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O manual secreto dos jesuítas de 1614

Um livrinho impresso em Cracóvia prometia as ordens privadas da Companhia de Jesus para conquistar príncipes e viúvas ricas.

Livro antigo em latim aberto sobre a mesa, sob a luz de um abajur

Um manual de 1614 sob a luz do abajur

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A Encyclopaedia Britannica imprimiu em 1881, no verbete sobre a Companhia de Jesus, que a Monita Secreta (Advertências secretas), o livro de instruções atribuído aos jesuítas, era “both caricature and libel” (ao mesmo tempo caricatura e calúnia). Quem assinava o texto era Richard Frederick Littledale, clérigo anglicano e adversário declarado da Igreja de Roma.

A nona edição da enciclopédia saía em Edimburgo, volume a volume, entre 1875 e 1889, e ocupava a estante de referência das bibliotecas do mundo de língua inglesa. O que ela afirmava chegava às escolas e aos púlpitos como informação conferida.

No mesmo verbete, Littledale admitia a calúnia e, ainda assim, defendia o retrato: para ele, o livro acertava no essencial sobre a conduta da ordem, mesmo com a assinatura falsa.

A Monita se apresentava como o conjunto de ordens privadas do padre Claudio Acquaviva, superior-geral dos jesuítas entre 1581 e 1615, aos chefes das casas da ordem espalhadas pela Europa. Prometia mostrar, sem disfarce, como a Companhia ganhava poder, dinheiro e acesso aos reis. Para o leitor protestante, o livro confirmava a suspeita contra uma ordem com voto especial de obediência ao papa, dona de colégios onde estudavam os filhos da nobreza e presente no confessionário de reis católicos.

Em 1881, o texto já tinha 267 anos de estrada. Saíra de uma gráfica de Cracóvia, na Polônia, em 1614, e atravessara fronteiras, línguas e guerras de religião, sempre vendido como documento roubado dos arquivos da ordem.

Desde o século 17, estudiosos católicos e protestantes rejeitavam a autoria jesuíta. Mesmo assim, homens cultos como Littledale continuavam a citar o livro, e editores continuavam a reimprimi-lo.

A resistência do livro a qualquer desmentido tem explicação, e ela está escrita no próprio texto, à vista de qualquer leitor desde 1614. Antes dos capítulos sobre príncipes, confessores e viúvas ricas, o manual de Cracóvia traz um prefácio curto, com uma instrução para o dia em que alguém de fora o lesse.

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I  A Conspiração do Dia

Um prefácio para negar tudo

A primeira página do livro trazia o título Monita privata Societatis Jesu (Advertências particulares da Companhia de Jesus), sem nome de autor, e um endereço de gráfica impossível: Notobrigae, 1612. Notobriga não aparece em mapa nenhum. O livro saiu de uma gráfica de Cracóvia em 1614.

O texto se dizia tradução do espanhol e reunia, em 16 capítulos, as regras internas que os superiores teriam recebido de Roma. Edições posteriores ganharam um capítulo a mais e o nome Monita Secreta.

O prefácio vem antes de tudo e cuida do segredo. Os superiores deviam guardar as instruções entre si e passá-las a poucos professos, os jesuítas que já tinham feito os votos finais, e mesmo assim “sob o selo do segredo”, como fruto da experiência pessoal, nunca como ordem recebida.

Quem conhecia o conteúdo não podia trocar a Companhia por outra ordem religiosa. A única exceção eram os cartuxos, monges de clausura que vivem quase sem falar, por causa da “solidão perpétua” e do silêncio obrigatório.

Se cair em mãos de fora

O parágrafo seguinte prevê o vazamento. Se as instruções chegassem a estranhos, a ordem era negar que fossem princípios da Companhia e mandar confirmar a negativa por jesuítas que, com certeza, nunca as tinham lido. As regras públicas da ordem seriam postas contra o texto como prova.

“Convença-o de que confia nele, mas descarte-o”, recomenda a última linha do prefácio sobre o jesuíta sem confiança para guardar os segredos, na tradução inglesa publicada pelo pastor Robert J. Breckinridge em Baltimore, em 1835.

O prefácio manda negar o livro e escolhe, para a negativa, justamente os jesuítas que nunca o leram.

Com a cláusula, cada desmentido trabalha a favor do livro. O jesuíta que jura nunca ter visto aquelas regras cumpre o papel que o prefácio reservou para ele.

Príncipes, viúvas e herdeiros

Os capítulos seguintes descem ao varejo. Um ensina a ganhar a amizade de príncipes e nobres, outro diz o que pregadores e confessores devem recomendar aos poderosos, outro trata das ordens religiosas rivais, que faziam o mesmo trabalho na Igreja.

Dois capítulos cuidam das viúvas ricas. “Para esta obra, escolham-se padres de idade avançada, de compleição viva e conversa agradável”, abre o sexto. O confessor devia vê-las toda semana, elogiar as vantagens da viuvez e mantê-las ocupadas em enfeitar uma capela particular, longe das visitas de pretendentes.

O sétimo capítulo explica como reter as viúvas e dispor dos bens que deixassem. O oitavo trata de levar os filhos e as filhas delas à vida religiosa, e o nono, de aumentar as rendas dos colégios. Juntos, os três desenham o caminho de uma herança até o caixa da ordem.

Outra instrução chama atenção pelo alvo: ninguém deve recomendar nem promover quem tenha sido expulso da Companhia, por qualquer motivo. O autor do livro conhecia esse lado da ordem por dentro.

 
 

II  A Origem

O professor expulso de Sandomierz

Hieronim Zahorowski (Jerônimo, em português) nasceu em torno de 1582 na Volínia, região que hoje fica quase toda na Ucrânia, numa família nobre e rica de fé ortodoxa. Estudou no colégio jesuíta de Lublin, onde, ao que tudo indica, virou católico, e entrou na Companhia em 1599.

Fez o noviciado (os primeiros anos de formação de um jesuíta) em Cracóvia, estudou em Jarosław, Lublin e Poznań, deu aulas em Lwów e foi ordenado padre durante os estudos de teologia.

Em Poznań, entre 1609 e 1612, foi reprovado no exame que o tornaria membro pleno da ordem, um professo de votos finais. É a categoria a quem o prefácio da Monita reserva os segredos.

Em 1613, já professor no colégio de Sandomierz, mandou cartas e escritos contra a ordem. Foi afastado em dezembro daquele ano, recorreu e teve o recurso negado.

O diário da casa de Cracóvia

O livro apareceu em Cracóvia meses depois, sem assinatura. Em agosto de 1614, o diário da casa jesuíta da cidade já apontava Zahorowski como autor.

Em 1615, o bispo de Cracóvia mandou investigar, e a apuração chegou ao mesmo nome. No ano seguinte, um edito (decreto) do bispo condenou o livro e o autor.

Em 10 de maio de 1616, Roma pôs a Monita no Index, a lista de livros proibidos da Igreja, e tornou a proibição pública em 28 de dezembro.

Os jesuítas responderam por escrito. O polonês Mateusz Bembus publicou uma refutação em 1615, o italiano Giovanni Argenti em 1616 e o alemão Jacob Gretser em 1618.

Zahorowski seguiu padre, fora da ordem. Em 1616, processou a Companhia para reaver os bens que tinha levado ao entrar, e ganhou. Virou pároco em Gwoździec, perto de Zakliczyn, e em 1626 em Kamionka.

Antes de 1632, fez as pazes com os jesuítas. Naquele ano, o provincial (o chefe regional da ordem) autorizou o enterro dele na igreja jesuíta de Lublin. Zahorowski viveu até 1634 e está sepultado lá, numa igreja da Companhia que o expulsou.

A pista de Veneza

A autoria voltou a ser discutida em 2025. A editora holandesa Brill publicou a edição crítica (a que compara as versões do texto) em latim e em polonês, organizada por Robert Aleksander Maryks, Bartosz Awianowicz e Radosław Grześkowiak, que contesta a atribuição a Zahorowski e sugere “uma campanha antijesuíta mais ampla” nascida em círculos de Veneza.

Veneza tinha motivo. Em 1606, o papa Paulo V lançou um interdito sobre a república, a suspensão de missas e sacramentos em todo o território, e os jesuítas, por obedecerem ao papa, foram expulsos da cidade. Só voltaram em 1657.

Os papéis não resolvem a questão. Nenhum documento mostra Zahorowski admitindo a autoria, e a retratação que o heraldista Kasper Niesiecki (estudioso de brasões de família) atribuiu a ele, num livro do século 18, segue sem confirmação em outra fonte. A mão de Veneza e a parceria com o príncipe polonês Jerzy Zbaraski, que historiadores poloneses dão como provável, seguem como hipótese, sem prova que as confirme ou as descarte.

 

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III  O Combustível

Cada edição, um novo achado

Um livro proibido precisava de uma origem melhor do que uma gráfica polonesa. Cada nova edição trouxe a sua: o manuscrito teria sido achado em Paderborn, em Praga, em Liège, em Antuérpia, em Glatz ou a bordo de um navio das Índias Orientais capturado no mar.

A versão mais repetida tinha um herói protestante. Christian de Brunswick, general da Guerra dos Trinta Anos, tomou Paderborn em janeiro de 1622, cunhou moedas com a prata do tesouro da catedral, sob o lema “Gottes Freund, der Pfaffen Feind” (amigo de Deus, inimigo dos padres), e, segundo a lenda, entregou a biblioteca do colégio jesuíta aos frades capuchinhos. Eles teriam achado a Monita no arquivo do reitor.

O relato vinha do prefácio de uma tradução inglesa de 1658. Em 1911, o jesuíta inglês John Gerard, no verbete da Catholic Encyclopedia, desmontou a história pelas datas: Christian nasceu em 1599 e tinha 15 anos quando o livro saiu em Cracóvia, oito anos antes da captura de Paderborn.

Quarenta e duas edições

O historiador B. Schneider, no verbete da New Catholic Encyclopedia lançada em 1967, contou 22 edições em sete línguas até 1700 e 42 até 1786.

Em francês, o livro circulou como “Avis d'or” (Avisos de ouro) e “Le Cabinet jésuitique” (O gabinete jesuítico); em inglês, como “The Secret Instructions of the Jesuits” (As instruções secretas dos jesuítas).

Em 1783, ainda houve quem vendesse o texto como descoberta recente, e uma edição sem data do começo do século 19 dizia ter saído da gráfica da Propaganda, a congregação romana das missões, com aprovação de um superior-geral chamado Felix Aconiti e de um censor chamado Pasquinelli. A lista dos gerais jesuítas não tem nenhum Aconiti.

Paolo Sarpi, o frade que defendeu Veneza contra o papa em 1606, e Antoine Arnauld, inimigo dos jesuítas na França, trataram a Monita como falsificação.

O jornal Nouvelles ecclésiastiques (Notícias eclesiásticas), dos jansenistas, católicos rigoristas em guerra com a Companhia na França, disse o mesmo. No século 19, os historiadores alemães Ignaz von Döllinger e Adolf von Harnack confirmaram a falsificação, e o jesuíta Bernhard Duhr incluiu o livro em “Jesuiten-Fabeln” (Fábulas sobre os jesuítas), de 1891.

A falsificação reconhecida não tirou o livro de circulação. O conde alemão Paul von Hoensbroech, que deixou a Companhia em 1892 e dedicou o resto da vida a atacá-la por escrito, admitiu que a Monita era tecnicamente falsa e defendeu que o texto retratava o espírito real da ordem.

Confira por conta própria antes de repetir o manual de Cracóvia:

• o lugar impresso na primeira página da Monita, Notobriga, ausente de qualquer mapa;

• a data em que Roma pôs o livro no Index, 10 de maio de 1616;

• o ano de nascimento de Christian de Brunswick, 1599, contra a impressão de 1614.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o diário da casa jesuíta de Cracóvia, já em agosto de 1614, quem foi apontado como autor do livro?

AClaudio Acquaviva
BHieronim Zahorowski
CRichard Frederick Littledale
DMateusz Bembus

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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