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O império da Tartária saiu de um verbete de 1771

Vídeos no YouTube leem a Britannica de Edimburgo como prova de um império apagado. O próprio verbete descreve uma região de povos diferentes.

Mapa antigo da Ásia com a palavra Tartaria em letras grandes sobre a Sibéria.

Mapa de Ortelius, 1570, com a Tartária

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A Encyclopaedia Britannica imprimiu em Edimburgo, no terceiro volume de 1771, uma definição curta: “Tartary, a vast country in the northern parts of Asia” (Tartária, um vasto país nas partes setentrionais da Ásia). A obra saía em fascículos semanais desde 1768, organizada pelo tipógrafo William Smellie.

Duzentos e quarenta anos depois, a página escaneada virou peça de acusação. Circula em vídeos do YouTube, fóruns e grupos de mensagem com uma legenda fixa: o maior país do mundo sumiu dos livros escolares, e alguém apagou de propósito.

A tese ganhou rótulo próprio, o Império da Tartária. Segundo os defensores, uma civilização avançada ocupava da Sibéria às Américas, erguia catedrais, palácios e fortalezas em estrela, e foi varrida do mapa no século XIX.

Quem conta essa história mostra fotografias de prédios neoclássicos em cidades americanas, mapas antigos com a palavra Tartaria em letras enormes sobre a Ásia e trechos de enciclopédias velhas. O raciocínio liga as três peças: se o mapa mostra, a enciclopédia confirma e os prédios existem, só falta descobrir quem escondeu.

A versão em inglês pegou força a partir de 2016, com vídeos longos narrados sobre imagens de arquivo. Antes, circulava em russo, em sites e livros de autores de Moscou que liam a história europeia como uma falsificação.

O apelo é visual. Uma cúpula de 1893 sem andaime à vista, uma moeda gasta, um mapa holandês do século XVI: cada imagem chega sem contexto, e o espectador preenche o vazio com a narrativa do narrador.

A palavra Tartaria existiu de verdade, esteve em mapas por quatro séculos e saiu de uso. O caminho dela, da Idade Média até a tela do celular, responde de onde veio o império e por que ninguém o encontra nos arquivos.

A primeira parada é o que os vídeos garantem ter acontecido com os construtores.

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I  A Conspiração do Dia

Os construtores sem registro

A tese do Império da Tartária afirma que uma civilização euro-asiática, mais avançada do que qualquer reino conhecido, construiu os grandes edifícios do mundo antes de 1800. Os povos que vieram depois teriam herdado as obras e assinado como suas.

Nenhum arquivo, moeda, lei ou carta assinada por um governo tartário aparece nas provas apresentadas. A tese inteira se apoia em fotos de prédios e mapas lidos fora de contexto.

Os defensores juntam três famílias de indícios. Prédios grandes demais para a época em que foram datados, fortalezas de desenho idêntico em continentes distantes e cidades fotografadas vazias no século XIX.

As fortalezas em estrela

Fortes com pontas angulosas aparecem na Holanda, no Japão, no Caribe e no litoral brasileiro. Para os vídeos, a semelhança prova um construtor único.

O desenho tem autor conhecido. É a trace italienne (traçado italiano), criada por engenheiros da Itália no século XV para resistir à artilharia: as pontas eliminam ângulos mortos e deixam o canhão do defensor cobrir cada muro. Tratados de fortificação impressos espalharam o modelo pela Europa, e as potências coloniais o levaram aos portos que ocupavam.

A enchente de lama

Outro pilar é a mud flood (enchente de lama), um suposto cataclismo do século XIX. Janelas de porão abaixo do nível da rua seriam a prova de cidades soterradas.

As fotos mostram outra obra. Chicago ergueu as próprias ruas entre 1850 e 1860 para instalar esgoto, e Seattle aterrou o centro depois do incêndio de 1889. Os porões ficaram abaixo do novo nível por decisão de engenharia, registrada em atas municipais.

As feiras demolidas

A Exposição Mundial de Chicago, de 1893, montou uma Cidade Branca de palácios clássicos e desmontou quase tudo meses depois. Os vídeos leem a demolição como destruição de herança tartária.

Os palácios eram feitos de staff (massa de gesso com fibra de juta) sobre estrutura de madeira e ferro, material barato e provisório por projeto. Um incêndio em 1894 destruiu boa parcela do que restava. O Palácio de Belas Artes, construído com estrutura mais sólida, sobreviveu e hoje abriga o Museu de Ciência e Indústria.

Os trens de órfãos

O último indício são os trens de órfãos. Entre 1854 e 1929, a Children's Aid Society (Sociedade de Ajuda à Criança), fundada pelo pastor Charles Loring Brace, mandou crianças pobres de Nova York para fazendas do interior americano. A tese diz que a operação repovoou um continente esvaziado pela enchente.

Os registros da sociedade guardam nomes, cidades de destino e famílias adotivas. As crianças saíam de cortiços superlotados de Nova York, não de cidades soterradas.

 
 

II  A Origem

Uma palavra medieval

A Tartária começou como erro de ortografia proposital. No século XIII, cronistas europeus chamavam de tártaros os exércitos mongóis que chegaram à Polônia e à Hungria em 1241.

O povo se chamava tatar. O R a mais veio do Tartarus (o Tártaro, o abismo do inferno grego), e os cronistas fizeram o trocadilho de propósito.

O monge inglês Matthew Paris registrou o jogo de palavras na Chronica Majora (Grande Crônica). Ele atribui ao rei Luís IX, da França, uma frase dita à mãe diante da invasão.

“Ou nós os mandamos de volta às moradas tartáreas de onde saíram, ou eles nos mandam todos ao céu.” Matthew Paris, Chronica Majora, registro de 1241.

O mapa do Grande Cã

Dali em diante, Tartaria virou etiqueta para toda a Ásia que os europeus não conheciam. Não designava um Estado, e sim uma mancha no mapa.

O cartógrafo flamengo Abraham Ortelius publicou em 1570, no atlas Theatrum Orbis Terrarum (Teatro do Mundo), a folha Tartariae sive Magni Chami Regni typus (Mapa da Tartária, ou do reino do Grande Cã). As letras grandes cobrem a Sibéria, a Mongólia e o norte da China, com monstros e lendas desenhados nos espaços vazios.

Várias Tartárias

Os mapas dos séculos XVII e XVIII dividem a região em pedaços: Tartária Moscovita, sob o czar; Tartária Chinesa, sob a dinastia Qing; Tartária Independente, na Ásia Central. Cada pedaço tinha governante diferente.

O verbete da Britannica de 1771 segue a mesma lógica. Depois da frase famosa, lista os tártaros de Astracã e do Daguestão, os calmucos entre a Sibéria e o mar Cáspio, os usbeques ao norte da Pérsia e os povos do Tibete. São grupos com línguas, religiões e senhores distintos.

Os vídeos mostram só a primeira linha. O resto da página desmonta a ideia de um império único: o mesmo texto põe os calmucos sob chefes próprios, os usbeques ao lado do Império Mogol e o Tibete na órbita da China. Vasto país, no inglês do século XVIII, queria dizer território extenso, sem governo comum.

O sumiço dos mapas

A palavra saiu dos mapas no século XIX pelo motivo mais banal: os europeus passaram a conhecer a região. Expedições russas mediram a Sibéria, a Grã-Bretanha mapeou a Ásia Central e os nomes locais ocuparam o lugar da etiqueta genérica.

Tartaria não sumiu por apagamento. Foi trocada por Sibéria, Turquestão, Mongólia e Manchúria, nomes mais precisos para lugares que os cartógrafos finalmente tinham visitado.

 

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III  O Combustível

De Moscou ao YouTube

A versão moderna nasceu na Rússia pós-soviética. O matemático Anatoly Fomenko, professor da Universidade Estatal de Moscou, publicou a partir dos anos 1990 a série Nova Cronologia, que reescreve a história do mundo.

Fomenko sustenta que a Idade Média foi inventada e que a Rússia e a Horda Dourada formavam um único império, chamado por ele de Grande Tartária, apagado pelos historiadores ocidentais.

Historiadores, arqueólogos e astrônomos russos rejeitaram a tese. Fomenko segue como matemático respeitado na própria área, a geometria, enquanto a Nova Cronologia vende em livrarias como best-seller.

A rebelião reescrita

Seguidores de Fomenko leem a revolta de Yemelyan Pugachev, de 1773 a 1775, como a última guerra entre Moscou e a Tartária. Pugachev era um cossaco que se apresentou como o czar Pedro III, marido de Catarina, a Grande.

Os autos do processo, as cartas de Catarina e os relatórios dos generais descrevem uma rebelião camponesa e cossaca no Volga e nos Urais. Pugachev acabou executado em Moscou em 1775, e nenhum documento do julgamento menciona um império tartário.

O salto para o inglês

Nos anos 2000, o escritor russo Nikolai Levashov misturou a Grande Tartária com mitologia eslava e uma civilização ancestral dos russos brancos. Seus livros e vídeos circularam em fóruns de língua russa.

A partir de 2016, canais em inglês traduziram a ideia e cortaram a parte nacionalista. Sobrou o mistério arquitetônico: prédios bonitos, construtores esquecidos, um culpado oculto. O formato serve ao algoritmo do YouTube, que recomenda vídeos longos com imagens antigas a quem já assistiu um.

Por que a tese segue viva

A Tartária oferece ao espectador a sensação de descobrir algo sozinho. Os documentos que derrubam a tese, como atas de obra, plantas e registros de órfãos, ficam em arquivos municipais, longe da tela; o print do verbete de 1771 cabe numa mensagem. Desmentir pede leitura de arquivo, e repassar pede um toque.

O império nunca teve capital, moeda, idioma, rei ou fronteira registrada por vizinho algum. A palavra existiu, os mapas existiram, e o verbete da Britannica descreve uma região de povos diferentes, não um Estado.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o verbete Tartary no terceiro volume da Encyclopaedia Britannica de 1771, digitalizado pela Biblioteca Nacional da Escócia;

• o mapa Tartariae sive Magni Chami Regni typus, de Abraham Ortelius, no Theatrum Orbis Terrarum de 1570;

• as fotos da elevação das ruas de Chicago na década de 1850, guardadas pelo Chicago History Museum.

 
 
Quiz da edição

Em que ano a Encyclopaedia Britannica imprimiu em Edimburgo a definição curta de Tartária, hoje usada como prova do império apagado?

A1768
B1893
C1771
D1570

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