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ED 006

O plano que o Pentágono assinou em março de 1962

Em 13 de março de 1962, o chefe do Estado-Maior Conjunto entregou ao secretário de Defesa uma lista de pretextos para invadir Cuba.

Pasta de papel timbrado carimbada como ultrassecreta sobre uma mesa de escritório do Pentágono, à luz de uma luminária de arquivo, em março de 1962.

Pentágono, 13 de março de 1962

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No dia 13 de março de 1962, o general Lyman Lemnitzer assinou um memorando de poucas páginas endereçado ao secretário de Defesa dos Estados Unidos. O assunto vinha datilografado no alto da primeira página: justificativa para a intervenção militar americana em Cuba.

Lemnitzer era o chefe do Estado-Maior Conjunto, o posto militar mais alto do país, e assinava em nome dos comandantes do Exército, da Marinha, da Força Aérea e dos Fuzileiros. O texto saiu carimbado como ultrassecreto, com manuseio especial e proibição de mostrar a governo estrangeiro.

O documento não nasceu naquela semana. Um grupo de trabalho do próprio Estado-Maior vinha montando o material desde o começo do ano, depois do desembarque fracassado na Baía dos Porcos, em abril de 1961, que deixou mais de mil homens presos na ilha em três dias.

Em 30 de novembro de 1961, Kennedy autorizou por escrito um programa clandestino para derrubar o governo de Havana. Quem tocava as operações era o general de brigada Edward Lansdale, e o que ele pediu ao Estado-Maior foi uma peça específica: o pretexto.

A pasta parou na mesa de Robert McNamara, secretário de Defesa havia catorze meses e o civil que Kennedy tinha posto para controlar os generais. Três dias depois, em 16 de março, Lemnitzer foi à Casa Branca e ouviu do presidente que não haveria ação militar aberta contra Cuba.

Em setembro daquele ano o mandato de Lemnitzer à frente do Estado-Maior não foi renovado. No começo de 1963 ele desembarcou na Europa, como comandante supremo aliado da OTAN.

O memorando desceu para um cofre e ficou trinta e cinco anos lá dentro. Saiu em novembro de 1997, num lote de milhares de páginas aberto por uma lei que o Congresso americano tinha escrito para resolver outro assunto.

Nas páginas anexas havia uma lista numerada. Cada item descrevia uma encenação, o mecanismo de execução e o efeito esperado nos jornais do dia seguinte. A lista precisa ser lida por inteiro antes de qualquer conclusão sobre ela.

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I  A Conspiração do Dia

A lista datilografada no anexo

Um perímetro atacado por atores, um navio explodido de propósito e um avião de passageiros trocado por uma cópia sem tripulação.

O anexo propunha encenar ataques contra alvos americanos, atribuir cada um deles a Cuba e usar a indignação resultante como base política para invadir a ilha. Nenhum item era vago: todos vinham com o mecanismo descrito.

A primeira frente era a base americana em Guantánamo, dentro do próprio território cubano. Cubanos aliados dos Estados Unidos, vestidos com uniforme cubano, encenariam um ataque ao perímetro. Outros grupos começariam tumultos no portão principal, incendiariam aeronaves no pátio e sabotariam um navio ancorado no porto.

O item seguinte era mais direto. Explodir um navio americano dentro da baía e culpar Cuba pelo estrago. O texto citava o precedente pelo nome, o encouraçado Maine, afundado em Havana em 1898, e anotava que listas de baixas nos jornais americanos produziriam uma onda útil de indignação nacional.

Outro trecho previa uma campanha de terror cubano comunista na região de Miami, em outras cidades da Flórida e até em Washington. O modo de execução estava escrito com verbo no infinitivo: explodir algumas bombas plásticas em pontos escolhidos com cuidado, prender agentes cubanos e divulgar documentos preparados de antemão comprovando o envolvimento de Havana.

Prender agentes cubanos e divulgar documentos preparados de antemão, tudo descrito em verbo no infinitivo, como quem preenche um formulário.

A lista incluía afundar um barco de refugiados cubanos a caminho da Flórida, real ou simulado, e usar caças de tipo MiG pilotados por americanos para assediar a aviação civil e atacar navios de superfície na região.

O item mais elaborado envolvia um avião de passageiros. Uma aeronave registrada em nome de uma empresa de fachada da CIA seria pintada como cópia exata de um voo civil real. Os passageiros embarcariam com identidades preparadas, o avião verdadeiro pousaria numa base aérea na Flórida e todos desceriam ali, longe de qualquer registro.

A cópia sem ninguém a bordo seguiria a rota por controle remoto. Sobre o Caribe transmitiria um pedido de socorro dizendo estar sob ataque de um caça cubano, e em seguida seria destruída por um sinal de rádio enviado da própria base.

Havia ainda a proposta de criar um incidente que demonstrasse de forma convincente que um avião cubano tinha abatido um voo fretado a caminho da Jamaica, da Guatemala, do Panamá ou da Venezuela.

Um dos anexos tratava do primeiro voo orbital tripulado americano, o de John Glenn. Se o foguete falhasse, a proposta era fabricar prova irrefutável de que a culpa tinha sido de interferência eletrônica cubana, e apresentar a prova ao mundo.

O conjunto recebeu um nome de operação, Northwoods, numeração de página e classificação máxima. É um documento de trabalho do Estado-Maior Conjunto, escrito no vocabulário burocrático de quem preenche formulário, e não um panfleto de rua.

Falta explicar como um papel carimbado como ultrassecreto, guardado num cofre do Pentágono, foi parar na tela de qualquer pessoa com conexão de internet.

 
 

II  A Origem

A lei escrita para outro arquivo

O papel é de março de 1962, mas só vira assunto público em novembro de 1997, aberto por uma lei que o Congresso americano tinha escrito para outro caso, o arquivo do atentado contra Kennedy em Dallas.

Em 1962 o assunto simplesmente parou. Não existe registro de que o memorando tenha passado da mesa do secretário de Defesa, e a proposta nunca virou ordem. O Estado-Maior seguiu tocando planos de contingência para Cuba pelo caminho convencional.

Nos trinta e cinco anos seguintes o documento não vazou, não foi citado em depoimento no Congresso e não apareceu em livro de memórias. Ficou classificado, junto com o resto do material do programa clandestino contra Havana.

A abertura veio de um lugar que nada tinha a ver com Cuba. Em dezembro de 1991, um filme de Oliver Stone sobre o caso Kennedy encheu cinema nos Estados Unidos e devolveu ao debate público a suspeita de que o arquivo oficial estava incompleto.

A pressão virou lei em outubro de 1992. O texto obrigava as agências federais a reunir e liberar todo documento ligado ao caso, e criou um conselho independente de revisão, instalado em 1994, com poder para decidir o que continuava secreto e o que ia para o Arquivo Nacional.

O critério de ligação era largo. Como o programa clandestino contra Cuba entrou no acervo na condição de contexto, a pasta do Estado-Maior entrou junto. Em novembro de 1997 o memorando de 13 de março de 1962 foi liberado sem tarja.

A liberação passou quase em branco. O documento saiu no meio de milhares de páginas, sem manchete nacional, e ficou disponível por quatro anos para quem soubesse exatamente o que procurar dentro de um acervo enorme.

O megafone chegou em 2001. O jornalista James Bamford publicou Body of Secrets, livro sobre a Agência de Segurança Nacional, e dedicou páginas inteiras ao memorando, com citação direta dos itens. Uma rede de televisão americana levou o caso ao noticiário em maio daquele ano.

Em paralelo, um arquivo de pesquisa ligado a uma universidade de Washington colocou a digitalização do pacote na internet. A partir dali qualquer pessoa passou a poder baixar as páginas, ler o carimbo e conferir a assinatura.

O texto existe desde 1962. O argumento que ele sustenta hoje começou a circular em 1997, e ganhou público em 2001, quando saiu do cofre e virou arquivo para baixar.

De 2001 em diante o memorando virou citação automática em qualquer discussão de plano secreto. Falta explicar por que ele funciona tão bem como prova de coisas que não estão escritas nele.

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III  O Combustível

Os itens que nunca saíram do papel

O documento queima até hoje por um motivo incômodo: a parte que soa mais absurda é a verdadeira. O Estado-Maior Conjunto dos Estados Unidos assinou, em papel timbrado, a proposta de encenar ataques contra a própria população e atribuir cada um deles a um país estrangeiro.

O que não se sustenta é a etapa seguinte, a de que assinatura equivale a execução. Quem recebeu o papel deixou registro, com data.

A cadeia: um memorando do chefe do Estado-Maior Conjunto ao secretário de Defesa é o primeiro degrau de uma escada de aprovação, e não o último. McNamara não aprovou, não existe registro de encaminhamento à Casa Branca, e em 16 de março Kennedy disse a Lemnitzer que não haveria ação militar aberta contra Cuba. Fonte: memorando de 13 de março de 1962 e registro da reunião de 16 de março de 1962, Foreign Relations of the United States, volume sobre Cuba.

O placar: nenhum dos itens aconteceu. Não houve navio explodido na baía de Guantánamo, campanha de bombas plásticas em Miami, avião de passageiros trocado por cópia sem tripulação, nem voo fretado abatido no Caribe. A operação recebeu nome, numeração e carimbo, e parou na mesa de um civil. Fonte: o pacote liberado em 1997, que não traz ordem de execução.

O carimbo: o que 1997 mostrou não foi um plano em andamento. Foi um plano recusado dentro do mesmo prédio que o escreveu, e um sistema de arquivo que trinta e cinco anos depois publicou o próprio pior papel. Fonte: conselho de revisão de arquivos, liberação de novembro de 1997.

O uso mais comum do memorando inverte a ordem dos fatos. A primeira frase costuma ser correta: eles planejaram uma vez, e está escrito. A segunda frase é a que faz o serviço: se planejaram uma vez, aquele outro evento também foi encenação.

O salto mora entre as duas frases. Um plano recusado prova que a proposta foi feita, e prova também que existia dentro da máquina alguém com poder e disposição para dizer não.

A força do documento como munição vem de quatro coisas juntas. Ele é autêntico, tem assinatura de um general de quatro estrelas, cabe numa tela de celular e traz frases que parecem roteiro de cinema. Nenhum outro papel de arquivo reúne as quatro.

Por causa da combinação, o nome aparece hoje em discussão de 11 de setembro, de acidente aéreo, de apagão e de pandemia. É citado como se fosse resposta, quando o que ele oferece é precedente.

Precedente prova capacidade, e não autoria. A diferença entre as duas exige o trabalho que quase ninguém quer ter: nome de quem assinou, data, ordem escrita, dinheiro que saiu de um lugar e chegou em outro.

A assinatura de 13 de março de 1962 é real, e a recusa que veio depois também. O que o pacote nunca teve foi ordem de execução.

"Quantas vezes você usou um plano recusado como prova de um plano executado?"

 
 
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Em 13 de março de 1962, quem assinou o memorando que propunha encenar ataques e atribuí-los a Cuba para justificar uma invasão da ilha?

ARobert McNamara, secretário de Defesa
BLyman Lemnitzer, chefe do Estado-Maior Conjunto
CEdward Lansdale, general de brigada
DJohn Glenn, piloto do programa Mercury

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