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O Taj Mahal e o templo hindu do livro de 1965

Em 1965, P. N. Oak chamou o mausoléu de templo de Shiva. Em 2017, o serviço arqueológico da Índia disse a um tribunal: é um túmulo.

Cúpula de mármore branco do Taj Mahal, em Agra

O mausoléu de Agra e o templo do livro

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O jornal indiano Hindustan Times publicou em agosto de 2017 a manchete “Taj Mahal is a tomb, not a temple, ASI tells Agra court” (O Taj Mahal é um túmulo, não um templo, diz o ASI ao tribunal de Agra). ASI é a sigla do Archaeological Survey of India, o serviço arqueológico do governo indiano, responsável pela guarda do monumento.

A resposta atendia a um processo aberto em abril de 2015 num tribunal civil de Agra, a cidade do mausoléu. Seis advogados pediam ao juiz que declarasse o prédio um templo de Shiva, o deus hindu da destruição e da renovação, e liberasse o culto hindu lá dentro.

O documento do ASI foi curto. Afirmou que o Taj Mahal é o túmulo de Mumtaz Mahal, mulher do imperador mogol Shah Jahan, e que não existe registro de templo no terreno. O serviço pediu ao juiz que rejeitasse a ação.

O governo já tinha dito o mesmo ao Parlamento. Em novembro de 2015, o ministro da Cultura, Mahesh Sharma, respondeu na Lok Sabha (a câmara baixa do Parlamento indiano) que o ministério não encontrou indício de templo no lugar.

Nenhuma das duas respostas encerrou a disputa. Ela voltou em 2022, num tribunal de Lucknow, com um pedido para abrir as salas lacradas sob o terraço de mármore.

O mausoléu de Agra estampa cartão-postal, embalagem de chá e capa de guia de viagem no mundo inteiro. Mesmo assim, uma parte dos indianos acredita que a obra esconde outra, mais antiga, embaixo do piso, e que o governo guarda a chave.

Os advogados de 2015 não criaram a tese. Eles repetiam, quase ponto por ponto, um livro publicado meio século antes por um autor sem formação de historiador, que dedicou a vida a provar que os monumentos islâmicos da Índia tinham dono hindu.

A tese tem nome de templo, data de fundação, rei construtor e até um endereço para as provas: o subsolo. Ela começa na capa desse livro.

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I  A Conspiração do Dia

O templo de Tejo Mahalaya

A resposta de ontem

Qual app mandava o vídeo da tela do usuário para outra empresa?

O GoPuff, aplicativo americano de entrega rápida de mercado. O estudo da Northeastern University, de 2018, mostrou que ele gravava a tela e enviava o vídeo à Appsee, empresa de análise de uso de aplicativos. Depois da divulgação, o GoPuff passou a citar a prática na política de privacidade, e a Appsee acabou comprada pela ServiceNow em 2019.

Em 1965, o escritor indiano Purushottam Nagesh Oak, conhecido como P. N. Oak, publicou o livro “Taj Mahal Was a Rajput Palace” (O Taj Mahal era um palácio rajput). Rajput é o nome das linhagens guerreiras hindus que governaram boa parte do norte da Índia antes dos mogóis.

A tese do livro cabe em três frases. O prédio seria um templo de Shiva chamado Tejo Mahalaya (o grande palácio de Tejo, nome que Oak ligava ao Tejolinga, um símbolo do deus). Teria sido erguido séculos antes de Shah Jahan. E o imperador só teria tomado o edifício, coberto os símbolos hindus e enterrado a mulher ali.

Oak deu ao templo um fundador. Segundo o livro, um rei hindu chamado Paramardi Dev teria mandado construir a obra em 1155, e a prova estaria numa inscrição em sânscrito achada em Bateshwar, vilarejo perto de Agra.

Oak nunca apresentou planta, registro de obra ou documento de posse do suposto templo de Tejo Mahalaya.

Os indícios do livro

O livro junta argumentos de arquitetura. O remate de metal no alto da cúpula seria um kalash (o pote sagrado que coroa os templos hindus), as flores de lótus gravadas no mármore seriam símbolo hindu e a planta em octógono, de oito lados, seria típica dos santuários de Shiva.

Outro argumento é o nome. Para Oak, a palavra Mahal (palácio) não serviria para um túmulo, e só faria sentido como resto de um nome hindu antigo.

Os historiadores rebatem ponto a ponto. Lótus, cúpula dupla e planta octogonal aparecem em túmulos mogóis anteriores, como o do imperador Humayun, em Délhi, terminado por volta de 1570. E o nome Taj Mahal vem de Mumtaz Mahal (a eleita do palácio), o título da imperatriz enterrada ali.

A inscrição de Bateshwar também tem outra leitura. O texto fala de um templo de Shiva em mármore branco, mas não cita Agra nem o terreno às margens do rio, e a pedra fica hoje no Museu Estadual de Lucknow.

As salas do subsolo

A peça que mais circula é o subsolo. Sob o terraço de mármore existe uma fileira de salas fechadas ao público, e a tese diz que nelas estariam ídolos hindus e inscrições escondidas por ordem do governo.

Em 2022, Rajneesh Singh, dirigente do partido BJP em Ayodhya, pediu ao Tribunal Superior de Allahabad, na sede de Lucknow, que mandasse abrir 22 dessas salas e nomeasse uma comissão para examinar o que havia dentro.

Os juízes rejeitaram o pedido em maio de 2022 e mandaram o autor estudar antes de voltar à corte.

“Vá pesquisar. Faça mestrado, faça doutorado, e se alguma instituição não deixar você pesquisar o tema, venha até nós.” (Tribunal Superior de Allahabad, decisão sobre as salas do Taj Mahal, 2022)

Dias depois, o ASI publicou fotos das salas no seu boletim on-line. As imagens mostravam corredores vazios, paredes caiadas e trabalho recente de restauro na argamassa, sem ídolo e sem inscrição.

 
 

II  A Origem

O instituto que reescrevia a Índia

Purushottam Nagesh Oak nasceu em 1917, em Indore, no centro da Índia. Formou-se em direito, serviu no Exército Nacional Indiano, a tropa de Subhas Chandra Bose que lutou contra os britânicos ao lado do Japão, e depois trabalhou como jornalista e funcionário do governo.

Em 1964, Oak fundou em Nova Délhi o Institute for Rewriting Indian History (Instituto para Reescrever a História Indiana). O nome anunciava o programa: a história oficial do país, para ele, tinha sido escrita por invasores muçulmanos e colonizadores britânicos.

O Taj Mahal foi só um dos alvos. Oak escreveu que a Caaba, em Meca, a Abadia de Westminster, em Londres, e o Vaticano tinham sido templos hindus, e que o cristianismo nasceu do culto a Krishna.

Em 2000, o Supremo Tribunal da Índia rejeitou a petição de P. N. Oak para declarar que um rei hindu construiu o Taj Mahal.

Os juízes escreveram que o autor tinha “a bee in his bonnet” (uma abelha no chapéu, expressão inglesa para ideia fixa). Oak viveu até 2007, em Pune, sem obter nenhuma decisão judicial a favor da tese.

A troca do terreno

A história documentada do mausoléu começa em 1631. Mumtaz Mahal, mulher de Shah Jahan, não sobreviveu ao parto do 14º filho do casal, em Burhanpur, onde acompanhava o marido numa campanha militar.

O imperador escolheu para o túmulo um terreno às margens do rio Yamuna, em Agra, que pertencia ao rajá hindu Jai Singh I, de Amber. Em troca, deu a ele quatro havelis (casarões urbanos) da cidade.

A troca ficou registrada num farman (decreto imperial) de 1633, guardado no acervo do Museu do Palácio da Cidade, em Jaipur. É o documento que a tese de Oak lê ao contrário: para ele, o terreno já trazia um palácio pronto.

O farman fala de terreno e de casarões, sem citar templo. A crônica oficial do reinado, o Padshahnama (Livro do Imperador), escrita por Abdul Hamid Lahori, descreve a escolha do lugar e o começo da obra logo depois da perda da imperatriz.

A obra nos registros

Os registros da corte citam o arquiteto-chefe, Ustad Ahmad Lahori, e milhares de operários vindos de várias partes do império. O túmulo ficou pronto por volta de 1643, e o conjunto inteiro, com jardins, mesquita e casa de hóspedes, em 1653.

O corpo de Mumtaz Mahal passou por uma sepultura provisória em Burhanpur antes de chegar a Agra, em 1632. A cripta com os dois túmulos reais, o dela e o de Shah Jahan, fica sob a câmara principal, e os túmulos de cima são cenotáfios (túmulos vazios, só de homenagem).

As salas lacradas sob o terraço fazem parte dessa mesma estrutura de sustentação. O ASI as fecha para proteger a base do prédio e controlar a circulação de visitantes, e nunca registrou nelas material anterior ao século 17.

 

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III  O Combustível

O mausoléu no palanque

A tese de Oak viveu décadas nas margens, em folhetos e fóruns. Ela ganhou fôlego quando entrou no discurso do nacionalismo hindu, a corrente política que trata a Índia como nação dos hindus antes de tudo.

Em outubro de 2017, o deputado estadual Sangeet Som, do BJP de Uttar Pradesh, disse num comício que o Taj Mahal era uma mancha na cultura indiana, erguido por um traidor. No mesmo mês, o parlamentar Vinay Katiyar, do mesmo partido, repetiu que o prédio era o templo Tejo Mahalaya.

Semanas antes, um folheto de turismo do governo de Uttar Pradesh tinha deixado o Taj Mahal fora da lista de atrações do estado. Depois da reação, o chefe do governo estadual, Yogi Adityanath, visitou o mausoléu e varreu o pátio do portão oeste diante das câmeras.

A negação do ASI saiu em 2017, o mesmo ano em que políticos do partido do governo repetiam a tese em público.

Por que a ideia pega

A tese oferece uma reparação. Para quem vê a era mogol como ocupação estrangeira, transformar o monumento mais famoso do país em obra hindu devolve o prédio à própria história.

Ela também se apoia num precedente concreto. Em 1992, uma multidão derrubou a mesquita Babri, em Ayodhya, sob o argumento de que ela fora erguida sobre um templo de Rama, e em 2019 o Supremo Tribunal entregou o terreno para a construção de um templo hindu. Para quem acredita no Tejo Mahalaya, Ayodhya mostra que esse tipo de reivindicação pode vencer.

As salas lacradas fazem o resto. Porta trancada convida a imaginar, e a explicação do ASI, de proteção da estrutura, soa burocrática diante da promessa de um segredo.

O que está à vista

Os documentos centrais do caso existem e foram publicados. O farman de 1633 está no acervo de Jaipur, o Padshahnama tem tradução para o inglês e as fotos das salas de 2022 seguem no arquivo do ASI.

Nenhum deles mostra templo, ídolo ou inscrição hindu dentro do mausoléu. O que eles mostram é uma troca de terreno, uma obra de duas décadas e uma cripta com dois túmulos.

Confira sozinho, em 3 passos:

• o farman de 1633 da troca do terreno com Jai Singh I, no Museu do Palácio da Cidade, em Jaipur;

• as fotos das salas do subsolo, publicadas pelo ASI em maio de 2022;

• a decisão do Tribunal Superior de Allahabad, de maio de 2022, que recusou abrir as 22 salas.

 
 
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Quantas salas lacradas sob o terraço de mármore o dirigente do BJP Rajneesh Singh pediu para abrir, em 2022?

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