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Farhad Daftary, historiador nascido em Bruxelas e pesquisador do Institute of Ismaili Studies (Instituto de Estudos Ismaelitas), em Londres, publicou em 1994 The Assassin Legends (As lendas dos Assassinos), pela editora I.B. Tauris, e rastreou a origem de cada peça da lenda.
A cena do jardim não aparece em nenhuma fonte ismaelita: os tratados e as crônicas dos nizaritas que sobreviveram não falam de droga nem de paraíso falso. Para Daftary, as peças vieram de fora, de boatos hostis de vizinhos muçulmanos e de relatos de cruzados, e Polo as reuniu.
O apelido tem dono e data. Em 1122, o califa al-Amir, do Cairo, chamou os nizaritas da Síria de hashishiyya numa carta de polêmica. No uso da época, a palavra servia de insulto, algo como ralé, gente sem moral, e a carta não acusa ninguém de consumir haxixe.
O arqueólogo inglês Peter Willey apontou outro silêncio no livro Eagle's Nest (Ninho de águia), de 2005: Juvaini descreveu com detalhe os depósitos e a biblioteca de Alamut e não citou jardim nenhum. Para Willey, um inimigo com a chave do castelo teria registrado o paraíso, se ele existisse.
A droga entra pela França
Em 1809, o orientalista Antoine-Isaac Silvestre de Sacy apresentou em Paris a Mémoire sur la dynastie des Assassins (Memória sobre a dinastia dos Assassinos). Ele mostrou que assassino vinha de hashishi e propôs que o haxixe explicava as visões do paraíso.
No apêndice, Daftary publicou a primeira tradução inglesa da memória de Sacy.
O haxixe entrou na explicação em 1809, numa memória apresentada em Paris, e não em algum texto escrito pelos nizaritas. |
Em 1818, o austríaco Joseph von Hammer-Purgstall publicou Die Geschichte der Assassinen (A história dos Assassinos), com o jardim de Polo e o haxixe de Sacy, e o livro dele serviu de relato padrão na Europa até os anos 1930.
Do canto de Dante ao videogame
A palavra já andava sozinha muito antes de Sacy. Dante, no canto 19 do Inferno, concluído até 1320, fala do “perfido assessin” (pérfido assassino), e o comentador Francesco da Buti explicou aos leitores do século 14: “Assassino è colui che uccide altrui per danari” (assassino é quem mata outros por dinheiro).
Em 1938, o esloveno Vladimir Bartol pôs o jardim no romance Alamut, com a máxima “Nič ni resnično, vse je dovoljeno” (nada é real, tudo é permitido) atribuída a Hasan. Em 2007, o videogame Assassin's Creed (O credo do assassino), da francesa Ubisoft, tomou de Bartol o castelo e a máxima.
O que movia os fidais segue sem documento: as fontes que restaram não explicam a lealdade deles, e os textos que poderiam explicar arderam em Alamut em 1256. Do jardim, todos os registros vêm de fora do grupo.
Confira sozinho antes de repetir a lenda:
• no capítulo de Marco Polo sobre o Velho da Montanha, a bebida dos rapazes: o texto diz poção e não nomeia o haxixe;
• a data da carta do califa al-Amir com o apelido hashishiyya: 1122;
• o ano da memória de Silvestre de Sacy que ligou o apelido à droga: 1809.
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