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A teoria caiu num mercado preparado pra recebê-la. Em outubro de 1969 os Beatles não subiam num palco havia três anos e quase não davam entrevista. O silêncio deixou um espaço vazio, ocupado por quem vive de vender tempo de antena.
A primeira fatura foi de rádio. Em 19 de outubro a WKNR-FM colocou no ar um especial de uma hora sobre o caso, com Russ Gibb e dois colegas enfileirando as pistas uma a uma. Assunto que prende ouvinte no domingo vale ponto de audiência, e audiência vale tabela de anúncio.
A segunda fatura foi de loja de disco. O catálogo antigo voltou pra vitrine com função de prova: quem quisesse ver a mão aberta sobre a cabeça precisava do Sgt. Pepper's em casa. Magical Mystery Tour, lançado dois anos antes, reapareceu nas paradas americanas em novembro de 1969.
Depois vieram os produtos de ocasião: botons, revistas de banca dedicadas ao caso e compactos gravados às pressas, um deles creditado a um conjunto batizado com o apelido do substituto.
O ponto alto foi na televisão. No fim de 1969, o advogado F. Lee Bailey apresentou um especial em formato de julgamento, com depoimento dos dois lados e nenhuma conclusão. LaBour contou depois que avisou Bailey, antes da gravação, que tinha inventado as pistas, e ouviu que havia uma hora de programa pra preencher.
A economia depende de a pergunta ficar aberta. Quem entrega a resposta perde o produto, e o formato segue o mesmo: enfileirar as anomalias, adiar o desfecho e marcar o próximo capítulo.
A evidência que encerrou o caso não veio de comunicado de gravadora, e sim de uma repórter que pegou a estrada.
A visita: em novembro de 1969 a revista Life mandou a repórter Dorothy Bacon e o fotógrafo Terence Spencer até a fazenda de Paul perto de Campbeltown, na Escócia. Ele recebeu a dupla com um balde de água e depois negociou: uma foto de família e uma entrevista em troca do filme. A edição de 7 de novembro saiu com ele na capa, vivo, ao lado da mulher e das filhas. Fonte: revista Life, 7 de novembro de 1969.
As pistas: cada item da lista tem explicação simples e conferível. O Fusca era de um morador do prédio em frente e estava ali por acaso; Paul tinha 27 anos quando o disco saiu, e não 28. O brasão do uniforme de Sgt. Pepper's é de uma corporação policial canadense. O resmungo no fim de Strawberry Fields Forever é John dizendo cranberry sauce, registrado nas fitas de estúdio. Fonte: as sessões da coletânea Anthology e o registro do veículo, hoje num museu na Alemanha.
O autor: Fred LaBour nunca defendeu a própria lista. Ele repetiu em entrevista, por cinquenta anos, que montou as pistas como brincadeira de resenha e ficou assustado com o tamanho que ela tomou. Quem organizou a teoria num texto é também quem sempre disse de onde ela saiu. Fonte: entrevistas de LaBour à imprensa americana.
Nenhuma das três depende da palavra de um integrante da banda. Uma repórter na Escócia, um registro de veículo e a confissão de quem escreveu a lista contam a mesma história.
A capa só virou funeral depois que uma voz no rádio disse onde procurar o caixão.
"Quantas pistas você já viu numa foto depois que alguém disse onde procurar?"
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