanismo explica o enterro de Mandela. Uma pessoa sabe que Mandela ficou preso por décadas, viu o enterro de Biko e ouviu falar de mortes na prisão. O cérebro junta as peças numa cena só.

Os ícones lembrados errado

Em 2022, as psicólogas Deepasri Prasad e Wilma Bainbridge, da Universidade de Chicago, publicaram na revista Psychological Science o primeiro estudo dedicado ao Efeito Mandela visual.

Elas mostraram a voluntários versões certas e erradas de ícones como o Pikachu, o C-3PO de Star Wars e o mascote do Monopoly. Os erros se repetiam nas mesmas imagens e na mesma direção, como a ponta preta no rabo do Pikachu.

As duas não acharam explicação única. Os voluntários erravam mesmo em ícones que tinham visto muitas vezes, e o estudo concluiu que certas imagens induzem o mesmo erro em pessoas diferentes.

A conta da coincidência

O compartilhamento completa o quadro. Quando alguém lê na internet que muita gente lembra do monóculo, a lembrança ganha reforço, e a lista vira prova de si mesma.

O Efeito Mandela nasceu de uma conversa numa convenção em 2009, ganhou nome em 2010 e acusou uma máquina ligada em 2008. Mandela saiu da prisão em 1990 e foi enterrado em Qunu, a aldeia da infância, em 15 de dezembro de 2013.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• a capa original de um livro dos ursos Berenstain, com a grafia do sobrenome;

• a cena de O Império Contra-Ataca, de 1980, com a fala de Darth Vader;

• o estudo de Prasad e Bainbridge na Psychological Science, de 2022.

 
 
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A2004
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