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O pintor Hirasawa e o veneno do banco Teikoku

Em 1948, 12 bancários de Tóquio beberam um falso remédio. Um pintor confessou, voltou atrás e passou 39 anos preso.

Fachada de banco em Tóquio no inverno de 1948

Tóquio, janeiro de 1948

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O New York Times publicou em 11 de maio de 1987 o obituário com o título “Sadamichi Hirasawa, 95, Dies; Was on Death Row for 32 Years” (Sadamichi Hirasawa, 95 anos, sai de cena; esteve no corredor da morte por 32 anos). O texto vinha de Tóquio e tratava de um pintor que o Japão condenou e nunca executou.

Hirasawa saiu da prisão médica de Hachioji, nos arredores da capital, dentro de um caixão. Tinha passado 39 anos preso, contados da detenção em 1948, e nenhum ministro da Justiça do país aceitou assinar a ordem de execução dele.

A condenação vinha de um crime de janeiro de 1948. Doze pessoas morreram envenenadas dentro de uma agência bancária de Tóquio, numa tarde de inverno, em poucos minutos, diante de um homem de braçadeira que dizia trabalhar para a saúde pública.

O Japão de 1948 vivia sob ocupação americana. Faltava comida, faltava remédio, e as autoridades sanitárias circulavam pelas cidades com vacinas e desinfetante. Um funcionário de braçadeira pedindo obediência numa repartição não causava estranheza.

O homem que entrou no banco usou essa confiança. Ele trazia uma caixa de remédios, um cartão de visita com nome de médico e uma história pronta sobre um surto de disenteria no bairro.

A polícia prendeu Hirasawa sete meses depois. Ele assinou uma confissão, retirou a confissão no tribunal e repetiu até o fim da vida que nunca tinha posto os pés no banco.

Pelo caminho, a investigação esbarrou numa pista que ninguém esperava: o veneno parecia obra de especialista, e os detetives foram atrás dos antigos membros de uma unidade secreta do Exército Imperial que testava venenos em prisioneiros na China.

A tese de que o envenenador real saiu dessa unidade, protegido pelos americanos, sobrevive até hoje. Ela começa no balcão da agência de Shiinamachi.

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I  A Conspiração do Dia

A tarde na agência de Shiinamachi

Na tarde de 26 de janeiro de 1948, um homem de meia-idade entrou na agência de Shiinamachi do banco Teikoku, no bairro de Toshima, em Tóquio, pouco depois do fechamento das portas ao público. Usava braçadeira de funcionário sanitário e pediu para falar com o gerente.

Ele se apresentou como enviado do governo metropolitano e contou que havia casos de disenteria (infecção intestinal grave, transmitida por água e comida contaminadas) perto da agência. Disse que as forças de ocupação americanas mandavam todos os funcionários tomar um remédio preventivo antes da desinfecção do prédio.

Dezesseis pessoas estavam no banco, entre bancários, o gerente interino e parentes de um funcionário que morava nos fundos. O homem distribuiu as xícaras, serviu o líquido em duas doses e mostrou como engolir, bebendo ele mesmo primeiro.

O primeiro líquido queimava a garganta. O homem pediu que todos tomassem o segundo, chamado por ele de neutralizante, um minuto depois. Em poucos minutos, as vítimas caíram no chão do salão.

Dez pessoas morreram dentro da agência, duas morreram no hospital e quatro sobreviveram para descrever o homem da braçadeira.

O dinheiro levado

Enquanto as vítimas desmaiavam, o homem recolheu o dinheiro à vista. Levou cerca de 160 mil ienes em espécie e um cheque de pouco mais de 17 mil ienes, sacado no dia seguinte numa outra agência, em nome de um funcionário morto.

A perícia apontou o veneno como um composto de cianeto, o mesmo grupo químico do cianeto de potássio. O efeito retardado, de alguns minutos, deu tempo ao homem de beber a primeira dose sem tocar na segunda.

Os dois ensaios

A polícia descobriu que o golpe tinha sido treinado. Em outubro de 1947, na agência de Ebara do banco Yasuda, um homem com a mesma história de disenteria serviu um líquido aos funcionários, e ninguém passou mal.

Ele deixou ali um cartão de visita autêntico, do médico Shigeru Matsui, do Ministério da Saúde. Matsui tinha álibi e trocava cartões com muita gente.

Em 19 de janeiro de 1948, uma semana antes do crime, o mesmo tipo de visita aconteceu na agência de Nakai do banco Mitsubishi. O gerente desconfiou, e o homem foi embora deixando um cartão com o nome de Jiro Yamaguchi, que a polícia nunca encontrou.

O cartão de Matsui virou a pista principal. O médico tinha guardado os cartões recebidos em troca, e os detetives passaram a procurar cada pessoa que ganhou um dos seus.

 
 

II  A Origem

O laboratório da Manchúria

A pista do cartão não foi a única. Nas primeiras semanas, a polícia de Tóquio procurou o envenenador entre médicos, químicos militares e veteranos da guerra, gente que soubesse dosar um veneno de efeito retardado.

O nome que mais aparecia nas anotações era o da Unidade 731, setor de pesquisa biológica e química do Exército Imperial japonês, sediado perto de Harbin, na Manchúria, nordeste da China. O comandante era o médico militar Shiro Ishii.

Durante a guerra, a unidade infectou e envenenou prisioneiros chineses, russos e coreanos para medir doses e reações. Testava também o uso de venenos em ação secreta, servidos a pessoas desavisadas.

Depois da rendição, Ishii e os chefes da Unidade 731 não foram julgados: entregaram os dados das experiências aos Estados Unidos em troca de imunidade.

As anotações de Kai

O rumo da investigação ficou registrado nos cadernos do detetive Bunsuke Kai, do Departamento de Polícia Metropolitana de Tóquio. As anotações citam entrevistas com ex-integrantes da Unidade 731 e do Instituto Noborito, laboratório militar de venenos e armas secretas perto de Tóquio.

Os veteranos ouvidos descreveram o método do crime como parecido com o treino que recebiam: a dose em duas etapas, a demonstração feita pelo próprio aplicador, a calma diante das vítimas.

A pista mexia num assunto que o governo de ocupação queria quieto. O acordo de imunidade com os médicos da Unidade 731 era segredo, e um processo público contra um deles poderia expor o pacto.

A pista abandonada

No meio de 1948, a linha militar perdeu força dentro da polícia. Os cadernos de Kai mostram que os detetives pararam de visitar veteranos, sem registrar o motivo por escrito.

Os defensores da tese da conspiração atribuem a parada a uma ordem do comando americano. Nenhum documento publicado até hoje prova essa ordem, e os arquivos da ocupação liberados nas décadas seguintes não trazem instrução sobre o caso Teigin. Sem o papel, a ordem segue como suspeita, não como fato.

O que existe por escrito é a outra linha. O detetive Tamegoro Igii seguia a lista dos cartões de Matsui, e um dos nomes era o de um pintor de têmpera (técnica que mistura pigmento com gema de ovo) chamado Sadamichi Hirasawa.

Hirasawa morava em Otaru, na ilha de Hokkaido. Tinha recebido um cartão de Matsui numa viagem de navio, em 1947, e não conseguia mostrar o cartão. Disse que tinha sido roubado junto com a carteira.

 

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III  O Combustível

A confissão no Hokkaido

A polícia prendeu Sadamichi Hirasawa em Otaru em 21 de agosto de 1948. Ele tinha 56 anos, era pintor reconhecido, com quadros expostos nas mostras oficiais do país, e não tinha formação em química nem passado militar.

Contra ele havia o cartão sumido e uma soma de dinheiro que apareceu na conta dele depois do crime, cuja origem ele se recusou a explicar. Alguns sobreviventes disseram reconhecê-lo; outros disseram que não era ele.

Depois de cerca de um mês de interrogatórios diários, sem advogado presente, Hirasawa confessou. Tentou tirar a própria vida mais de uma vez durante a custódia. No julgamento, retirou a confissão e disse que ela foi arrancada sob pressão.

O Tribunal Distrital de Tóquio condenou Hirasawa à morte em 1950, e a Suprema Corte do Japão confirmou a pena em 1955.

O pintor doente

A defesa apresentou um dado médico. Em 1925, Hirasawa tomou uma vacina contra raiva e desenvolveu a síndrome de Korsakoff (dano cerebral que apaga a memória recente e leva a pessoa a inventar lembranças para preencher as lacunas).

Para os advogados, um homem com essa condição repetia o que os interrogadores sugeriam. Os médicos da acusação disseram que ele estava apto a responder pelos próprios atos.

O dinheiro sem explicação ganhou uma versão depois da condenação: a de que vinha da venda de pinturas eróticas, que ele teria escondido por vergonha. A versão nunca foi provada nem descartada no processo.

Por que a tese sobrevive

O escritor Seicho Matsumoto, autor de romances policiais, publicou em 1959 o livro “Teikoku Ginko Jiken” (O caso do banco Teikoku) e voltou ao tema na série “Nihon no Kuroi Kiri” (A névoa negra do Japão), de 1960, sustentando que o crime exigia treino militar.

Os ministros da Justiça reforçaram a dúvida sem querer. Ao longo de 32 anos, nenhum assinou a execução, e o Japão manteve no corredor da morte um homem que o próprio Estado hesitava em enforcar.

Hirasawa pediu revisão do processo dezenas de vezes. O filho adotivo, Takehiko Hirasawa, seguiu com os pedidos depois de 1987, até a própria morte em 2013, e a Justiça japonesa recusou todos.

O que não se sabe com todas as letras: quem preparou o veneno, de onde ele saiu e se a pista da Unidade 731 foi largada por ordem de alguém. As provas que poderiam responder, como o líquido original e os cartões, se perderam ou nunca apareceram.

Confira sozinho, em 3 passos:

• a data da prisão de Hirasawa em Otaru, 21 de agosto de 1948;

• o ano em que a Suprema Corte do Japão confirmou a pena, 1955;

• a data da morte dele na prisão de Hachioji, 10 de maio de 1987.

 
 
Quiz da edição

No crime do banco Teikoku, em 26 de janeiro de 1948, quantas das doze vítimas morreram ainda dentro do salão da agência de Shiinamachi, antes de qualquer socorro externo?

A12
B8
C10
D14

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