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O golpe que a CIA levou sessenta anos para admitir no papel

Em 19 de agosto de 2013, um documento interno da agência americana descreveu a queda de Mossadegh como ato da política externa dos EUA.

Rua central de Teerã em agosto de 1953 com multidão e veículos militares diante de um prédio de governo.

Teerã, agosto de 1953

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"CIA admite papel no golpe de 1953 no Irã", publicou o jornal britânico The Guardian em 19 de agosto de 2013. A manchete saiu no dia em que a queda de Mohammad Mossadegh, primeiro-ministro eleito iraniano, completava exatos sessenta anos, e vinha amparada num documento escrito pela própria agência americana para uso interno, décadas antes de qualquer leitor de fora encostar nele.

O papel era uma história interna intitulada The Battle for Iran, redigida nos anos 1970 por um funcionário da casa e liberada com cortes depois de um pedido de acesso apresentado pelo National Security Archive, centro de pesquisa sediado na Universidade George Washington. Numa das páginas aparecia a frase que a imprensa reproduziu no mundo inteiro: a operação de agosto de 1953 tinha sido conduzida sob direção da CIA como ato da política externa dos Estados Unidos, concebido e aprovado nos níveis mais altos do governo.

Sessenta anos antes daquela publicação, Teerã acordou com caminhões cheios de gente descendo pelas avenidas do centro. Grupos organizados atravessaram o bazar gritando contra o primeiro-ministro, unidades do Exército tomaram o prédio do rádio estatal, e no fim da tarde a residência oficial de Mossadegh estava cercada por tanques. O general Fazlollah Zahedi, procurado pela polícia até a véspera, apareceu no microfone da Rádio Teerã como novo chefe de governo. O xá Mohammad Reza Pahlavi, que tinha deixado o país dias antes rumo a Bagdá e depois a Roma, desembarcou de volta em 22 de agosto.

Durante seis décadas, a versão distribuída em nota diplomática e repetida em livro escolar tratou aquele dia como levante espontâneo de iranianos cansados do próprio governo. Diplomata americano em entrevista, memorialista britânico e porta-voz oficial repetiram a mesma explicação, e quem sustentasse outra leitura carregava a fama de repetir propaganda soviética.

O arquivo liberado em 2013 mudou o ônus da prova de lado. Deixou de ser tarefa do cético provar interferência estrangeira e passou a ser tarefa da defesa explicar por que a agência descreveu a si mesma como autora da operação num relatório que nunca imaginou ver publicado. E é dessa inversão que sai a tese do dia.

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I  A Conspiração do Dia

Um golpe assinado em papel timbrado

A tese diz que a queda de Mossadegh não foi revolta popular que pegou o governo americano de surpresa, e sim operação planejada, orçada e executada de fora, com multidão contratada, oficiais pagos e jornal financiado, e que a negativa oficial durou até o arquivo tornar a negativa insustentável.

O primeiro argumento é o nome próprio. A operação recebeu codinome TPAJAX do lado americano e Boot do lado britânico, teve chefe de campo designado, Kermit Roosevelt Jr., e cronograma escrito. Levante espontâneo não recebe codinome nem sala de planejamento em duas capitais.

O segundo argumento é a tentativa fracassada. Na madrugada de 16 de agosto de 1953, o comandante da guarda imperial foi ao encontro de Mossadegh para entregar um decreto de demissão assinado pelo xá e terminou preso pelas próprias tropas leais ao primeiro-ministro. A rede montada tinha ordem de sair do país, e o xá viajou para Bagdá naquela manhã. Três dias depois, o resultado se inverteu com a mesma gente na rua.

O terceiro argumento é o dinheiro rastreável. Os documentos liberados pelo National Security Archive em 2013 descrevem verba autorizada para pagamento de jornalista, clérigo, chefe de gangue de bairro e oficial de patente média, no valor de algumas centenas de milhares de dólares da época, cifra que aparece nos próprios memorandos publicados naquela leva.

Se a população derrubou o governo por vontade própria, por que a agência precisou de orçamento, codinome e um chefe de operação instalado em Teerã com nome falso?

O que a tese cobra da defesa: explicar por que a mesma agência que negou envolvimento em nota pública escreveu para si mesma, num relatório de circulação restrita, que conduziu a operação como ato de política externa aprovado nos níveis mais altos do governo.

Há a questão do calendário da confissão. O texto interno é dos anos 1970, o pedido de acesso é de décadas seguintes, e a liberação só veio em 2013, quando praticamente todos os envolvidos diretos já tinham saído de cena e nenhuma responsabilização individual era possível.

A tese depende de mostrar que a rua obedeceu ao roteiro, e não que apenas coincidiu com ele. Falta reconstruir por que dois governos estrangeiros decidiram que um primeiro-ministro eleito de um país distante precisava sair do cargo naquele ano.

 
 

II  A Origem

O petróleo nacionalizado em 1951

A origem tem data, empresa e um valor em disputa. Em maio de 1951, o parlamento iraniano nacionalizou a Anglo-Iranian Oil Company, e a resposta britânica, um bloqueio comercial, transformou uma briga de contrato em operação de derrubada de governo.

O primeiro fio é a divisão dos lucros. A concessão em vigor entregava a exploração do petróleo iraniano a uma companhia de controle britânico, com a parte iraniana da receita fixada em patamar que o parlamento em Teerã considerava desproporcional, sem direito de auditar os livros contábeis da empresa. Pedidos de revisão vinham sendo recusados desde os anos 1940.

O segundo fio é a lei de nacionalização. Aprovada por votação no Majlis, a medida transferiu as instalações de Abadan para uma empresa estatal iraniana e levou Mossadegh ao cargo de primeiro-ministro com apoio amplo, do bazar aos partidos nacionalistas. Londres recorreu à Corte Internacional de Justiça e perdeu a disputa em 1952.

O terceiro fio é o bloqueio. Sem conseguir na corte, o governo britânico organizou um cerco comercial: técnicos retirados da refinaria, navios impedidos de carregar, compradores avisados de que o petróleo iraniano seria tratado como mercadoria roubada. A exportação despencou, o caixa do Estado secou e a popularidade do primeiro-ministro passou a conviver com fila e desabastecimento.

"Não é exagero traçar uma linha que vai da Operação Ajax ao regime repressivo do xá, dele à Revolução Islâmica, e daí às bolas de fogo que engoliram o World Trade Center."

Stephen Kinzer, All the Shah's Men: An American Coup and the Roots of Middle East Terror, 2003.

O quarto fio é a troca de governo em Washington. Sob o presidente Harry Truman, o pedido britânico de ação direta foi recusado mais de uma vez. Com a posse de Dwight Eisenhower em janeiro de 1953, o argumento apresentado mudou de moldura: deixou de ser disputa de petróleo e virou risco de o Irã cair na órbita soviética, com o partido comunista local citado como ameaça iminente. A operação foi aprovada meses depois.

O quinto fio é a máquina de rua. O plano previa manifestação contra o governo feita por gente paga, panfleto atribuído a adversários, artigo plantado em jornal de Teerã e contato com oficiais dispostos a mover tropa no dia marcado. Parte do material dessa preparação aparece nos memorandos divulgados em 2013.

Mossadegh foi julgado por corte militar, condenado a três anos e mantido em prisão domiciliar na aldeia de Ahmadabad até 1967. Zahedi assinou, no ano seguinte ao golpe, um novo acordo de petróleo que entregou a um consórcio internacional a operação dos campos iranianos, com empresas americanas entrando na fatia que antes era só britânica.

Falta a parte que transformou um caso encerrado em assunto permanente, e ela cabe num pedido de acesso a documentos protocolado por um centro de pesquisa universitário.

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III  O Combustível

A confissão que chegou em 2013

A tese resiste porque o reconhecimento veio por escrito, da própria parte acusada, e não de depoimento de adversário. O documento central é a história interna The Battle for Iran, escrita nos anos 1970 dentro da agência para registro de casa, e a frase decisiva descreve a operação como ato de política externa americana concebido e aprovado nos níveis mais altos do governo.

O que exige cuidado é o salto seguinte, o de tratar cada evento iraniano das décadas posteriores como consequência direta e planejada daquele agosto. A conclusão firme cabe numa linha: a interferência estrangeira em 1953 está documentada pela própria agência que a executou.

O que está documentado: a liberação de 19 de agosto de 2013 saiu pelo National Security Archive, na Universidade George Washington, em coletânea organizada pelo pesquisador Malcolm Byrne, resultado de pedido amparado na lei americana de liberdade de informação; em 2017, o Departamento de Estado publicou um volume da série Foreign Relations of the United States dedicado ao Irã entre 1951 e 1954, com centenas de documentos sobre o planejamento da operação.

O que a defesa da tese sustenta: que a insistência de sessenta anos em chamar o episódio de levante interno não foi erro de leitura de gente mal informada, e sim linha de comunicação mantida por dois governos que conheciam o conteúdo dos próprios arquivos.

O que continua em disputa: o peso relativo de cada engrenagem, ou seja, quanto do resultado veio da máquina paga na rua e quanto veio da fragilidade real do governo de Mossadegh depois de dois anos de bloqueio comercial, discussão que separa historiadores até hoje.

As datas que circulam no assunto, com a origem de cada uma:

·  Nacionalização do petróleo aprovada no parlamento iraniano: maio de 1951
·  Decisão da Corte Internacional de Justiça favorável ao Irã: 1952
·  Primeira tentativa de derrubada, fracassada: 16 de agosto de 1953
·  Queda de Mossadegh e posse de Zahedi: 19 de agosto de 1953
·  Liberação dos documentos internos pelo National Security Archive: 19 de agosto de 2013
·  Volume oficial do Departamento de Estado sobre 1951 a 1954: 2017

A parte mais frágil da versão popular é a ideia de uma agência onipotente que aperta um botão e troca um governo. A primeira tentativa fracassou, o chefe de campo chegou a receber ordem de evacuar, e o desfecho de 19 de agosto dependeu de adesão militar que ninguém controlava do escritório.

Então por que a suspeita segue de pé mais de setenta anos depois? Porque a parte mais improvável dela virou documento oficial. Um governo estrangeiro planejou, pagou e comandou a troca do primeiro-ministro de outro país, escreveu tudo num relatório de circulação interna e negou em público por sessenta anos, e depois de uma frase dessas qualquer capítulo seguinte soa plausível por comparação.

O caso iraniano é o exemplo raro em que a confissão veio da própria mão que executou, sem tribunal, sem delação e sem pressão diplomática, apenas por vencimento de prazo de sigilo. O que ficou no imaginário foi a lição de que a versão oficial dura exatamente até o dia em que o arquivo abre.

"Quando o próprio autor confessa décadas depois, sem custo nenhum, a confissão ainda vale como reparação?"

Confira antes de aceitar qualquer versão sobre 1953: a data em que o documento interno foi escrito, quem pediu a liberação dele e sob qual lei, e o que o arquivo britânico sobre a mesma operação ainda mantém fechado.

 
 
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