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ED 051

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Operação Prato: as luzes que a Aeronáutica fotografou no Pará

Em 1977, um capitão da FAB caçou o chupa-chupa em Colares; vinte anos depois contou tudo, e parte dos papéis foi ao Arquivo Nacional.

Luz redonda sobre a baía de Colares à noite, vista de uma canoa de pescador.

Colares, no Pará, 1977

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A revista UFO, editada em Campo Grande, publicou em 1997 a frase de um capitão reformado da Aeronáutica que ninguém de farda tinha dito até ali: "Eu vi, meus homens viram, e nós fotografamos".

Ele falava de Colares, uma ilha de pescadores no nordeste do Pará, a pouco mais de duas horas de estrada e balsa de Belém. Em 1977, os moradores passaram a relatar luzes que desciam sobre as canoas, as redes e os telhados de palha.

Deram a elas um apelido de medo: chupa-chupa, a luz que, segundo os relatos, sugava o sangue de quem estivesse deitado. Os casos se espalharam por Vigia, Santo Antônio do Tauá e outras vilas da baía do Marajó.

A médica Wellaide Cecim Carvalho, responsável pelo posto de saúde de Colares, atendeu pacientes com queimaduras na pele, tontura e pequenas perfurações no pescoço e no peito. Ela anotou cada caso em ficha, com data e sintoma.

As famílias começaram a dormir em grupo, com fogueiras acesas e rojões à mão para espantar as luzes. Pescadores deixaram de sair à noite, e a pesca, que sustentava a ilha, caiu nas semanas seguintes. O prefeito da cidade pediu socorro ao governo estadual, e o pedido subiu até o I COMAR (Primeiro Comando Aéreo Regional, a unidade da Aeronáutica sediada em Belém).

O comando reagiu com uma equipe pequena, câmeras fotográficas, filmadoras de 16 milímetros e uma ordem clara: registrar tudo e escrever relatório. A missão recebeu um codinome de cozinha, Operação Prato, tirado do formato de disco que os moradores descreviam.

O oficial escolhido para chefiar a equipe guardou silêncio por duas décadas. Quando falou, contou uma versão que a própria Aeronáutica nunca confirmou nem desmentiu em público.

A primeira seção mostra o que ele diz ter visto nos meses de vigília e a tese que os ufólogos construíram em cima do relato.

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I  A Conspiração do Dia

Quatro meses de vigília na baía

O capitão Uyrangê Bolivar Soares Nogueira de Hollanda Lima, oficial de informações do I COMAR, chefiou a Operação Prato de setembro a dezembro de 1977, com vigílias noturnas em Colares e nas vilas vizinhas.

A equipe reunia sargentos e cabos da A-2 (a seção de informações do comando aéreo), alguns à paisana. Eles montavam campana na praia, em barcos ancorados e no alto de casas de madeira, com máquinas fotográficas, binóculos e gravadores.

A rotina seguia a luz: as equipes chegavam ao entardecer, anotavam cada ponto brilhante que cruzava o céu e só recolhiam o equipamento com o sol nascendo sobre a baía.

Todo dia saía um relatório datilografado para Belém. Os agentes descreviam esferas luminosas, objetos em forma de cilindro e luzes que mudavam de cor, paravam no ar e sumiam em velocidade que nenhum avião da época alcançava.

Na entrevista de 1997, Hollanda afirmou que a equipe juntou centenas de fotografias e vários rolos de filme. Disse ainda que viu um objeto grande, comparado por ele a um navio, sobre a água da baía.

A tese da conspiração nasce daí e se apoia em quatro pontos. O primeiro: a Aeronáutica teria confirmado, por conta própria, a presença de naves que ninguém sabia identificar.

O segundo: os ferimentos anotados pela médica seriam prova de contato físico, e o Estado teria preferido o silêncio a admitir que não protegia uma população inteira.

O terceiro: a operação foi encerrada de repente, por ordem vinda de Brasília, sem explicação pública. O quarto: os filmes e boa parte das fotos nunca apareceram.

Para quem defende a tese, a equipe de Hollanda documentou um fenômeno real, e o governo militar enterrou o material para manter o controle da informação num período de censura à imprensa.

Os relatórios de campo ajudam a tese num ponto: foram escritos por militares treinados para observar, com hora, direção e duração de cada aparição, e não por moradores assustados.

Os céticos leem os mesmos relatos de outro modo: pânico coletivo alimentado por rádio e boca a boca, balões, satélites, luz refletida na água e doenças comuns da região confundidas com ataque.

Nenhum dos quatro pontos, sozinho, prova visita de fora da Terra. Juntos, formam a narrativa que circula até hoje em fóruns, documentários e livros de ufologia brasileira.

"A população estava apavorada, e nós fomos lá para ver o que era."

Uyrangê Hollanda, entrevista a Ademar José Gevaerd e Marco Antonio Petit, revista UFO, 1997.

 
 

II  A Origem

A entrevista gravada em Cabo Frio

Em julho de 1997, já coronel da reserva, Hollanda recebeu em casa, em Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, os ufólogos Ademar José Gevaerd e Marco Antonio Petit, e gravou horas de depoimento.

Gevaerd era o editor da revista UFO; Petit, pesquisador fluminense do assunto. A conversa saiu impressa em duas partes e virou o documento mais citado sobre a Operação Prato.

Hollanda contou que no começo não acreditava nos relatos e tratava a missão como caso de histeria. Mudou de ideia, segundo ele, depois de ver as luzes de perto e de perder a conta das noites em que elas voltaram.

Descreveu uma das aproximações: um objeto teria parado sobre o barco da equipe, iluminando a água em volta. Os homens fotografaram, e ninguém se feriu.

A entrevista trouxe detalhes de rotina que davam peso ao relato: escala de turnos, nomes de vilas, horários de maré e o cansaço de uma equipe que dormia de dia e vigiava de noite.

Disse também que recebeu, dos superiores, ordem para tentar contato. A equipe fazia sinais com lanternas, sem resposta clara.

Sobre o encerramento, afirmou que o comando mandou parar a operação e recolher o material. Os relatórios, as fotos e os filmes, pelo relato dele, seguiram para Brasília, e ele nunca mais os viu.

Por que falou só em 1997? Hollanda disse que estava na reserva, que o regime militar tinha acabado e que queria registrar o que viu enquanto a memória ainda servia.

Três meses depois da entrevista, em outubro, ele foi encontrado enforcado em casa. A polícia registrou suicídio, e parentes contaram à imprensa que ele enfrentava depressão.

A fita da entrevista ficou com a revista, que a transcreveu e depois a divulgou em vídeo. É a única gravação longa em que um oficial da operação descreve a missão com a própria voz.

Os ufólogos passaram a tratar o episódio como queima de arquivo, expressão para o silêncio forçado de uma testemunha incômoda. Nenhuma investigação apontou participação de terceiros, e nenhum documento sustenta essa leitura.

 

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III  O Combustível

As caixas do Arquivo Nacional

Em 2004, a revista UFO lançou a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, com abaixo-assinado pedindo que as Forças Armadas abrissem os arquivos sobre objetos não identificados.

Em maio de 2005, o Comando da Aeronáutica recebeu um grupo de ufólogos em Brasília e mostrou parte do acervo. Foi a primeira vez que oficiais admitiram, em reunião registrada, que guardavam papéis desse tipo.

A partir de 2008, a Aeronáutica transferiu lotes desses documentos ao Arquivo Nacional, em Brasília. Entre eles estão os papéis da Operação Prato: relatórios de campana, croquis das aparições, depoimentos de moradores e algumas fotos em preto e branco.

O material pode ser consultado pelo SIAN (Sistema de Informações do Arquivo Nacional), o catálogo digital do órgão. Qualquer pessoa busca por "Operação Prato" e acha as fichas.

Os papéis confirmam a parte administrativa do relato de Hollanda. A operação existiu, teve codinome, durou meses, produziu relatórios diários e registrou luzes que os agentes não souberam explicar.

Há também relatórios de outras unidades, de anos diferentes, sobre luzes no céu do Pará e do Maranhão. Eles mostram que Colares não foi um episódio isolado nos arquivos militares da região.

Os papéis não confirmam as naves. As fotos liberadas mostram pontos e manchas de luz no céu escuro, sem forma definida, e nenhum relatório conclui que houvesse tripulação ou origem fora da Terra.

O que falta: os rolos de 16 milímetros e a maior parte das fotografias descritas na entrevista. A Aeronáutica afirma ter entregado tudo que localizou; não existe inventário público dos filmes, e por isso ninguém fora da corporação sabe dizer se foram destruídos, perdidos ou nunca rodados no volume que Hollanda descreveu.

O pesquisador francês Jacques Vallée, astrônomo e cientista da computação, visitou Belém em 1981, conversou com testemunhas e com a médica, e descreveu o caso no livro Confrontations (Confrontos), de 1990. Ele levantou a hipótese de um equipamento de origem humana, de uso militar, sem conseguir prova dela.

Os ferimentos também seguem sem diagnóstico fechado. As fichas da médica Wellaide Cecim Carvalho registram sintomas, mas não houve exame de laboratório que ligasse as marcas a uma causa única.

O que o caso estabeleceu: a Aeronáutica montou a Operação Prato em 1977, fotografou luzes em Colares e mandou os papéis ao Arquivo Nacional; o capitão Hollanda confirmou a missão em entrevista à revista UFO em 1997.

O que continua sem resposta: a natureza das luzes e o paradeiro dos filmes. Sem os rolos e sem exame dos feridos, as versões de nave, fenômeno natural e pânico coletivo seguem sem prova que desempate.

"Se a Aeronáutica guardou os relatórios, por que os filmes não chegaram às mesmas caixas?"

Confira sozinho, em três buscas:
a ficha "Operação Prato" no catálogo SIAN do Arquivo Nacional;
a entrevista de Uyrangê Hollanda na revista UFO de 1997;
a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, lançada pela revista UFO em 2004.

 
 
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