A resposta de ontem Em que país Blaise Compaoré vive desde 2014? Na Costa do Marfim. Blaise Compaoré cruzou a fronteira no último dia de outubro, em 2014, levado por um comboio com apoio francês, como admitiu depois o presidente François Hollande. Ganhou a nacionalidade marfinense em 2016, o que trava a extradição, e em 2022 pediu perdão à família de Sankara numa carta. |
A tese cabe numa frase. Os aplicativos de redes sociais deixariam o microfone ligado em segundo plano, ouviriam as conversas do dono do celular e transformariam palavras soltas em anúncio.
A prova que circula é a anedota. Alguém fala de tênis de corrida no jantar, sem digitar nada, e na manhã seguinte o Instagram mostra três marcas de tênis de corrida.
A história se repete com berço de bebê, viagem para a praia e marca de cerveja. Cada pessoa tem a sua, e cada uma parece impossível de explicar sem o microfone.
A versão mais citada da tese nasceu de um teste caseiro de uma professora universitária, feito diante de uma equipe de TV. |
A professora da Flórida
Em 2016, Kelli Burns, professora de comunicação de massa da Universidade do Sul da Flórida, deixou o celular aberto e falou em voz alta sobre safári na África e sobre ração de gato.
Ela contou a uma emissora de TV local que, depois da conversa, viu publicações e anúncios ligados aos dois assuntos no Facebook. Burns ressalvou que o teste não era científico e que outros sinais podiam explicar o resultado.
O Facebook respondeu em junho de 2016 com uma nota pública. A empresa afirmou que não usava o microfone do celular para escolher anúncios nem para mudar o que aparecia no feed (a lista de publicações da tela inicial).
A resposta no Senado
Dois anos depois, a pergunta chegou ao Congresso americano. Em abril de 2018, numa audiência sobre o caso Cambridge Analytica, o senador Gary Peters perguntou a Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, se a empresa usava áudio captado nos celulares para completar o perfil dos usuários.
“Você está falando dessa teoria da conspiração que circula, de que a gente escuta o que acontece no seu microfone e usa para anúncios. Não fazemos esse uso.” (Mark Zuckerberg, depoimento ao Senado dos Estados Unidos, 2018)
A frase não convenceu quem já acreditava. Para a tese, negar faz parte do roteiro de quem esconde.
O que a tese precisa provar
Os assistentes de voz ouvem, sim, mas de outro jeito. O celular fica atento à wake word (palavra de ativação, como “Ok Google” ou “E aí, Siri”) com um processador dedicado, dentro do próprio aparelho, e só manda áudio à nuvem depois dela.
A tese exige outra escala: aplicativos comuns gravando conversas inteiras, enviando o som para servidores e convertendo voz em perfil de consumo, sem deixar rastro no tráfego de dados do aparelho.
Esse rastro pode ser medido. Foi o que uma equipe de Boston decidiu fazer.
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