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O pergaminho de Chinon que absolveu os Templários em 1308
Em 13 de outubro de 1307, o rei da França mandou prender a ordem inteira, e um pergaminho catalogado errado no Vaticano conta o outro lado.
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Casa templária em Paris, outubro de 1307
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Na madrugada de sexta-feira, 13 de outubro de 1307, oficiais do rei da França abriram ao mesmo tempo, em dezenas de cidades, um envelope que estava lacrado havia semanas. Dentro havia uma ordem escrita em nome de Filipe IV, com instruções operacionais: prender todos os membros da Ordem do Templo em território francês, arrolar cada bem encontrado e conduzir os detidos a interrogatório imediato.
O sigilo funcionou. Casas templárias em Paris, na Normandia, no Languedoc e no vale do Loire foram tomadas na mesma manhã, sem que uma avisasse a outra. Em Paris, o mestre da ordem, Jacques de Molay, tinha carregado o caixão num funeral real no dia anterior, como convidado de honra da corte. Menos de vinte e quatro horas depois estava preso.
A ordem tinha quase duzentos anos de existência quando aquilo aconteceu. Nasceu por volta de 1119 em Jerusalém, foi reconhecida por um concílio da Igreja em 1129 e ganhou de um papa, em 1139, um privilégio raro: respondia apenas a Roma, não a bispos e não a reis. Em 1307, mantinha castelos, frotas, depósitos de valor e uma rede de crédito que atendia coroas europeias inteiras.
O ponto que interessa aqui não é a prisão em si. É o que apareceu setecentos anos depois, numa estante do arquivo do Vaticano, catalogado sob a referência errada. Em setembro de 2001, uma pesquisadora italiana localizou um pergaminho de tamanho grande, redigido em Chinon no verão de 1308, que registrava um ato jamais incorporado à versão popular do caso.
O documento descreve três cardeais enviados pelo papa Clemente V ouvindo os líderes presos e concedendo a eles a absolvição formal da acusação de heresia. Quatro anos antes da ordem ser extinta e sete antes do desfecho de Jacques de Molay, a mais alta autoridade da Igreja tinha registrado por escrito que os chefes do Templo estavam reconciliados com ela.
Um documento assim muda a pergunta. Deixa de valer a discussão sobre se a acusação era verdadeira, porque quem acusava já tinha respondido isso em cartório próprio. A pergunta passa a ser outra: por que a extinção seguiu adiante mesmo assim.
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I A Conspiração do Dia
Uma prisão em massa combinada por carta lacrada
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A tese diz que a destruição dos Templários foi uma operação de Estado montada com meses de antecedência pela coroa francesa, com acusação fabricada, sigilo militar e um papa pressionado a homologar o resultado depois que ele já era irreversível.
O primeiro argumento é o método. As cartas de prisão foram despachadas aos oficiais em setembro de 1307, lacradas, com instrução expressa de só serem abertas na madrugada indicada. Governo que age por convicção religiosa costuma anunciar, convocar concílio e abrir processo. Aqui o roteiro foi de captura simultânea.
O segundo argumento é a lista de acusações. Ela chegou pronta, idêntica em cada região, com os mesmos itens repetidos: renegação de Cristo na cerimônia de entrada, cusparada na cruz, beijos rituais, adoração de uma cabeça chamada Bafomé e ligações internas ilícitas. O mesmo pacote já tinha sido usado pela mesma corte contra outro adversário poucos anos antes.
O terceiro argumento é o dinheiro. A coroa francesa devia à ordem, tinha acabado de expulsar banqueiros italianos e de confiscar bens de judeus no reino, e adulterava a moeda havia anos para cobrir despesa de guerra. O tesouro real de Paris tinha ficado guardado numa casa templária.
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Uma pergunta atravessa o caso inteiro: por que um rei precisaria de carta lacrada, prisão simultânea e confissão obtida em porão se a acusação se sustentasse sozinha diante de um tribunal da Igreja?
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O que a tese cobra da defesa: explicar por que as confissões desabaram assim que os interrogatórios saíram das mãos dos oficiais do rei, e por que centenas de irmãos se retrataram quando o papa assumiu o processo.
Há o problema da unanimidade suspeita. Em Paris, a quase totalidade dos interrogados confessou nas primeiras semanas. Em Chipre, em Aragão e nos territórios sob a coroa inglesa, onde o método de interrogatório foi outro, a taxa de confissão desabou.
Há a questão do beneficiário. Os bens da ordem foram transferidos por decisão papal aos Hospitalários, ordem rival, mas a coroa francesa cobrou antes as despesas do processo, a administração dos imóveis apreendidos e as dívidas antigas, e ficou com parte substancial do patrimônio na prática.
Há a lacuna dos números. Ninguém sabe quantos irmãos existiam na França em 1307. As estimativas variam entre um e dois milhares de membros, dos quais apenas uma fração era cavaleiro. O restante eram sargentos, capelães e trabalhadores de fazenda, gente que administrava celeiro e não segurava espada.
E há a pressa. Entre a prisão e a primeira leva de confissões passaram-se dias, não meses. Um processo por heresia em regra levava anos, com citação, defesa e recurso. Este começou com o réu já detido e o inventário dos bens em andamento.
A tese depende de a acusação ter nascido fabricada, e não recolhida. Falta saber quem escreveu o pacote de acusações, quando, e por qual motivo prático.
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II A Origem
As dívidas de Filipe e o cofre da ordem
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A origem tem data e nome. Em 1306, Filipe IV enfrentava a pior crise financeira do reinado. No ano seguinte, um ex-templário expulso da ordem passou às autoridades reais o relato que virou a base do inquérito.
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O primeiro fio é a conta que não fechava. Filipe herdou guerra em Flandres e no sudoeste, financiada com desvalorização sucessiva da moeda. A medida provocou revolta popular em Paris em 1306, ao ponto de o rei ter de se abrigar numa casa da própria ordem que mandaria prender no ano seguinte.
O segundo fio é o precedente. A mesma corte, com o mesmo jurista de confiança, já tinha construído um processo de heresia contra um papa anterior, Bonifácio VIII, usando itens muito parecidos com os que apareceriam contra o Templo. O procedimento não era improviso, era repertório.
O terceiro fio é o informante. Um homem chamado Esquin de Floyran, ligado à ordem e desligado dela em circunstâncias que não ficaram registradas, ofereceu a denúncia primeiro à coroa de Aragão, onde não foi levada a sério, e depois à corte francesa, onde foi.
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"O crime desses homens é quase incrível, uma coisa detestável, um delito execrável, uma obra abominável, uma vergonha detestável, algo praticamente desumano."
Preâmbulo da ordem de prisão de Filipe IV aos oficiais do reino, França, setembro de 1307.
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O quarto fio é o papa. Clemente V, francês, eleito em 1305, tinha instalado a corte papal em Avignon, dentro da esfera de influência do rei. Reagiu à prisão com irritação, suspendeu os poderes dos inquisidores em fevereiro de 1308 e exigiu conduzir ele mesmo o processo.
O quinto fio é Chinon. Em agosto de 1308, três cardeais foram ao castelo onde os líderes estavam detidos e os ouviram durante três dias. Os interrogados renegaram as confissões anteriores, pediram perdão pelo que haviam dito sob pressão e receberam absolvição formal.
O pergaminho que registra o encontro tem cerca de setenta centímetros por sessenta, com os selos dos cardeais. Ele foi arquivado, inventariado em 1628 com uma descrição que não mencionava a absolvição, e passou séculos catalogado como outra coisa.
O detalhe que mudou o caso foi de fichário. Em setembro de 2001, a pesquisadora Barbara Frale localizou o pergaminho no arquivo do Vaticano sob a referência Archivum Arcis Armarium D 217. O Vaticano publicou uma edição facsimilar em 2007, com 799 exemplares numerados.
Falta a parte que mantém a teoria viva mesmo com o documento publicado e disponível, e ela tem menos a ver com segredo do que parece.
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