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O tiro de 1758 contra o rei José I

Pombal transformou uma emboscada noturna no processo que quebrou a família Távora. Em 1781, a rainha Maria I mandou rever a sentença.

Carruagem real atacada à noite numa estrada perto de Lisboa

Emboscada contra José I, setembro de 1758

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A Junta da Inconfidência assinou em Lisboa, em 12 de janeiro de 1759, a sentença que chamava o crime dos réus de “lesa-majestade de primeira cabeça” (traição contra o rei no grau mais alto). O papel tinha a família Távora no centro, uma das casas mais antigas da nobreza portuguesa.

A execução aconteceu na manhã seguinte, num cadafalso de madeira montado em Belém, à beira do Tejo. Soldados cercaram a praça antes do amanhecer, e uma multidão de lisboetas veio assistir.

A primeira a subir foi Leonor Tomásia de Távora, a marquesa velha, com 58 anos. O carrasco a decapitou diante do público. Depois vieram o marido, Francisco de Assis de Távora, e os dois filhos do casal, Luís Bernardo e José Maria.

O duque de Aveiro, José de Mascarenhas, recebeu a pena mais dura entre os nobres. Teve os ossos quebrados na roda (instrumento de suplício em que o condenado era amarrado e golpeado com uma barra) antes do golpe final. O conde de Atouguia, genro dos marqueses, passou pelo mesmo suplício.

Criados da casa de Aveiro também subiram ao cadafalso. Um deles, António Ferreira, acabou queimado vivo. Terminadas as execuções, o cadafalso inteiro foi incendiado e as cinzas foram jogadas no rio.

Nenhum dos nobres teve defesa pública. O processo correu em segredo por pouco mais de um mês, conduzido por um tribunal criado só para o caso, com juízes escolhidos pelo governo.

Acima do tribunal estava Sebastião José de Carvalho e Melo, secretário de Estado do rei José I e futuro marquês de Pombal. Ele já comandava o reino desde a reconstrução de Lisboa, depois do terremoto de 1755.

A sentença dizia punir um atentado contra o rei. Para entender por que tanta gente desconfiou dela, desde aquele inverno até hoje, é preciso voltar quatro meses, a uma estrada escura perto da Ajuda.

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I  A Conspiração do Dia

A carruagem da noite de 3 de setembro

Na noite de 3 de setembro de 1758, o rei José I de Portugal voltava ao palácio numa carruagem sem escolta e sem brasão. Perto da Quinta do Meio, entre a Ajuda e Belém, homens a cavalo saíram do escuro e dispararam contra o veículo.

O cocheiro, Custódio da Costa, chicoteou os animais e mudou de rumo. Em lugar de seguir para o palácio, levou o rei direto à casa do cirurgião da corte. José I tinha ferimentos de chumbo no ombro e no braço direito.

A corte guardou silêncio por semanas. A rainha Mariana Vitória assinou os despachos do governo enquanto o marido se recuperava, e Lisboa preencheu o vazio com boatos.

O rei andava de noite sem guarda por um motivo conhecido nos salões. José I visitava Teresa Leonor de Távora, a marquesa nova, nora da marquesa velha e casada com Luís Bernardo. O caso amoroso dava aos Távora um motivo de ofensa, e dava ao governo um motivo para suspeitar deles.

A tese da armação

A versão oficial, montada por Carvalho e Melo, dizia que os Távora e o duque de Aveiro, ofendidos com o caso do rei e com a perda de prestígio na corte, tramaram a emboscada com o apoio de padres jesuítas.

A versão contrária sustenta que o ministro aproveitou o ataque, ou até o fabricou, para quebrar a alta nobreza que o desprezava como fidalgo menor. O duque de Aveiro era o maior rival dele no palácio e já tinha perdido cargos e favores para o secretário de Estado.

Os tiros de 3 de setembro deram a Carvalho e Melo um motivo legal para julgar a família mais antiga do reino.

Uma terceira leitura junta as duas. Pode ter havido um atentado real, talvez obra do duque de Aveiro e de seus criados, e o ministro estendeu a culpa aos Távora sem prova. Nessa versão, a emboscada existiu e o processo também foi armado.

As provas do processo

As prisões vieram na madrugada de 13 de dezembro, três meses depois dos tiros. Os acusados foram interrogados sob tormento (a tortura judicial prevista nas leis da época), e as confissões saíram dessas sessões.

Nenhuma testemunha independente identificou os cavaleiros da estrada. O marquês Francisco de Assis negou a participação até subir ao cadafalso. As provas contra ele vinham de depoimentos de outros presos, tomados sob tormento.

O que aconteceu na estrada da Ajuda segue sem resposta definitiva. Os autos sobreviveram, mas registram só a versão da acusação, e nenhum documento de fora do processo aponta quem estava a cavalo naquela noite.

 
 

II  A Origem

O ministro contra os fidalgos

Sebastião José de Carvalho e Melo nasceu em Lisboa em 1699, numa família da pequena nobreza. Passou anos como diplomata em Londres e em Viena antes de entrar no governo em 1750, quando José I subiu ao trono.

A alta nobreza o tratava como arrivista (alguém que subiu sem berço). Casas como Távora, Aveiro e Atouguia ocupavam postos de comando havia séculos e tinham acesso direto ao rei, sem passar pelo secretário.

O terremoto de 1755, no feriado de Todos os Santos, mudou a balança. Carvalho e Melo comandou a resposta: enterro rápido das vítimas, controle do preço do pão e o plano de uma Baixa nova, com ruas retas e prédios de estrutura antissísmica.

Depois do terremoto de 1755, José I entregou o governo ao ministro que reconstruiu Lisboa.

Os jesuítas na mira

Os padres da Companhia de Jesus eram o outro alvo. Tinham colégios, fazendas no Brasil e confessores dentro do palácio. Carvalho e Melo os culpava pela resistência nas missões do sul do Brasil, depois do Tratado de Madri, de 1750.

O processo dos Távora deu o pretexto. A sentença ligou os nobres a padres jesuítas, e uma lei de 3 de setembro de 1759, um ano exato depois dos tiros, expulsou a ordem de Portugal e das colônias.

O jesuíta italiano Gabriel Malagrida, pregador famoso em Lisboa, tinha dito em público que o terremoto era castigo divino. Preso depois do atentado, foi entregue à Inquisição, julgado por heresia e queimado no Rossio em 21 de setembro de 1761.

O filósofo francês Voltaire comentou o caso no “Précis du siècle de Louis XV” (Resumo do século de Luís XV), de 1768. Para ele, a execução do padre juntou “o excesso do ridículo e do absurdo ao excesso do horror”.

O título que veio depois

O ministro saiu do processo mais forte. Recebeu o título de conde de Oeiras em 1759 e, dez anos depois, o de marquês de Pombal, a forma pela qual a história o guardou.

Os Távora sobreviventes foram trancados em fortes e conventos. Os filhos menores dos condenados cresceram presos, longe da corte. O governo mandou apagar o brasão da família dos edifícios e dos documentos oficiais.

A casa dos Távora deixou de existir no papel. As terras foram confiscadas pela Coroa, e quem carregava o sobrenome evitava usá-lo em público durante o governo de Pombal.

 

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III  O Combustível

A rainha reabre os autos

José I faleceu em 24 de fevereiro de 1777. A filha mais velha, Maria I, subiu ao trono e, em poucas semanas, afastou Pombal do governo e mandou abrir as prisões políticas.

Centenas de presos saíram dos cárceres naquele ano, entre eles parentes dos Távora que tinham passado quase duas décadas no forte da Junqueira, à beira do Tejo.

Os sobreviventes pediram a revisão da sentença de 1759. Maria I nomeou uma junta de juízes para reexaminar os autos, com acesso aos depoimentos originais e às atas do tribunal de exceção.

Em 1781, a junta de revisão nomeada por Maria I declarou inocentes os Távora executados em Belém.

A decisão devolveu à família a honra e os títulos. A culpa do duque de Aveiro ficou fora da absolvição: os juízes trataram dos Távora, e o papel do duque na emboscada seguiu sem julgamento novo.

O julgamento de Pombal

O antigo ministro também respondeu a processo. Interrogado na vila de Pombal a partir de 1779, foi considerado culpado de abusos de poder, mas a rainha o poupou da pena por causa da idade, num decreto de agosto de 1781.

Pombal faleceu em 8 de maio de 1782, aos 82 anos, na vila que lhe dava o título. Nunca admitiu ter fabricado o caso, e os papéis dele defendem a sentença até o último dia.

O que ficou em Belém

O palácio do duque de Aveiro, em Belém, foi demolido por ordem da sentença, e o terreno foi salgado para que nada mais nascesse ali.

O lugar se chama até hoje Beco do Chão Salgado. Uma coluna de pedra levantada em 1759 guarda a inscrição que condena a memória dos réus, e ela nunca foi retirada, mesmo depois da revisão.

A pergunta central continua sem prova: quem atirou na estrada da Ajuda. A revisão de 1781 respondeu outra pergunta, a da culpa dos Távora, e concluiu que a sentença os condenou sem prova suficiente.

Confira sozinho, antes de repetir a história dos Távora:

• a data da sentença da Junta da Inconfidência, 12 de janeiro de 1759;

• o lugar da coluna de 1759, Beco do Chão Salgado, em Belém;

• o ano da revisão pedida à rainha Maria I, 1781.

 
 
 

Quiz da edição

No cadafalso montado em Belém, na manhã de 13 de janeiro de 1759, quem foi o primeiro a subir para ser executado?

AFrancisco de Assis de Távora, o marquês
BLeonor Tomásia de Távora, a marquesa velha
CJosé de Mascarenhas, duque de Aveiro
DO conde de Atouguia, genro dos marqueses

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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