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A psicologia estuda lembrança falsa desde muito antes de Broome dar nome a ela. A pesquisadora americana Elizabeth Loftus, da Universidade da Califórnia em Irvine, passou a carreira mostrando como a memória se reescreve sem o dono perceber.
A memória não grava a cena como uma câmera. Cada vez que alguém lembra de um fato, o cérebro reconstrói a cena, e a reconstrução pode trazer peças que nunca estiveram lá. |
Em 1974, Loftus e o colega John Palmer mostraram vídeos de batidas de carro a voluntários. Quem ouviu a pergunta com o verbo “espatifar” estimou velocidades maiores e, dias depois, lembrou de vidro quebrado que o vídeo não mostrava.
O shopping inventado
Em 1995, Loftus e a pesquisadora Jacqueline Pickrell foram mais longe. Contaram a adultos quatro histórias da infância deles, três reais, colhidas com parentes, e uma inventada: a vez em que se perderam num shopping.
Parte dos voluntários passou a lembrar do episódio falso, com detalhes que ninguém tinha fornecido. O experimento ficou conhecido como “perdido no shopping” e virou referência nos tribunais americanos.
O mecanismo explica o enterro de Mandela. Uma pessoa sabe que Mandela ficou preso por décadas, viu o enterro de Biko e ouviu falar de mortes na prisão. O cérebro junta as peças numa cena só.
Os ícones lembrados errado
Em 2022, as psicólogas Deepasri Prasad e Wilma Bainbridge, da Universidade de Chicago, publicaram na revista Psychological Science o primeiro estudo dedicado ao Efeito Mandela visual.
Elas mostraram a voluntários versões certas e erradas de ícones como o Pikachu, o C-3PO de Star Wars e o mascote do Monopoly. Os erros se repetiam nas mesmas imagens e na mesma direção, como a ponta preta no rabo do Pikachu.
As duas não acharam explicação única. Os voluntários erravam mesmo em ícones que tinham visto muitas vezes, e o estudo concluiu que certas imagens induzem o mesmo erro em pessoas diferentes.
A conta da coincidência
O compartilhamento completa o quadro. Quando alguém lê na internet que muita gente lembra do monóculo, a lembrança ganha reforço, e a lista vira prova de si mesma.
O Efeito Mandela nasceu de uma conversa numa convenção em 2009, ganhou nome em 2010 e acusou uma máquina ligada em 2008. Mandela saiu da prisão em 1990 e foi enterrado em Qunu, a aldeia da infância, em 15 de dezembro de 2013.
Confira sozinho, em 3 buscas:
• a capa original de um livro dos ursos Berenstain, com a grafia do sobrenome;
• a cena de O Império Contra-Ataca, de 1980, com a fala de Darth Vader;
• o estudo de Prasad e Bainbridge na Psychological Science, de 2022.
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