| |
|
A manchete de primeira página do jornal The New York Times em 8 de maio de 1915, no dia seguinte ao ataque diante da costa sul da Irlanda, dizia Lusitania Sunk by a Submarine, Probably 1,260 Dead: Lusitania afundado por um submarino, provavelmente 1.260 mortos.
O RMS Lusitania era o transatlântico mais rápido da companhia britânica Cunard e havia deixado o Pier 54, em Nova York, na tarde de 1º de maio de 1915, com 1.959 pessoas a bordo entre passageiros e tripulação. Às 14h10 de 7 de maio, a cerca de dezenove quilômetros do promontório de Old Head of Kinsale, um torpedo disparado pelo submarino alemão U-20 atingiu o costado de estibordo. O navio adernou e desapareceu em dezoito minutos. Morreram 1.198 pessoas, entre elas 128 cidadãos americanos.
Quatro dias depois da partida, a Cunard entregou ao serviço de alfândega do porto de Nova York um manifesto de carga suplementar, com vinte e quatro páginas, que o manifesto resumido de uma página apresentado antes de zarpar não trazia. Nele estavam declaradas 4.200 caixas de cartuchos de fuzil calibre .303 fabricados pela Remington, 1.250 caixas de estojos vazios de granada de estilhaço e 18 caixas de espoletas de percussão.
O documento existiu, foi protocolado por funcionário público e ficou vinte e cinco anos longe do debate. Quando apareceu, encontrou uma pergunta já formada: por que um navio de passageiros carregando material de guerra atravessou uma zona de submarinos declarada por Berlim sem escolta, sem instrução de manobra e sem receber a posição do inimigo que o Almirantado britânico acompanhava em Londres.
A acusação que sobreviveu a um século não fala do torpedo nem do capitão do submarino alemão. Ela fala de quem estava sentado em Londres, com um mapa na parede, decidindo o que o comandante do Lusitania podia e não podia saber antes de entrar na zona de guerra.
Continue lendo ↓
|
|
|
|
I A Conspiração do Dia
O cruzador que não foi ao encontro
|
|
A acusação é que o Almirantado britânico, sob a chefia política de Winston Churchill, acompanhava a posição do U-20 pelo rádio alemão decifrado, recolheu ao porto o único navio de guerra da área e deixou o Lusitania seguir desprotegido, para que um ataque com americanos a bordo empurrasse Washington à guerra.
Winston Churchill ocupava desde 1911 o cargo de Primeiro Lorde do Almirantado, a chefia civil da Marinha britânica, e cumpria em maio de 1915 a última semana no posto: a crise dos Dardanelos o derrubaria dias depois do naufrágio.
A Marinha britânica mantinha em Londres uma seção de criptoanálise batizada pelo número da sala que ocupava no Almirantado, a Sala 40. Desde o fim de 1914 ela lia o tráfego de rádio alemão, acompanhava a saída de cada submarino e marcava a posição estimada num mapa de parede.
O U-20, comandado pelo capitão-tenente Walther Schwieger, saiu em patrulha em 30 de abril de 1915 e foi rastreado contornando a Escócia rumo ao sul da Irlanda. Em 5 e 6 de maio esse submarino afundou três mercantes na rota que o Lusitania cumpriria: Earl of Lathom, Candidate e Centurion.
O cruzador HMS Juno patrulhava a aproximação de Queenstown, o porto irlandês mais próximo. Em 5 de maio o Almirantado o mandou voltar à base, por julgá-lo lento demais para operar onde havia submarino, e nenhum outro navio de guerra assumiu a escolta.
O comandante William Thomas Turner recebeu por rádio avisos genéricos sobre submarinos ao largo da Irlanda, sem a posição dos três naufrágios nem a rota estimada do U-20. Reduziu a velocidade para dezoito nós na neblina, aproximou-se da costa para tomar uma marcação e cruzou a área em linha reta.
|
"It is most important to attract neutral shipping to our shores, in the hope especially of embroiling the United States with Germany."
É da maior importância atrair navegação neutra para as nossas costas, na esperança sobretudo de envolver os Estados Unidos numa disputa com a Alemanha. Winston Churchill, carta a Walter Runciman, presidente do Board of Trade, 12 de fevereiro de 1915, reproduzida por Patrick Beesly em "Room 40: British Naval Intelligence 1914-1918", Londres, 1982.
|
A defesa do Almirantado tem sustentação técnica. Escolta de mercante rápido não era prática corrente em 1915, e a velocidade do Lusitania passava por proteção suficiente. Repassar a posição do U-20 exigiria revelar que a Sala 40 lia o código alemão, segredo protegido até o fim da guerra. E Turner descumpriu instruções que já tinha: navegar em ziguezague e manter distância da costa.
O que a acusação nunca mostrou é uma ordem. O que existe é um papel de outra natureza, guardado do outro lado do Atlântico.
|
|
|
|
|
II A Origem
O papel entregue depois da partida
|
|
A origem documental da suspeita está no manifesto suplementar de carga do Lusitania, protocolado na alfândega de Nova York quatro dias depois da partida e mantido fora da discussão pública até 1940.
|
O manifesto entregue antes da partida ao coletor da alfândega de Nova York, Dudley Field Malone, cabia numa página e listava carga comum: manteiga, banha, queijo, peles, material de escritório.
A lista completa chegou depois, com vinte e quatro páginas e as caixas de munição declaradas linha por linha. Os 4.200 volumes de cartuchos calibre .303 da Remington somavam perto de quatro milhões de projéteis de fuzil, destinados às forças britânicas. Os estojos de granada saíram da Bethlehem Steel, sem carga explosiva dentro.
Pela legislação americana da época, munição de arma portátil podia viajar em navio de passageiros; granada carregada e pólvora de alta potência, não. A carga cabia na lei, e foi por caber na lei que ela foi declarada.
A embaixada alemã em Washington publicou em jornais americanos, a partir de 22 de abril de 1915, um anúncio avisando que navio de bandeira britânica na zona de guerra ao redor das ilhas britânicas estava sujeito a ataque e que o passageiro assumia o risco. Em 1º de maio o aviso saiu ao lado do anúncio comercial da travessia.
O inquérito oficial britânico correu em junho e julho de 1915 sob a presidência do juiz John Charles Bigham, o lorde Mersey, que havia conduzido a investigação do Titanic. A conclusão responsabilizou o comandante do submarino e inocentou Turner. A carga de munição e o material da Sala 40 ficaram fora dos autos, e o governo instruiu o tribunal a poupar Turner de culpa formal. Encerrado o caso, Mersey renunciou aos honorários e registrou em nota privada que o episódio fora um caso sujo.
O manifesto suplementar veio a público em 1940, por decisão do presidente americano Franklin Delano Roosevelt, que guardava cópia desde a passagem pelo Departamento da Marinha.
Sobrevivente após sobrevivente descreveu duas explosões: a do torpedo e outra, mais abafada, segundos depois. Schwieger anotou no diário de bordo do U-20 um único disparo. A segunda detonação alimentou a hipótese de munição no porão, disputada por duas explicações rivais: ruptura de tubulação de vapor e ignição de poeira de carvão.
Em 2008, o empresário americano Gregg Bemis, dono dos direitos sobre os destroços, patrocinou mergulhos a noventa e três metros e registrou caixas de cartuchos calibre .303 no porão dianteiro. A descoberta confirmou o manifesto, e não a conspiração: a munição declarada estava mesmo a bordo.
|
| |