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O microfone do celular e os 17 mil aplicativos da Northeastern

Em 2018, uma universidade não achou áudio vazando. Em 2024, um material de venda da Cox Media Group prometia escuta.

Celular desbloqueado sobre uma mesa de madeira

O celular e o microfone que ninguém vê

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O site americano 404 Media publicou no começo de setembro de 2024 a manchete “Here's the Pitch Deck for 'Active Listening' Ad Targeting” (Eis a apresentação de vendas da segmentação de anúncios por escuta ativa). O documento levava a marca da Cox Media Group, conglomerado de TV, rádio e marketing digital dos Estados Unidos.

Os slides vendiam um serviço chamado Active Listening (escuta ativa). A promessa era achar compradores pelo que eles falam perto do celular, da TV conectada e do alto-falante inteligente, e mandar anúncio para eles na sequência.

Um slide descrevia o processo em etapas. Os aparelhos captariam a intenção de compra em tempo real ouvindo conversas, uma inteligência artificial separaria as falas úteis e o anunciante cruzaria a voz com dados de comportamento.

Outro slide listava parceiros de mídia da agência. Facebook, Google e Amazon apareciam ali, com logotipo.

As três reagiram em poucos dias. O Google tirou a Cox Media Group do programa Google Partners. A Amazon disse ao 404 Media que nunca trabalhou com a agência nesse produto. A Meta, dona do Facebook, anunciou que ia verificar se a agência tinha violado os termos da plataforma.

A agência já tinha passado por constrangimento parecido. Em dezembro de 2023, o mesmo 404 Media achou no site da Cox Media Group uma página que oferecia alcançar clientes enquanto eles discutiam, em conversas do dia a dia, a necessidade de um serviço. A página saiu do ar depois da reportagem.

Para quem jura que o celular escuta, o material soou como confissão assinada. Uma empresa conhecida, com marca no rodapé, dizia em slide aquilo de que muita gente desconfiava havia anos.

Faltava no material, porém, o principal: um teste mostrando a escuta funcionando. E desde 2018 existia um estudo acadêmico que tinha procurado esse vazamento de áudio em escala industrial.

A crença, o estudo e o slide formam um caso só. Ele começa pela tese, do jeito que ela circula na mesa do almoço de domingo.

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I  A Conspiração do Dia

O anúncio da ração de gato

A resposta de ontem

Em que país Blaise Compaoré vive desde 2014?

Na Costa do Marfim. Blaise Compaoré cruzou a fronteira no último dia de outubro, em 2014, levado por um comboio com apoio francês, como admitiu depois o presidente François Hollande. Ganhou a nacionalidade marfinense em 2016, o que trava a extradição, e em 2022 pediu perdão à família de Sankara numa carta.

A tese cabe numa frase. Os aplicativos de redes sociais deixariam o microfone ligado em segundo plano, ouviriam as conversas do dono do celular e transformariam palavras soltas em anúncio.

A prova que circula é a anedota. Alguém fala de tênis de corrida no jantar, sem digitar nada, e na manhã seguinte o Instagram mostra três marcas de tênis de corrida.

A história se repete com berço de bebê, viagem para a praia e marca de cerveja. Cada pessoa tem a sua, e cada uma parece impossível de explicar sem o microfone.

A versão mais citada da tese nasceu de um teste caseiro de uma professora universitária, feito diante de uma equipe de TV.

A professora da Flórida

Em 2016, Kelli Burns, professora de comunicação de massa da Universidade do Sul da Flórida, deixou o celular aberto e falou em voz alta sobre safári na África e sobre ração de gato.

Ela contou a uma emissora de TV local que, depois da conversa, viu publicações e anúncios ligados aos dois assuntos no Facebook. Burns ressalvou que o teste não era científico e que outros sinais podiam explicar o resultado.

O Facebook respondeu em junho de 2016 com uma nota pública. A empresa afirmou que não usava o microfone do celular para escolher anúncios nem para mudar o que aparecia no feed (a lista de publicações da tela inicial).

A resposta no Senado

Dois anos depois, a pergunta chegou ao Congresso americano. Em abril de 2018, numa audiência sobre o caso Cambridge Analytica, o senador Gary Peters perguntou a Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, se a empresa usava áudio captado nos celulares para completar o perfil dos usuários.

“Você está falando dessa teoria da conspiração que circula, de que a gente escuta o que acontece no seu microfone e usa para anúncios. Não fazemos esse uso.” (Mark Zuckerberg, depoimento ao Senado dos Estados Unidos, 2018)

A frase não convenceu quem já acreditava. Para a tese, negar faz parte do roteiro de quem esconde.

O que a tese precisa provar

Os assistentes de voz ouvem, sim, mas de outro jeito. O celular fica atento à wake word (palavra de ativação, como “Ok Google” ou “E aí, Siri”) com um processador dedicado, dentro do próprio aparelho, e só manda áudio à nuvem depois dela.

A tese exige outra escala: aplicativos comuns gravando conversas inteiras, enviando o som para servidores e convertendo voz em perfil de consumo, sem deixar rastro no tráfego de dados do aparelho.

Esse rastro pode ser medido. Foi o que uma equipe de Boston decidiu fazer.

 
 

II  A Origem

A varredura de Boston

Na Northeastern University, em Boston, os cientistas da computação David Choffnes e Christo Wilson montaram com os alunos Elleen Pan e Jingjing Ren um experimento para pegar o microfone no flagra.

A equipe reuniu mais de 17 mil aplicativos de Android, entre eles milhares que trocavam dados com o Facebook. Um programa automático abria cada aplicativo, tocava botões, preenchia telas e registrava tudo que saía do aparelho pela internet.

O monitor ficava no meio do caminho entre o celular e a rede. Qualquer arquivo de som enviado a um servidor apareceria ali como tráfego, com tamanho, destino e formato.

O trabalho levou cerca de um ano e foi apresentado em 2018 no simpósio PETS, encontro acadêmico sobre tecnologias de privacidade. O título falava em exfiltração (a saída escondida de dados do aparelho) de áudio e vídeo.

Em 2018, a Northeastern University não achou nenhum dos mais de 17 mil aplicativos mandando gravação de áudio sem o usuário pedir.

O que apareceu no lugar

A varredura achou outra prática. Um aplicativo de entregas gravava a tela do celular enquanto o cliente usava o serviço e mandava o vídeo para uma empresa de análise de uso.

O vídeo mostrava onde o cliente tocava e o que digitava. A política de privacidade do aplicativo, na época, não avisava o usuário dessa gravação.

Os pesquisadores contaram à revista Gizmodo, em julho de 2018, que esperavam achar áudio e acharam imagem. A surpresa do estudo estava na tela, não no microfone.

Os limites do teste

A equipe listou os próprios limites no artigo. O teste rodou só em Android, com programa automático, sem gente conversando perto do aparelho.

Um aplicativo que acordasse apenas ao ouvir certas palavras poderia escapar. Os autores registraram a hipótese e disseram não ter visto sinal dela no tráfego.

O estudo também não mediu aparelhos de outras categorias, como TV conectada e alto-falante inteligente. Esses são justamente os aparelhos que o material da Cox Media Group citaria seis anos depois.

 

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III  O Combustível

O slide sem demonstração

O material de 2024 prometia escuta e não mostrava como ela acontecia. Nenhum slide trazia código, contrato de acesso ao microfone ou teste com resultado medido.

Em dezembro de 2023, ao responder ao 404 Media sobre a página retirada do ar, a Cox Media Group disse que não ouvia conversas e que trabalhava com dados de terceiros, agregados e anônimos.

O alvo do produto eram anunciantes locais, como clínicas, concessionárias e escritórios de reforma. Para esse cliente, a palavra escuta funcionava como argumento de venda, e a agência não apresentou nenhum caso medido em que ela tivesse operado.

A empresa que vendeu escuta ativa negou, quando perguntada, ter escutado alguém.

O peso da coincidência

A tese sobrevive porque a experiência dela é forte. O linguista Arnold Zwicky, da Universidade Stanford, chamou em 2005 de ilusão de frequência o efeito de notar em toda parte algo que acabou de entrar na cabeça.

Quem falou de tênis no jantar passa a reparar em cada anúncio de tênis. Os anúncios de outros produtos, vistos no mesmo dia, somem da memória.

Zwicky deu nome também ao parceiro dessa ilusão, o viés de atenção recente: a impressão de que algo é novo só porque a pessoa acabou de notar.

A coincidência também tem ajuda técnica. As plataformas sabem onde o celular dormiu, com quem ele divide a rede de Wi-Fi da casa, o que o parceiro pesquisou e o que foi comprado com o cartão. A conversa do jantar costuma nascer do mesmo interesse que já deixou rastro em busca e compra.

A luz no canto da tela

Os sistemas operacionais criaram uma testemunha visível. Desde o iOS 14, de 2020, o iPhone acende um ponto laranja no alto da tela quando um aplicativo usa o microfone. O Android 12, de 2021, mostra um ícone verde parecido.

As duas lojas de aplicativos também exigem pedido de permissão para o microfone. O usuário pode negar e continuar usando a maior parte dos serviços.

Confira sozinho, em 3 passos:

• o ponto laranja ou o ícone verde no alto da tela enquanto você usa a rede social;

• a lista de aplicativos com acesso ao microfone, nos ajustes de privacidade do celular;

• o botão “Por que estou vendo este anúncio?”, no menu do próprio anúncio.

O estudo de Boston pegou um aplicativo filmando a tela, não um aplicativo ouvindo.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Qual aplicativo a Northeastern flagrou mandando o vídeo da tela do usuário para outra empresa?

 
 
Quiz da edição

Em abril de 2018, numa audiência do Senado dos Estados Unidos sobre o caso Cambridge Analytica, qual senador perguntou a Mark Zuckerberg se o Facebook usava áudio captado por microfones de celular para completar perfis de usuários?

ATed Cruz
BDianne Feinstein
CGary Peters
DRichard Blumenthal

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