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O memorando de Katyn que Moscou guardou por 52 anos
Em 1944, uma comissão soviética culpou os alemães pelo massacre de 22 mil poloneses. Em 1992, Moscou entregou a ordem assinada por Stálin.
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Floresta de Katyn, Smolensk, Rússia
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A agência soviética TASS publicou em 13 de abril de 1990 uma nota curta, lida no rádio de Moscou: o lado soviético expressava "profundo pesar pela tragédia de Katyn" e a reconhecia como "um dos graves crimes do stalinismo".
Katyn é uma floresta perto de Smolensk, no oeste da Rússia, a uns 400 quilômetros de Moscou. Ali, na primavera de 1940, a polícia política soviética, o NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), fuzilou milhares de oficiais poloneses capturados meses antes.
O nome da floresta acabou batizando o massacre inteiro. Os fuzilamentos se repetiram em outros dois lugares, Kalinin, hoje Tver, e Kharkiv, na Ucrânia, e nas prisões do oeste da Ucrânia e da Bielorrússia.
Durante quase meio século, a versão oficial de Moscou dizia o contrário da nota da TASS. Para o Kremlin, quem tinha matado os poloneses eram os nazistas, no outono de 1941, depois de invadir a região.
Essa versão tinha papel, carimbo e assinatura de médico famoso. Em janeiro de 1944, uma comissão chefiada pelo cirurgião-chefe do Exército Vermelho, Nikolai Burdenko, exumou as covas e concluiu que as balas e as datas apontavam para Berlim.
A Polônia comunista, aliada de Moscou, repetiu a história nas escolas. Quem falava de Katyn em público arriscava o emprego. Nos cemitérios, as famílias gravavam 1940 nas lápides, e a polícia mandava raspar o ano.
A nota de 1990 admitiu a autoria do NKVD, mas parou na polícia. Não dizia quem tinha dado a ordem, nem quantos tinham caído.
As duas respostas estavam guardadas num envelope lacrado do arquivo do Partido Comunista. Só saíram de lá em 14 de outubro de 1992, quando o governo de Boris Iéltsin mandou cópias a Varsóvia.
Dentro havia um memorando de 5 de março de 1940, escrito por Lavrenti Béria, chefe do NKVD. Na primeira página, em lápis azul, aparecia a assinatura de Josef Stálin.
Para entender como uma mentira de Estado durou 52 anos, comece pela comissão que a escreveu.
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I A Conspiração do Dia
A comissão que mudou o ano das covas
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A comissão de Nikolai Burdenko assinou em 24 de janeiro de 1944 que os oficiais poloneses de Katyn foram fuzilados pelos alemães no outono de 1941, e não pelos soviéticos em 1940.
Burdenko não foi o primeiro a abrir as covas. Em 13 de abril de 1943, com a região sob ocupação alemã, a Rádio Berlim anunciou ter achado milhares de corpos de oficiais poloneses na floresta e culpou Moscou.
O governo polonês no exílio, sediado em Londres, pediu uma investigação à Cruz Vermelha Internacional. Stálin respondeu rompendo relações com ele em 25 de abril de 1943, acusando os poloneses de fazer o jogo de Hitler.
Em setembro de 1943, o Exército Vermelho retomou Smolensk. Poucos meses depois, Moscou montou a sua própria comissão, com nome comprido: Comissão Especial para Apurar e Investigar as Circunstâncias do Fuzilamento de Prisioneiros de Guerra Oficiais Poloneses pelos Invasores Fascistas Alemães na Floresta de Katyn.
O título já trazia a conclusão. A equipe de Burdenko exumou cerca de 925 corpos, segundo o próprio relatório de 1944, e levou jornalistas estrangeiros para ver o trabalho.
Como a data foi deslocada
O argumento central era cronológico. Se os poloneses tinham morrido no outono de 1941, a floresta já estava em mãos alemãs, e o crime era nazista.
Para sustentar a data, a comissão apresentou testemunhas locais e documentos achados nos bolsos dos mortos, com datas de 1941. Também destacou que as balas eram de fabricação alemã, da marca Geco.
As balas eram alemãs de fato. Mas a Geco exportava munição para a União Soviética desde os anos 1920, e o NKVD usava pistolas Walther alemãs justamente porque não emperravam em séries longas de tiros.
Anos depois, testemunhas da comissão disseram que tinham sido pressionadas a depor. Os documentos datados de 1941 nunca apareceram em arquivo nenhum fora do relatório.
Em 1946, Moscou levou Katyn ao Tribunal de Nuremberg, que julgou os líderes nazistas. A acusação soviética falava em 11 mil vítimas. Os juízes ouviram testemunhas dos dois lados e deixaram Katyn fora da sentença, sem condenar ninguém pelo caso.
Em 1952, uma comissão da Câmara dos Estados Unidos, chefiada pelo deputado Ray Madden, ouviu 81 testemunhas e concluiu que o NKVD tinha feito os fuzilamentos em 1940. Moscou chamou o trabalho de propaganda da Guerra Fria, e a versão Burdenko seguiu oficial em todo o bloco soviético.
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II A Origem
O lápis azul de Stálin
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Lavrenti Béria propôs a Stálin, em 5 de março de 1940, fuzilar 25.700 poloneses presos sem julgamento. Stálin assinou primeiro, e três membros do Politburo assinaram logo abaixo.
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A história começa em setembro de 1939. Pelo pacto Molotov-Ribbentrop, a Alemanha e a União Soviética dividiram a Polônia entre si: os alemães invadiram pelo oeste em 1º de setembro, os soviéticos pelo leste em 17 de setembro.
O Exército Vermelho capturou centenas de milhares de soldados poloneses. Os oficiais foram separados e mandados para três campos especiais: Kozelsk, Ostashkov e Starobelsk.
Muitos não eram militares de carreira. Eram reservistas convocados na mobilização: médicos, advogados, engenheiros, professores, padres. Matar os oficiais significava apagar boa parte da elite instruída do país.
O que a página dizia
Béria escreveu que os presos eram "inimigos irreconciliáveis do poder soviético". Propôs julgá-los por uma troika (um tribunal de três funcionários do NKVD, sem defesa nem audiência) e aplicar "a pena máxima: o fuzilamento".
Nas margens, assinaram Stálin, Kliment Vorochilov, Viatcheslav Molotov e Anastas Mikoyan. Junto aos nomes de Mikhail Kalinin e Lazar Kaganovich, um secretário anotou que os dois votaram a favor.
Os fuzilamentos correram de abril a maio de 1940. Em Kalinin, o carrasco Vasili Blokhin trabalhava de noite, com avental de couro, num porão à prova de som. Os corpos seguiam de caminhão para covas em Mednoye.
Os presos de Kozelsk foram levados de trem até Smolensk e de ônibus até a floresta de Katyn. Os de Starobelsk acabaram em Kharkiv.
Nos três campos, o NKVD passou o inverno de 1939 interrogando cada preso. Os agentes queriam saber quem aceitaria colaborar com o regime soviético. Algumas centenas de homens foram poupados e transferidos para o campo de Griazovets, perto de Vologda.
Um deles, o pintor e oficial Józef Czapski, passou depois dois anos procurando os colegas desaparecidos por ordem do governo polonês no exílio. Em 1941 e 1942, perguntou por eles a generais do NKVD em Moscou e ouviu sempre a mesma resposta: os presos tinham sido soltos, ou tinham fugido para a Manchúria.
Quantos foram
O número total saiu de outro papel do mesmo envelope. Em 3 de março de 1959, Aleksandr Chelepin, chefe da KGB, escreveu a Nikita Khruschov que 21.857 poloneses tinham sido fuzilados em 1940 e sugeriu destruir as fichas individuais.
É dessa nota de Chelepin que vem a conta arredondada de 22 mil. As fichas foram destruídas, como ele propôs. Os nomes que a Polônia conhece hoje vieram das listas de transferência dos campos, entregues por Mikhail Gorbachev a Wojciech Jaruzelski em 1990.
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