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O Trident de Lin Biao que caiu na Mongólia em 1971
O herdeiro escolhido por Mao fugiu de madrugada num jato com a mulher e o filho. Pequim levou meses para contar a versão oficial.
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Estepe de Öndörkhaan, Mongólia, 1971
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A agência estatal mongol Montsame noticiou no fim de setembro de 1971: “Um avião a jato da Força Aérea chinesa caiu em território da República Popular da Mongólia”. O texto não dizia quem estava a bordo.
O jato era um Hawker Siddeley Trident, modelo britânico de três motores que a China tinha comprado para a aviação militar. Caiu por volta das 2h30 de 13 de setembro de 1971, numa planície de capim perto de Öndörkhaan, capital da província de Khentii, no leste da Mongólia.
Ninguém sobreviveu. Pastores da região viram o fogo antes do amanhecer, e as autoridades mongóis chegaram horas depois a um campo de destroços espalhado por centenas de metros.
Em Pequim, o silêncio foi completo. O desfile de 1º de outubro, Dia Nacional, foi cancelado sem explicação. Os jornais pararam de imprimir uma foto que até ali aparecia em toda parte: a do marechal ao lado de Mao Tsé-tung, segurando o Livro Vermelho.
O marechal era Lin Biao, ministro da Defesa e, pela Constituição do Partido Comunista aprovada em 1969, o “companheiro de armas e sucessor” escolhido pelo próprio Mao. Era o segundo homem mais poderoso do país.
Diplomatas estrangeiros notaram a ausência e começaram a especular. A primeira explicação oficial circulou só dentro do partido, em documentos lidos para quadros de confiança, e chegou ao mundo em fragmentos ao longo de 1972.
Segundo essa explicação, Lin Biao tinha planejado matar Mao, falhou e fugiu rumo à União Soviética com a mulher, o filho e mais seis pessoas. O avião ficou sem combustível e caiu.
A história tinha papel para sustentá-la: um esboço de golpe batizado de Projeto 571, que o partido distribuiu aos militantes em 1972. E tinha um relatório estrangeiro, escrito pelos mongóis, descrevendo nove corpos.
Para entender por que tanta gente ainda duvida da versão de Pequim, comece pela madrugada do voo.
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I A Conspiração do Dia
A decolagem sem plano de voo
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Lin Biao embarcou no Trident de número 256 no aeroporto de Shanhaiguan, no litoral do mar de Bohai, e o jato decolou às 0h32 de 13 de setembro de 1971 sem autorização da torre e sem completar o abastecimento.
A família estava hospedada em Beidaihe, balneário onde a cúpula do partido passava o verão. Na noite de 12 de setembro, a filha do marechal, Lin Liheng, apelidada Doudou, avisou a guarda local que os pais e o irmão pretendiam fugir.
O aviso subiu até o primeiro-ministro Zhou Enlai, em Pequim. Zhou telefonou para Ye Qun, mulher de Lin Biao, e perguntou pelo avião. Ela respondeu que o marido queria apenas fazer um passeio aéreo.
Zhou mandou que o Trident ficasse no chão. Antes de a ordem chegar à pista, a comitiva saiu de carro em alta velocidade. Testemunhas contaram depois que houve tiros contra os guardas no portão da residência.
O Trident 256 era o avião reservado a Lin Biao e estava em Shanhaiguan desde a véspera, levado por ordem de Lin Liguo. Na pressa, a escada de embarque nem foi recolhida direito, e o jato raspou um caminhão-tanque ao taxiar.
Os nove a bordo
No avião estavam Lin Biao, Ye Qun, o filho Lin Liguo, vice-diretor de operações da Força Aérea, o piloto Pan Jingyin, três tripulantes, o motorista e um secretário. Eram nove pessoas, todas mortas no impacto ou no incêndio.
O tanque partiu com bem menos querosene que a viagem até Irkutsk, na Sibéria, exigiria. O voo seguiu para noroeste, cruzou a fronteira mongol pouco depois da 1h50 e sumiu dos radares chineses.
Mao Tsé-tung recebeu a notícia na residência de Zhongnanhai. Segundo o relato do seu guarda-costas Zhang Yaoci, publicado em memórias, Mao recusou a sugestão de derrubar o jato com mísseis e disse que não adiantava impedir quem estava decidido a partir.
O que os mongóis viram
O relatório da comissão mongol descreveu o jato tocando o solo de barriga, como num pouso de emergência, e se partindo ao bater numa elevação. Os corpos estavam queimados, alguns longe da fuselagem, e não havia sinal de explosão no ar.
Os mongóis anotaram também uma pistola, documentos chamuscados e um rádio de bordo desligado. O relógio de um dos mortos parou às 2h30, hora que virou a data oficial da queda.
O embaixador chinês em Ulan Bator, Xu Wenyi, visitou o local em 15 de setembro e fotografou os restos. Os nove foram enterrados ali mesmo, em covas simples, com autorização de Pequim.
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II A Origem
O esboço chamado 571
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O Projeto 571 era um esboço de golpe militar redigido em março de 1971 por Lin Liguo e oficiais próximos a ele, e o número vem de um trocadilho: em chinês, “wu qi yi” soa quase igual a “wuzhuang qiyi”, insurreição armada.
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A crise entre Mao e Lin Biao começou um ano antes. Na reunião do Comitê Central em Lushan, em agosto de 1970, aliados do marechal defenderam recriar o cargo de presidente da República, extinto desde a queda de Liu Shaoqi.
Mao leu a proposta como manobra de Lin para se aproximar do topo. Atacou em público o teórico Chen Boda, aliado do marechal, e começou a trocar comandantes de confiança de Lin nas regiões militares.
Lin Liguo, então com 25 anos, reuniu um grupo de oficiais da Força Aérea que se chamava de Frota Conjunta. Foi nesse círculo, numa casa de Xangai, que o 571 ganhou forma escrita.
O que o papel dizia
O documento chamava Mao pelo código “B-52”, nome do bombardeiro americano, e listava formas de eliminá-lo: atacar o trem dele com lança-chamas, explodir um depósito de combustível perto da linha férrea ou bombardear a residência.
Num trecho que o partido fez questão de reproduzir, o texto descrevia Mao como “o maior tirano feudal da história da China”, que usava o marxismo como pele e governava pelos métodos do imperador Qin Shi Huang. A frase está no Esboço do Projeto 571, de 1971, na versão que Pequim divulgou em 1972.
Em agosto e setembro de 1971, Mao viajou pelo sul do país conversando com chefes militares e criticando, sem citar o nome, “certa pessoa” que queria o poder. O conteúdo das conversas chegou a Lin Liguo, que concluiu que a família seria a próxima vítima de expurgo.
Quando o partido falou
O Comitê Central distribuiu o texto do 571 em documentos internos numerados no início de 1972, para leitura em reuniões fechadas de células do partido, fábricas e quartéis. O público geral não tinha acesso.
O mundo ouviu a versão oficial em pedaços. Em julho de 1972, diplomatas chineses confirmaram a jornalistas estrangeiros que Lin Biao tinha fugido depois de tramar contra Mao e caído na Mongólia.
A confirmação pública completa veio em agosto de 1973, no 10º Congresso do partido, que expulsou Lin Biao postumamente. Em 1980 e 1981, o julgamento da chamada Camarilha de Lin Biao e Jiang Qing condenou os generais sobreviventes do grupo.
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