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O jardim do Velho da Montanha

Marco Polo descreveu um chefe persa que fazia rapazes dormirem e acordarem num jardim de vinho e mel, para depois obedecerem a qualquer ordem.

Ruínas de um castelo no alto de um rochedo, entre montanhas áridas da Pérsia

Um castelo no alto das montanhas da Pérsia

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A tradução inglesa de Marco Polo assinada pelo coronel escocês Henry Yule, na edição que a editora John Murray imprimiu em Londres em 1903, afirma numa nota de rodapé que o orientalista francês Silvestre de Sacy “seems to have proved” (parece ter provado) a origem do apelido dos seguidores do Velho da Montanha: o haxixe.

Yule tinha servido como engenheiro do exército britânico em Bengala e dedicou anos a comparar os manuscritos do livro. A edição dele, carregada de notas, virou a referência de Marco Polo em língua inglesa, e a nota sobre o haxixe seguiu com ela para salas de aula e enciclopédias.

A frase amarrava três pontas numa explicação só. A primeira era a droga. A segunda era a palavra assassino, que o português recebeu do italiano e que remonta ao árabe hashishi (usuário de haxixe). A terceira era um grupo real: os nizaritas, um ramo xiita que governou castelos no norte da Pérsia de 1090 a 1256 e manteve outros na Síria.

A etimologia resiste à checagem: o apelido existiu e deu origem à palavra. O resto da explicação depende de um livro ditado em 1298, numa prisão de Gênova, por um mercador veneziano que não viu o castelo. Polo contou as viagens ao escritor Rustichello de Pisa, companheiro de cela, e o texto correu a Europa em cópias feitas à mão, em francês, italiano e latim. A droga, o jardim e a obediência comprada com um sonho moram nesse livro.

A cena atravessou sete séculos quase intacta e aparece em livros escolares, documentários e jogos, quase sempre com o haxixe no centro.

Séculos depois, um historiador foi procurar a cena nos textos do próprio grupo e nos papéis de quem o odiava, para saber de onde ela tinha saído. Antes do resultado da busca, vale ouvir a lenda como o veneziano a ditou, com o vale fechado, a bebida do sono e a ordem dada ao rapaz que acordava.

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I  A Conspiração do Dia

O vale fechado entre duas montanhas

No livro de Marco Polo, o chefe se chamava Aloadin e governava uma terra chamada Mulehet, palavra que o próprio texto explica como morada dos hereges, do árabe mulhid (herege). Polo avisa que não viu nada: ouviu a história de vários moradores da região.

Aloadin, o Velho da Montanha, mandou fechar um vale entre duas montanhas e fez ali o maior e mais bonito jardim já visto, com todas as frutas, pavilhões e palácios cobertos de ouro e pinturas. Por canais corriam vinho, leite, mel e água.

Moravam no jardim mulheres que tocavam instrumentos, cantavam e dançavam. O desenho seguia a descrição do paraíso que o profeta Maomé fez aos fiéis, e a intenção, segundo Polo, era fazer o povo crer que aquele lugar era o Paraíso.

A bebida antes do sono

Uma fortaleza guardava a única entrada do vale. Só passava por ela quem o Velho escolhia para a sua tropa de Ashishin, a grafia de Polo para o apelido árabe hashishiyya (gente do haxixe).

Na corte, o chefe mantinha rapazes da região de 12 a 20 anos, com gosto pelas armas, e contava a eles histórias do paraíso. Depois os fazia beber uma poção que dava sono profundo e os mandava carregar para dentro do jardim, em grupos de quatro, seis ou dez.

Ao acordar, os rapazes se viam entre os canais de vinho e as mulheres, e acreditavam estar no Paraíso. Por vontade própria, diz o livro, nunca sairiam de lá.

A ordem de voltar ao Paraíso

Quando o Velho precisava de um deles, repetia a poção e mandava levar o rapaz adormecido ao palácio. Ele acordava no castelo, contrariado, e se curvava diante do chefe como diante de um profeta. Perguntado de onde vinha, respondia: do Paraíso. Quem ouvia e nunca tinha entrado ganhava vontade de ir.

“Vai e mata fulano. Quando voltares, meus anjos te levarão ao Paraíso”, dizia o Velho ao escolhido, na tradução de Yule. Se o rapaz caísse na missão, os anjos viriam buscá-lo do mesmo jeito.

No livro de Marco Polo, a obediência dos rapazes vem de uma lembrança fabricada: o jardim onde acordaram depois de beber.

O medo, segundo Polo, fazia os príncipes vizinhos pagarem tributo ao Velho para viver em paz.

O livro também conta o desfecho. Em 1252, Alau, a grafia de Polo para o mongol Hulagu, mandou um exército contra o castelo. O cerco durou três anos e terminou pela fome; o Velho e seus homens foram mortos, e o castelo, com o jardim, foi posto abaixo.

As datas de Polo não batem com os registros, e o capítulo não usa a palavra haxixe: a bebida dele é só uma poção.

 
 

II  A Origem

Os cronistas que montaram o Velho

Hasan-i Sabbah, missionário xiita nascido em Qom, no Irã, tomou o castelo de Alamut em 1090 sem batalha. Entrou disfarçado de professor, ganhou a confiança da guarnição e tirou o antigo dono. Alamut, ninho de águia na tradução local, ficava num rochedo das montanhas Alborz, ao norte de Qazvin.

Quatro anos depois, a morte do califa al-Mustansir, no Cairo, dividiu os ismaelitas (o ramo xiita que reconhecia os califas do Egito). Hasan tomou o partido de Nizar, o filho preterido na sucessão, e o grupo dele herdou a referência: nizaritas.

Sem exército para enfrentar os sultões seljúcidas (a dinastia turca que dominava a Pérsia), os nizaritas apostaram em castelos nas montanhas e nos fidais (do árabe fida'i, o que se oferece em sacrifício), devotos que eliminavam um alvo escolhido em público. A vítima mais famosa foi Nizam al-Mulk, vizir (primeiro-ministro) dos seljúcidas, esfaqueado em 1092 por um fidai disfarçado de sufi (místico muçulmano).

O Velho nasce na Síria

Os cruzados conheceram o ramo sírio, comandado de 1162 a 1193 por Rashid al-Din Sinan a partir do castelo de Masyaf. Os árabes o chamavam de shaykh al-jabal (o chefe da montanha); como shaykh também quer dizer velho, os cronistas latinos traduziram o título por Velho da Montanha.

Guilherme de Tiro, arcebispo e cronista do reino cruzado de Jerusalém, escreveu na década de 1180 que cristãos e sarracenos (muçulmanos) chamavam o grupo de Assissini, e admitiu não saber de onde vinha a palavra.

Burchard de Estrasburgo, enviado do imperador Frederico Barba-Ruiva à Síria em 1175, descreveu rapazes criados desde pequenos nos palácios do chefe, ensinados em várias línguas e treinados a obedecer até a morte em troca do paraíso.

Arnold de Lübeck, abade alemão, copiou esse relato numa crônica escrita em torno de 1210 e acrescentou uma bebida que levava os rapazes ao êxtase e a sonhos de delícias preparados pelo chefe.

Cada cronista europeu herdou o relato do anterior e somou uma peça: primeiro a obediência treinada, depois a bebida, por último o jardim de Marco Polo.

O que os mongóis acharam

Na Pérsia, a história real acabou antes de Polo passar. Ala al-Din Muhammad, o imã (líder religioso) que Polo chama de Aloadin, foi morto em 1255 por gente da própria corte, sem cerco nenhum. O filho dele, Rukn al-Din Khurshah, se rendeu ao mongol Hulagu em novembro de 1256, e Alamut abriu os portões semanas depois.

Ata-Malik Juvaini, historiador persa a serviço de Hulagu e inimigo declarado dos nizaritas, entrou no castelo, separou alguns livros e instrumentos de astronomia e mandou queimar o resto da biblioteca. Boa parte do que os nizaritas escreveram sobre si mesmos desapareceu nesse fogo.

Marco Polo cruzou a Pérsia em torno de 1272, 16 anos depois da queda. O Velho que ele descreve já não existia, e o castelo estava nas mãos dos mongóis.

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III  O Combustível

O haxixe chegou em 1809

Farhad Daftary, historiador nascido em Bruxelas e pesquisador do Institute of Ismaili Studies (Instituto de Estudos Ismaelitas), em Londres, publicou em 1994 The Assassin Legends (As lendas dos Assassinos), pela editora I.B. Tauris, e rastreou a origem de cada peça da lenda.

A cena do jardim não aparece em nenhuma fonte ismaelita: os tratados e as crônicas dos nizaritas que sobreviveram não falam de droga nem de paraíso falso. Para Daftary, as peças vieram de fora, de boatos hostis de vizinhos muçulmanos e de relatos de cruzados, e Polo as reuniu.

O apelido tem dono e data. Em 1122, o califa al-Amir, do Cairo, chamou os nizaritas da Síria de hashishiyya numa carta de polêmica. No uso da época, a palavra servia de insulto, algo como ralé, gente sem moral, e a carta não acusa ninguém de consumir haxixe.

O arqueólogo inglês Peter Willey apontou outro silêncio no livro Eagle's Nest (Ninho de águia), de 2005: Juvaini descreveu com detalhe os depósitos e a biblioteca de Alamut e não citou jardim nenhum. Para Willey, um inimigo com a chave do castelo teria registrado o paraíso, se ele existisse.

A droga entra pela França

Em 1809, o orientalista Antoine-Isaac Silvestre de Sacy apresentou em Paris a Mémoire sur la dynastie des Assassins (Memória sobre a dinastia dos Assassinos). Ele mostrou que assassino vinha de hashishi e propôs que o haxixe explicava as visões do paraíso.

No apêndice, Daftary publicou a primeira tradução inglesa da memória de Sacy.

O haxixe entrou na explicação em 1809, numa memória apresentada em Paris, e não em algum texto escrito pelos nizaritas.

Em 1818, o austríaco Joseph von Hammer-Purgstall publicou Die Geschichte der Assassinen (A história dos Assassinos), com o jardim de Polo e o haxixe de Sacy, e o livro dele serviu de relato padrão na Europa até os anos 1930.

Do canto de Dante ao videogame

A palavra já andava sozinha muito antes de Sacy. Dante, no canto 19 do Inferno, concluído até 1320, fala do “perfido assessin” (pérfido assassino), e o comentador Francesco da Buti explicou aos leitores do século 14: “Assassino è colui che uccide altrui per danari” (assassino é quem mata outros por dinheiro).

Em 1938, o esloveno Vladimir Bartol pôs o jardim no romance Alamut, com a máxima “Nič ni resnično, vse je dovoljeno” (nada é real, tudo é permitido) atribuída a Hasan. Em 2007, o videogame Assassin's Creed (O credo do assassino), da francesa Ubisoft, tomou de Bartol o castelo e a máxima.

O que movia os fidais segue sem documento: as fontes que restaram não explicam a lealdade deles, e os textos que poderiam explicar arderam em Alamut em 1256. Do jardim, todos os registros vêm de fora do grupo.

Confira sozinho antes de repetir a lenda:

• no capítulo de Marco Polo sobre o Velho da Montanha, a bebida dos rapazes: o texto diz poção e não nomeia o haxixe;

• a data da carta do califa al-Amir com o apelido hashishiyya: 1122;

• o ano da memória de Silvestre de Sacy que ligou o apelido à droga: 1809.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o texto, quantos anos depois da queda do castelo de Alamut Marco Polo passou pela região?

A24 anos
B3 anos
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