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Conspiração do Dia   Conspiração do Dia
ED 041

100% escolheram Tempo fantasma de Illig. Já saiu na edição 040.

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O sumiço de William Morgan e o corpo do lago Ontário

Em 1826, um pedreiro de Batavia anunciou um livro com os rituais da maçonaria e desapareceu; um ano depois, um corpo chegou à margem do lago.

Forte de pedra na boca de um rio, ao anoitecer, visto da margem do lago.

Fort Niagara, o último endereço conhecido

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"Notice and Caution", Aviso e advertência, foi o título do pequeno item que o jornal Ontario Repository, de Canandaigua, no estado de Nova York, imprimiu em 9 de agosto de 1826, alertando os leitores de que, se um homem que se dizia chamar William Morgan aparecesse por ali, a comunidade deveria ficar de sobreaviso.

O aviso circulou reimpresso por jornais vizinhos nas semanas seguintes. Morgan, pedreiro de ofício, veterano que dizia ter servido na guerra de 1812 e morador de Batavia, tinha acabado de fechar contrato para publicar um livro que prometia imprimir, palavra por palavra, os juramentos e os gestos dos três primeiros graus da maçonaria.

O editor do livro era David Cade Miller, dono do jornal Republican Advocate, de Batavia. A oficina de Miller sofreu uma tentativa de incêndio em setembro de 1826, e o próprio Miller foi preso por dívida e solto poucas horas depois, com os originais já em composição.

Em 11 de setembro de 1826, Morgan foi levado de Batavia a Canandaigua por uma ordem de prisão por furto de uma camisa e uma gravata. Absolvido dessa acusação, foi mantido preso ali por uma dívida de dois dólares e sessenta e nove centavos numa taverna.

Na noite de 12 de setembro, alguém pagou a dívida e pediu a soltura dele. Morgan saiu da cadeia de Canandaigua e foi posto à força numa carruagem fechada, que cruzou o oeste do estado de Nova York durante a madrugada, trocando de cavalos em paradas combinadas, rumo ao norte.

O destino era Fort Niagara, forte de pedra do Exército americano na boca do rio Niágara, onde o rio encontra o lago Ontário. Morgan foi trancado no paiol de pólvora desativado do forte, e o registro documental confiável sobre ele termina por volta de 14 de setembro de 1826.

Treze meses depois, um corpo chegou à margem do lago Ontário, na foz do riacho Oak Orchard, a cerca de sessenta quilômetros do forte. Quem ele era passou a valer votos, e um editor de jornal entendeu isso antes de todo mundo.

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I  A Conspiração do Dia

O pedreiro que anunciou o livro proibido

A acusação é que uma parte da maçonaria do oeste de Nova York organizou o sequestro de William Morgan para impedir a publicação do livro dele, e que o crime seguiu impune porque juízes, xerifes e jurados da região pertenciam às mesmas lojas.

William Morgan tinha cerca de cinquenta e dois anos em 1826, vivia de assentar tijolo e frequentava reuniões maçônicas na região. Quando a loja de Batavia se organizou para receber carta patente, o nome dele ficou de fora da lista de fundadores, e o ressentimento com a recusa aparece em quase toda reconstrução do caso.

O livro se chamava "Illustrations of Masonry", Ilustrações da maçonaria. Miller anunciou a obra no próprio jornal, o que transformou um manuscrito privado em ameaça pública anunciada com antecedência.

O que o livro prometia não era denúncia de crime. Era a transcrição da liturgia: as perguntas de reconhecimento, a posição dos pés, o toque de mão e as fórmulas de juramento que o candidato repetia de olhos vendados nos graus de Aprendiz, Companheiro e Mestre.

"binding myself under no less penalty than that of having my throat cut across"

Obrigando-me sob pena de ter a garganta cortada de lado a lado. William Morgan, "Illustrations of Masonry", Batavia, Nova York, 1826.

A sequência do sequestro foi reconstruída em juízo com nomes e funções. Nicholas Chesebro, mestre da loja de Canandaigua, foi quem apresentou a queixa da dívida. Loton Lawson conduziu Morgan para fora da cadeia. Edward Sawyer e John Sheldon completaram o grupo que o pôs na carruagem.

Os quatro foram julgados em 1827 e condenados por sequestro, delito leve na lei estadual da época. Chesebro pegou um ano de prisão, Lawson dois anos, Sheldon três meses e Sawyer um mês. Nenhum deles foi condenado por qualquer crime mais grave, porque não havia corpo comprovadamente identificado nem confissão aceita em juízo.

DeWitt Clinton, governador de Nova York e maçom de grau elevado, assinou proclamações oferecendo até mil dólares de recompensa por informação sobre o paradeiro de Morgan, e a legislatura estadual nomeou promotores especiais para o caso.

Mais de vinte processos correram no oeste do estado, com testemunhas que se recusaram a depor, júris travados e indiciados fugidos para o Canadá. Onde o corpo de Morgan foi parar continua sem resposta documental: ele nunca foi localizado nem sepultado sob o próprio nome.

O que aconteceu no forte permanece em disputa. A versão mais citada vem de John Whitney, um dos envolvidos, que em 1848 contou ao maçom e escritor Robert Morris que Morgan teria sido levado de barco e lançado ao rio com pesos, relato tornado público décadas depois e nunca corroborado.

O corpo que apareceu treze meses depois passou por três inquéritos, e cada um deu uma resposta diferente sobre quem era aquele homem.

 
 

II  A Origem

De onde veio o corpo do lago

A origem da frase famosa está numa disputa de identificação: um cadáver encontrado na margem do lago Ontário em outubro de 1827 foi examinado três vezes, recebeu dois nomes diferentes e chegou à imprensa em plena campanha eleitoral de novembro.

Em 7 de outubro de 1827, moradores acharam um corpo encalhado na foz do riacho Oak Orchard, no condado de Orleans. O primeiro inquérito do legista, feito ali mesmo, concluiu que se tratava de um desconhecido e mandou enterrar.

Semanas depois, com a pressão política crescendo, o corpo foi desenterrado para um segundo exame. Lucinda Morgan, esposa de William Morgan, foi levada para ver o cadáver e apontou semelhanças na altura e na dentição, e o segundo inquérito registrou que aquele era Morgan.

Um terceiro exame foi aberto quando Sarah Munro, esposa de Timothy Munro, chegou de Clarke, no Canadá, dizendo que o marido tinha se afogado no lago em setembro de 1827. Ela descreveu roupa por roupa o que o marido vestia ao sair de casa, incluindo peças costuradas por ela.

As roupas conferiram com as do cadáver. O cabelo do corpo tinha comprimento e cor que não combinavam com o de Morgan, e o terceiro inquérito, no fim de outubro de 1827, declarou o corpo como sendo de Timothy Munro, entregando-o à viúva para sepultamento.

Entre o segundo e o terceiro exame corria a campanha estadual de novembro de 1827, com o caso Morgan como assunto central da disputa no oeste de Nova York. Thurlow Weed, então editor do jornal Anti-Masonic Enquirer, de Rochester, ficou associado para sempre à explicação cínica de que aquele cadáver era um Morgan bom o bastante até a eleição passar.

Weed negou a autoria pelo resto da vida. Ele sustentou que a frase tinha sido dita por outra pessoa numa conversa, e que os adversários a colaram nele; a versão que atribui a fala a Weed ficou registrada na imprensa da época e prevaleceu na memória pública.

O que se sabe com segurança: o corpo do lago era de Timothy Munro, marinheiro afogado, e não de William Morgan. O que ficou sem documento é se alguém manipulou o segundo inquérito de propósito ou se a identificação errada nasceu do desejo de uma viúva angustiada diante de um cadáver em decomposição.

A confusão de identidade não esfriou o assunto. Ela fez o contrário, porque deu à indignação popular uma imagem concreta para carregar, e a última seção mostra o que essa indignação construiu.

 

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III  O Combustível

O partido que nasceu do sumiço

O primeiro combustível é aritmético e local. As lojas maçônicas do oeste de Nova York reuniam justamente os homens que ocupavam os cargos de xerife, juiz de paz, escrivão e legista, e um processo criminal contra irmãos de loja passava por essas mesmas mãos em cada etapa.

O segundo combustível é religioso. A região era conhecida como "Burned-over District", Distrito Queimado, apelido dado ao corredor do interior de Nova York onde os avivamentos protestantes se sucediam com tal intensidade que se dizia não sobrar mais combustível espiritual para queimar. Pastores locais passaram a pregar contra os juramentos secretos.

O terceiro combustível é editorial. O livro que Morgan queria publicar saiu mesmo assim, em outubro de 1826, e vendeu em edições sucessivas por todo o país. O sequestro funcionou como campanha de divulgação involuntária do conteúdo que pretendia enterrar.

O quarto combustível é eleitoral. Comitês de cidadãos se organizaram em 1827 para eleger candidatos que se comprometessem a investigar o caso, e desses comitês saiu o Partido Antimaçônico, a primeira legenda de terceira via relevante da história dos Estados Unidos.

O Partido Antimaçônico realizou em Baltimore, em setembro de 1831, a primeira convenção nacional de delegados para escolher um candidato à presidência, formato que os dois grandes partidos americanos copiaram na sequência e usam até hoje. O escolhido foi William Wirt, ex-procurador-geral, que na eleição de 1832 venceu no estado de Vermont e levou sete votos no colégio eleitoral.

O historiador William Preston Vaughn, em "The Antimasonic Party in the United States, 1826-1843" (University Press of Kentucky, 1983), documenta o efeito sobre a instituição visada: lojas fecharam às centenas no nordeste americano, membros renunciaram em massa e a maçonaria dos estados do norte levou décadas para recuperar o tamanho que tinha antes de 1826.

O que o caso estabeleceu: William Morgan foi sequestrado por um grupo identificado de maçons, levado a Fort Niagara e nunca mais apareceu, e quatro homens foram condenados por sequestro em tribunal do estado de Nova York.

O que ficou sem resposta: não existe corpo, sentença por homicídio nem confissão validada judicialmente que estabeleça como Morgan terminou. O relato de John Whitney sobre o afogamento no rio é a versão mais detalhada que circula, e segue sem qualquer prova material que a sustente.

A versão ampliada que circula hoje transforma o episódio em prova de controle maçônico sobre o governo americano. O caso real opera em escala menor e mais incômoda: uma rede de conhecidos de uma região sumiu com um vizinho e travou vinte processos sem ordem vinda de cima.

O sumiço de William Morgan é o caso em que um livro de ritual virou sequestro, um afogado anônimo virou defunto útil e um crime local sem solução fundou um partido nacional. A lição prática: quando a identificação de um corpo é conveniente para alguém, o exame vale menos que o calendário de quem examina.

"Quanto tempo um nome errado precisa durar para fazer efeito?"

Confira sozinho, em três buscas:
o dia de setembro de 1826 em que Morgan saiu da cadeia de Canandaigua e o nome do forte para onde foi levado;
o nome do homem que o terceiro inquérito de outubro de 1827 reconheceu no corpo do lago Ontário;
a cidade e o ano da primeira convenção nacional do Partido Antimaçônico e quantos votos eleitorais William Wirt obteve.

 
 
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Quiz da edição

Depois de ser absolvido da acusação de furto de uma camisa e uma gravata, por que motivo William Morgan continuou preso na cadeia de Canandaigua até a noite de 12 de setembro de 1826?

AUma dívida de dois dólares e sessenta e nove centavos numa taverna
BUma multa por perturbação da ordem pública
CUma dívida com o editor David Cade Miller
DUma ordem de prisão por difamação contra a loja maçônica

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