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ED 020

O programa que colocou dois agentes dentro da Receita americana

Em 8 de julho de 1977, o FBI entrou em dois endereços da igreja em Los Angeles e em Washington e saiu com dezenas de milhares de documentos.

Agentes federais retirando caixas de documentos de um prédio, em luz de fim de tarde.

Sede da igreja em Los Angeles, julho de 1977

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Por volta das seis da manhã de 8 de julho de 1977, cerca de cento e trinta agentes federais chegaram simultaneamente a dois endereços distantes três mil quilômetros um do outro. Um deles era um complexo de prédios da Igreja de Cientologia em Los Angeles, na região de Hollywood. O outro era a sede da organização em Washington, na Second Street.

Os agentes levaram serra elétrica e marreta. Havia porta blindada, havia parede falsa e havia arquivo escondido atrás de painel de madeira. A operação durou o dia inteiro e terminou com caixas empilhadas em caminhão, algo em torno de quarenta e oito mil páginas retiradas dos dois prédios.

O material recolhido não era teológico. Eram dossiês sobre jornalistas, memorandos com nome de servidor público, cópias de documentos internos da Receita federal americana, chaves reproduzidas, credenciais de acesso e relatórios de acompanhamento de pessoas específicas, escritos em linguagem de operação, com apelido para cada alvo.

Um nome aparecia em vários daqueles papéis: Snow White. Era o título de um programa interno, com numeração de projetos, orçamento próprio e cadeia de comando. Os documentos descreviam a coleta e a remoção de arquivos de repartições do governo dos Estados Unidos por pessoas que trabalhavam para a igreja e que, em alguns casos, também trabalhavam dentro dessas repartições.

Dois anos depois, em outubro de 1979, o processo terminou com onze pessoas condenadas na Justiça americana. Entre elas estava Mary Sue Hubbard, esposa do fundador da igreja e chefe da divisão responsável pelo programa. Ela recebeu pena de prisão e multa. O fundador foi listado pela acusação como coconspirador, sem ser indiciado, e passou os anos seguintes fora de vista.

Um caso em que a documentação é abundante, oficial e produzida pelos próprios envolvidos costuma encerrar a discussão. Aqui aconteceu o contrário: a papelada abriu a discussão. Vamos ao que ela sustenta.

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I  A Conspiração do Dia

A igreja que montou um serviço de inteligência

A tese diz que a Cientologia manteve, por anos, uma estrutura de inteligência com métodos de agência estatal, capaz de infiltrar repartições federais, copiar arquivos oficiais e conduzir campanhas planejadas contra críticos individuais.

O primeiro argumento é o volume. Não se trata de um episódio isolado de alguém que copiou um papel. Os documentos apreendidos descrevem projetos numerados, com alvos nomeados, prazos, relatórios de progresso e prestação de contas a superiores.

O segundo argumento é a natureza dos alvos. Apareceram nos arquivos a Receita federal americana, o Departamento de Justiça, procuradorias federais, agências de fiscalização de alimentos e medicamentos e representações diplomáticas estrangeiras. A lista não é de adversários pessoais, é de instituições de Estado.

O terceiro argumento é o método. Havia crachá funcional obtido por emprego real, chave duplicada, uso de sala de leitura de repartição como fachada, retirada de pasta durante o expediente e devolução no dia seguinte, e um plano de fuga para o caso de alguém ser abordado por um guarda.

Uma pergunta atravessa o caso inteiro: por que uma organização religiosa precisaria de um departamento com estrutura de agência de espionagem, com codinome para cada alvo e relatório semanal de operação?

O que a tese cobra da defesa: explicar por qual motivo um programa interno de correção de arquivos públicos exigia funcionários infiltrados, cópia clandestina de documento oficial e campanha organizada contra jornalistas por nome.

Há o problema da escala institucional. A divisão responsável não era um grupo informal de fiéis exaltados. Era um setor formal da organização, com hierarquia, orçamento e uma chefia que respondia diretamente ao topo.

Há a questão dos críticos. Os arquivos incluíam material sobre autores e repórteres que haviam publicado reportagens desfavoráveis, com planos detalhados para inviabilizar a credibilidade de cada um deles perante empregadores, vizinhos e autoridades.

Há a lacuna do alcance. Ninguém sabe quanto material saiu dos prédios antes da chegada dos agentes, nem quantos projetos existiam além dos que apareceram nas caixas. O que foi apreendido é um recorte, não o arquivo completo.

E há a continuidade. A organização sustentou depois que a divisão foi extinta e que os responsáveis foram afastados. A tese responde que uma estrutura desse tamanho não nasce de improviso e pergunta o que veio antes dela.

A tese depende de o programa ter nascido com finalidade de infiltração declarada. Falta saber quem assinou a ordem inicial, e o que ela pedia por escrito.

 
 

II  A Origem

Uma ordem de 1973 e dois crachás de verdade

A origem tem data e documento. Em abril de 1973, uma ordem interna assinada pelo fundador da igreja criou o Snow White Program, com o objetivo declarado de localizar e remover, de arquivos de governos em vários países, documentos considerados falsos sobre a organização.

O primeiro fio é o diagnóstico interno. A igreja acumulava atrito com autoridades desde os anos 1960: perda de isenção fiscal nos Estados Unidos, restrição de entrada em alguns países, apreensão de equipamentos e relatórios oficiais desfavoráveis em pelo menos três continentes.

O segundo fio é a leitura que a direção fez desse atrito. A conclusão adotada internamente foi que a hostilidade vinha de dossiês errados circulando entre agências, e que apagar os dossiês resolveria o problema na raiz, sem precisar disputar cada processo.

O terceiro fio é a execução. O programa ficou sob a divisão interna encarregada de assuntos externos e jurídicos, dirigida por Mary Sue Hubbard. Ela comandava a estrutura que transformou a ordem escrita em operação de campo.

"O crime cometido por esses réus tem amplitude e alcance nunca vistos antes. Nenhum prédio, escritório, escrivaninha ou arquivo estava a salvo da bisbilhotice e da xeretagem deles."

Memorando de sentença do Departamento de Justiça dos Estados Unidos no caso United States v. Mary Sue Hubbard et al., 1979.

O quarto fio é o par de agentes. Dois nomes concentram a operação em Washington: Gerald Wolfe, que conseguiu emprego regular na Receita federal americana e com ele um crachá legítimo, e Michael Meisner, que coordenava a operação e entrava nos prédios acompanhando o colega.

O quinto fio é a rotina. Os dois retiravam pastas de escritórios federais, fotocopiavam à noite em máquinas alugadas e devolviam o original no lugar. Chegaram a fabricar credencial adicional e a copiar chave de sala de reunião do Departamento de Justiça.

A queda veio de uma abordagem banal. Em junho de 1976, um guarda estranhou a presença dos dois numa biblioteca de tribunal fora do horário. A checagem posterior levou a um mandado, e o mandado levou aos endereços da igreja um ano depois.

O detalhe que mudou o caso foi humano. Michael Meisner passou meses escondido pela própria organização, cansou do arranjo, se entregou às autoridades em 1977 e virou testemunha. Foi o depoimento dele que sustentou o mandado de busca.

Falta a parte que mantém a teoria viva mesmo com onze condenações e arquivo público, e ela tem menos a ver com segredo do que parece.

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III  O Combustível

O que 48 mil documentos deixam em aberto

A tese resiste porque a base dela não é boato. O programa existiu, o nome é oficial, a ordem interna é datada, os agentes infiltrados foram identificados, o material foi apreendido com mandado e onze pessoas foram condenadas em tribunal federal.

O que exige cuidado é o salto seguinte, o de tratar o caso como prova de uma rede permanente de espionagem em funcionamento até hoje. A conclusão firme cabe numa linha: existe registro judicial de infiltração em repartições americanas nos anos 1970, e não existe registro equivalente para os anos seguintes.

O que está documentado: a ordem de 1973, os alvos federais, os dois agentes infiltrados, a data das buscas, o volume apreendido, a lista de condenados e a pena aplicada a cada um.

O que a defesa da tese sustenta: que uma organização capaz de montar essa estrutura uma vez preservou a competência de montá-la de novo, com outro nome e sem deixar arquivo em papel.

O que continua em disputa: o quanto o topo da organização sabia da operação de campo, e se o encerramento da divisão foi desmonte real ou troca de placa.

Os números que costumam circular no assunto, com a origem de cada um:

·  Ordem que criou o programa: abril de 1973
·  Buscas do FBI: 8 de julho de 1977, Los Angeles e Washington
·  Documentos apreendidos: cerca de 48 mil páginas
·  Condenados no processo federal: 11 pessoas, em outubro de 1979
·  Pena inicial de Mary Sue Hubbard: prisão e multa de 10 mil dólares

O ponto mais frágil da versão popular é a extrapolação temporal. Um arquivo de 1977 descreve 1977. Toda vez que um episódio recente é explicado por Snow White, a explicação usa a reputação do caso antigo no lugar de evidência do caso novo.

Há também a confusão entre ordem e execução. A ordem escrita pedia remoção de documentos falsos, o que é ambíguo o bastante para caber tanto num pedido administrativo quanto num arrombamento. Quem executou escolheu a segunda leitura, e a diferença entre as duas é exatamente o que o tribunal julgou.

E existe o efeito do próprio arquivo. Como o material apreendido é público, qualquer pessoa pode ler trechos reais de operação com codinome e alvo nomeado. Documento verdadeiro na mão dá à especulação seguinte uma textura que ela não teria sozinha.

Então por que a teoria continua crescendo mesmo com o processo encerrado há décadas? Porque o caso já entregou a parte mais difícil de acreditar. Depois que um tribunal confirma que existiram agentes infiltrados numa repartição federal, tudo que vier depois soa plausível por comparação.

Snow White é o caso raro em que a versão oficial é mais pesada do que o boato que a acompanha. O que ele não entrega, e é o que a teoria vive de preencher, é o que aconteceu com a competência depois que a estrutura foi desativada.

"Quando o arquivo oficial confirma o pior, o que sobra para a suspeita fazer?"

 
 
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Qual dos dois agentes infiltrados na Receita federal americana se entregou às autoridades em 1977 e virou testemunha, sustentando o mandado de busca?

AGerald Wolfe
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CMary Sue Hubbard
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