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O general condecorado que denunciou uma marcha sobre Washington
Diante de um comitê da Câmara, em 20 de novembro de 1934, Smedley Butler descreveu quem o procurou e o que pediram que ele fizesse.
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Nova York, novembro de 1934
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"Gen. Butler Bares 'Fascist Plot' To Seize Government by Force", estampou o The New York Times na primeira página de 21 de novembro de 1934. Na véspera, em sessão fechada num prédio federal de Nova York, o major-general reformado Smedley Darlington Butler passara a tarde descrevendo, sob juramento, uma sequência de conversas que dizia ter tido ao longo de dezesseis meses.
Quem ouvia era o comitê especial da Câmara dos Representantes presidido por John McCormack, com Samuel Dickstein na vice-presidência, criado meses antes para investigar propaganda estrangeira em solo americano. O depoente não era um cidadão anônimo com uma denúncia difusa. Butler tinha trinta e três anos de serviço nos fuzileiros navais, duas Medalhas de Honra, campanhas no Caribe, na China e no México, e a reputação de falar sem filtro sobre as guerras que ele mesmo tinha lutado.
A história que ele contou começava em julho de 1933, quando dois homens o procuraram na cidade de Newtown Square, na Pensilvânia, dizendo representar veteranos que queriam disputar a direção da Legião Americana. Um deles voltou sozinho muitas vezes depois, em hotéis de Newark e da Filadélfia, e o assunto foi mudando de forma a cada visita.
No fim daquela sequência, segundo o depoimento, o que estava sobre a mesa não era mais uma eleição interna de associação de ex-combatentes. Era a proposta de reunir uma coluna de veteranos e levá-la a Washington para pressionar o presidente Franklin Roosevelt a aceitar um cargo novo ao lado dele, ocupado por alguém que tocaria o governo enquanto o presidente ficava na função de vitrine.
Butler não aceitou. Ele passou meses colhendo detalhes, encomendou uma checagem paralela a um repórter de jornal, e levou o conjunto ao Congresso. Três meses depois, o comitê publicou seu relatório final e escreveu que havia verificado as afirmações pertinentes do general. Nenhum dos homens citados foi processado.
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I A Conspiração do Dia
A oferta feita num quarto de hotel
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A tese diz que um grupo de financistas de Nova York sondou o fuzileiro mais condecorado do país em 1933 e 1934 para liderar uma coluna de veteranos até Washington, e que a peça central da proposta era instalar um cargo novo no topo do Executivo, sem eleição e sem emenda constitucional.
O primeiro elemento é o intermediário. O homem que voltou sozinho às conversas era Gerald C. MacGuire, corretor de títulos da casa Grayson M.-P. Murphy & Company, na Wall Street. Ele tinha sido comandante de um posto da Legião Americana em Connecticut, e chegava com credencial de veterano falando com outro veterano.
O segundo elemento é o dinheiro mostrado à mesa. Butler descreveu ao comitê ter visto MacGuire abrir uma carteira com maços de notas num quarto do hotel em Newark, e contou ter ouvido a oferta de bancar uma viagem sua para falar numa convenção de ex-combatentes, com despesas cobertas por terceiros. Ele disse ter recusado o pacote e ter pedido, no lugar, que os veteranos comuns pagassem a própria passagem.
O terceiro elemento é o desenho institucional. Pelo depoimento, a proposta era criar a posição de um secretário de assuntos gerais, que assumiria a administração do país enquanto Roosevelt seguiria no cargo como figura pública. Butler resumiu ao comitê que a saída sugerida para o presidente era alegar problema de saúde e delegar.
O quarto elemento é a escala prometida. Butler relatou ter ouvido a cifra de quinhentos mil homens mobilizáveis e a menção a um fundo de três milhões de dólares já disponível, com muito mais atrás. A comparação usada nas conversas, segundo ele, era com as ligas de veteranos que tinham tomado as ruas de Paris em fevereiro de 1934.
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A pergunta que ficou de pé em novembro de 1934: por que um corretor de títulos da Wall Street procuraria dezenas de vezes um general reformado, sem cargo público e sem tropa, para tratar de eleição interna de uma associação de ex-combatentes.
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O quinto elemento é a testemunha independente. Paul Comly French, repórter do Philadelphia Record e do New York Evening Post, procurou MacGuire por conta própria em setembro de 1934, a pedido de Butler, e depôs ao comitê descrevendo a mesma proposta, com as mesmas peças, ouvida direto do corretor.
Faltava saber quem estava atrás do intermediário, e por que 1934 foi o ano em que esse tipo de conversa passou a acontecer.
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II A Origem
O corretor, o herdeiro da Singer e o ano de 1934
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A origem tem nome, endereço comercial e contexto econômico. MacGuire trabalhava para uma corretora dirigida por Grayson Murphy, e Butler apontou como financiador Robert Sterling Clark, herdeiro da fortuna das máquinas de costura Singer e ex-companheiro seu na campanha da China em 1900.
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O primeiro fio é a rede de escritórios. Grayson M.-P. Murphy era corretor de Wall Street e figurava em conselhos de grandes empresas do período. Butler contou ao comitê que MacGuire se apresentava como emissário desse círculo, e que as reuniões aconteciam entre viagens do corretor pela Europa.
O segundo fio é o financiador citado. Clark tinha servido na expedição internacional à China, conhecia Butler desde então e mantinha uma fortuna herdada da Singer. Segundo o depoimento, foi ele quem apareceu na casa do general para tratar de um discurso sobre o padrão-ouro, o que dava à conversa um pé em política monetária, não em associação de veteranos.
O terceiro fio é o modelo europeu. Em 6 de fevereiro de 1934, ligas de direita francesas, entre elas a Croix de Feu de veteranos da Primeira Guerra, levaram uma multidão à Place de la Concorde e o confronto derrubou o governo de Édouard Daladier dias depois. Butler relatou que MacGuire voltou de viagem falando dessa organização como algo a copiar.
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"A guerra é uma negociata. Sempre foi. É possivelmente a mais antiga, a mais lucrativa, com certeza a mais cruel."
Smedley D. Butler, War Is a Racket, 1935.
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O quarto fio é o clima do momento. Roosevelt tirou o dólar do padrão-ouro em 1933 e o Congresso aprovou a lei de reserva de ouro em janeiro de 1934. Parte do meio financeiro tratou a medida como ruptura de contrato, e em agosto de 1934 nasceu a American Liberty League, entidade de oposição ao New Deal financiada por nomes ligados às famílias du Pont e a bancos de Nova York.
O quinto fio é a matéria-prima humana. Em julho de 1932, o governo tinha despachado o Exército contra o acampamento dos veteranos da Primeira Guerra que acampavam em Washington cobrando o pagamento antecipado do bônus prometido para 1945. Butler havia ido pessoalmente ao acampamento apoiar os homens. Existia, portanto, uma multidão de ex-combatentes furiosa e organizada, e um general que ela ouvia.
O sexto fio é a resposta pública dos citados. MacGuire negou tudo ao comitê. Murphy e Clark rejeitaram qualquer participação, e a imprensa da época tratou o caso com escárnio: a revista Time publicou em 3 de dezembro de 1934 uma nota intitulada "Plot Without Plotters", tratando o relato como fantasia de um general falastrão.
Falta entender o que o Congresso concluiu no papel e por que a conclusão não virou processo.
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