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O voo de 1945 que Taiwan nunca registrou

Um juiz indiano concluiu em 2005 que Subhas Chandra Bose não estava no avião que caiu em Taipei. O governo da Índia rejeitou o relatório em 2006.

Avião militar japonês destroçado numa pista de Taipei em 1945.

Aeródromo de Taihoku, Taipei, agosto de 1945

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O juiz aposentado Manoj Kumar Mukherjee escreveu no relatório que entregou ao governo da Índia em 8 de novembro de 2005: "Netaji está morto; ele não morreu no acidente aéreo, como alegado".

Netaji quer dizer "líder respeitado", em híndi. É o apelido de Subhas Chandra Bose, o homem que comandou um exército contra os britânicos durante a Segunda Guerra Mundial e que, para milhões de indianos, vale tanto quanto Gandhi.

A versão oficial contava o contrário desde 1945. Bose teria embarcado num bombardeiro japonês em 18 de agosto daquele ano, o avião teria caído logo depois de decolar do aeródromo de Taihoku, nome japonês de Taipei, e ele teria saído das chamas com queimaduras graves.

Segundo essa versão, morreu na mesma noite num hospital militar japonês. O corpo foi cremado em Taipei e as cinzas seguiram para o Japão, onde estão guardadas até hoje num templo budista de Tóquio, o Renkoji.

Duas comissões indianas já tinham confirmado a história, uma em 1956 e outra em 1974. A terceira, chefiada por Mukherjee, ex-juiz da Suprema Corte, levou seis anos para dizer o contrário.

O argumento que mais pesou veio de Taipei. O governo de Taiwan informou à comissão, por escrito, que não tinha registro de nenhum acidente aéreo em Taihoku entre meados de agosto e o fim de setembro de 1945.

Sem avião caído, não havia morte no avião. E sem morte no avião, as cinzas do templo de Tóquio podiam ser de qualquer pessoa.

O relatório chegou ao Parlamento indiano em 17 de maio de 2006. Na mesma sessão, o Ministério do Interior anexou uma nota curta: o governo não concordava com as conclusões da comissão.

A Índia, portanto, encomendou uma investigação, pagou por ela e recusou o resultado. O relatório continua público, e a versão do acidente continua oficial.

Mukherjee também não disse onde Bose foi parar. Afirmou que ele estava morto e que não tinha morrido em Taipei, e parou aí.

Para entender por que um juiz desmontou a versão oficial com uma carta, comece pelo que a comissão afirmou.

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I  A Conspiração do Dia

A carta de Taipei contra três testemunhas

A Comissão Mukherjee concluiu que o acidente de Taihoku foi uma encenação, montada pelo Exército japonês para Bose escapar dos Aliados, e que as cinzas do templo Renkoji não pertencem a ele.

A comissão nasceu de uma ordem judicial. Em 1998, o Tribunal Superior de Calcutá mandou o governo abrir nova investigação, depois de uma ação de cidadãos que não aceitavam as duas conclusões anteriores.

Mukherjee trabalhou de 1999 a 2005. Ouviu testemunhas na Índia, viajou ao Japão e a Taiwan, pediu documentos à Rússia e examinou arquivos de inteligência britânicos e indianos.

O peso maior caiu sobre a resposta de Taiwan. Em 1945, a ilha era colônia japonesa, chamada Formosa, e o aeródromo de Taihoku estava sob controle militar do Japão.

O governo de Taipei respondeu que seus arquivos de aviação e os registros da prefeitura da cidade não mencionavam queda de avião naquele período. Mukherjee leu a ausência como prova de que o voo fatal nunca aconteceu.

O que sustentava a versão antiga

Do outro lado estavam testemunhas. A principal era o coronel Habibur Rahman, ajudante de ordens de Bose, que dizia ter estado no mesmo avião, sobrevivido com queimaduras e acompanhado o chefe até o hospital.

Havia ainda o depoimento de médicos e enfermeiros japoneses do hospital militar de Nanmon, em Taipei, que descreveram as queimaduras, a agonia e a hora do óbito, perto das nove da noite. Um tenente japonês disse ter cuidado da cremação.

Mukherjee apontou contradições entre esses relatos. As testemunhas divergiam sobre a hora da queda, o número de passageiros, a posição de Bose no avião e até o tipo de roupa que ele usava ao subir a bordo.

Para o juiz, as divergências mostravam um roteiro combinado e mal ensaiado. Para quem defendia a versão antiga, mostravam apenas memórias de pessoas feridas, contadas anos depois do trauma.

A comissão não encontrou certidão de óbito japonesa em nome de Bose. Encontrou um registro de cremação de 1945 em nome de um soldado japonês, Ichiro Okura, e considerou possível que o corpo cremado fosse o dele.

O ponto que o relatório não fechou foi o destino. Mukherjee concluiu que Bose estava morto, porque já teria passado dos 100 anos em 2005, mas declarou que não havia prova de onde, quando ou como ele morreu.

 
 

II  A Origem

Um exército no exílio e um voo para Manchúria

Subhas Chandra Bose rompeu com Gandhi em 1939, fugiu da prisão domiciliar britânica em Calcutá em janeiro de 1941 e passou a guerra procurando aliados entre os inimigos do Império Britânico.

Bose tinha presidido o Congresso Nacional Indiano, o partido de Gandhi e Nehru. Defendia luta armada contra os britânicos, enquanto Gandhi pregava a resistência sem violência, e a divergência o tirou da direção do partido.

Disfarçado de muçulmano, cruzou o Afeganistão e chegou a Berlim, onde se encontrou com Hitler em 1942. Em 1943, um submarino alemão o levou até um submarino japonês no oceano Índico.

No Sudeste Asiático, assumiu o Exército Nacional Indiano, formado por soldados indianos capturados pelos japoneses. Criou um governo provisório da Índia Livre, reconhecido pelo Japão e por seus aliados.

Por que a fuga fazia sentido

Em agosto de 1945, o Japão se rendeu. Bose era, para os britânicos, um traidor de guerra, e seria julgado se caísse nas mãos deles.

A comissão Mukherjee levou a sério uma hipótese antiga: o plano real seria levar Bose até a Manchúria, região do nordeste da China ocupada pelos japoneses, e de lá para a União Soviética, a única potência que ele ainda via como aliada possível contra Londres.

Nos meses antes da rendição, o próprio Bose falava em buscar apoio soviético. Essa intenção está registrada em cartas e depoimentos de assessores do Exército Nacional Indiano, e o voo de 18 de agosto rumava de fato para o norte.

A comissão pediu à Rússia documentos sobre uma possível passagem de Bose pelo território soviético. Recebeu a resposta de que não havia registros. O relatório não confirmou a rota soviética e não a descartou.

As comissões que vieram antes

A primeira investigação indiana foi o Comitê Shah Nawaz, de 1956, chefiado por um ex-oficial do próprio exército de Bose. Concluiu que ele morreu em Taihoku, mas um dos três membros, Suresh Chandra Bose, irmão mais velho de Netaji, assinou um relatório divergente.

A segunda foi a Comissão Khosla, de 1970 a 1974, presidida pelo juiz G. D. Khosla. Confirmou o acidente e a morte no hospital de Nanmon.

As duas foram criticadas por não terem ido a Taiwan colher documentos. Esse vazio foi justamente o que Mukherjee foi preencher, trinta anos depois.

 

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III  O Combustível

Um monge em Faizabad e um relatório na gaveta

A suspeita sobre Bose ganhou rosto em 1985, quando morreu em Faizabad, no norte da Índia, um eremita conhecido como Gumnami Baba (o "santo sem nome", em híndi), que seguidores juravam ser Netaji escondido.

O homem vivia recluso, falava com visitantes por trás de uma cortina e guardava em casa livros, cartas e fotos da família Bose. Depois do funeral, seus seguidores espalharam que o líder tinha passado décadas disfarçado.

A Comissão Mukherjee examinou o caso e mandou fazer exames de DNA em dentes atribuídos ao eremita. O laboratório forense do governo comparou o material com amostras de parentes de Bose e não encontrou correspondência.

Mesmo assim, o relatório não fechou a questão por completo. Mukherjee registrou que, sem prova sólida, não podia afirmar que Gumnami Baba fosse Bose, e deixou aberta a lacuna sobre o paradeiro real.

O que a Índia recusou

O governo de Manmohan Singh rejeitou o relatório em 2006 sem detalhar todos os motivos. A nota do Ministério do Interior disse apenas que discordava das conclusões de que Bose não morreu no acidente e de que as cinzas de Renkoji não eram dele.

Para os defensores da comissão, a recusa protegia a versão que a Índia vinha sustentando desde Nehru. Para o governo, a comissão tinha dado peso excessivo a uma ausência de papel em Taiwan, ignorando testemunhas diretas.

O combustível da suspeita é este: um líder sem corpo visto pelos indianos, cinzas guardadas em outro país, arquivos fechados por décadas e um governo que recusou o próprio relatório.

Em 2016, o governo indiano começou a liberar arquivos secretos sobre Bose. Entre os papéis tornados públicos estava um relatório do governo japonês, de 1956, que concluía que ele morreu em Taihoku depois do acidente.

A única filha de Bose, a economista alemã Anita Bose Pfaff, pede há anos um exame de DNA nas cinzas do templo Renkoji. Até hoje, o teste não foi feito, e sem ele nenhuma das versões pode ser confirmada pela ciência.

O que a comissão estabeleceu: Taiwan não tem registro de queda de avião em Taihoku no período, as testemunhas do acidente se contradizem e o eremita de Faizabad não teve o DNA ligado à família Bose.

O que continua sem resposta: onde e quando Bose morreu. Sem o exame das cinzas de Tóquio, a pergunta segue aberta, e nenhum governo assumiu o teste.

"Se o avião caiu, por que Taipei não guardou um papel sobre ele?"

Confira sozinho, em três buscas:
a data de entrega do relatório Mukherjee, 8 de novembro de 2005;
a nota do Ministério do Interior lida no Parlamento em 17 de maio de 2006;
o templo Renkoji, em Tóquio, onde as cinzas atribuídas a Bose estão guardadas.

 
 
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Quiz da edição

Qual foi a resposta do governo de Taiwan à Comissão Mukherjee que mais pesou no relatório sobre o voo de Bose?

AQue o avião caiu logo após decolar do aeródromo de Taihoku em 18 de agosto de 1945
BQue a cremação em Taipei tinha sido registrada em nome de Subhas Chandra Bose
CQue não tinha registro de nenhum acidente aéreo em Taihoku entre meados de agosto e o fim de setembro de 1945
DQue os registros de Taipei confirmavam a presença de Bose no avião de 18 de agosto

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