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Os 1.300 cartuchos de E.T. do aterro de Alamogordo

Em 1983, a Atari despejou caminhões de jogos no deserto do Novo México. Em 2014, uma escavadeira tirou a lenda do chão.

Escavadeira abre aterro no deserto do Novo México

Aterro de Alamogordo, Novo México, 2014

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“Atari Parts Are Dumped” (Peças da Atari são despejadas), publicou o The New York Times em 28 de setembro de 1983. A nota curta contava que caminhões da fabricante de videogames vinham descarregando carga no aterro municipal de Alamogordo, cidade do deserto do Novo México, nos Estados Unidos.

Segundo os relatos da época, a carga saía de uma fábrica da Atari em El Paso, no Texas, a cerca de 140 quilômetros dali, que a empresa estava fechando. Eram caixas de cartuchos, consoles e peças, jogadas numa vala aberta no lixão.

Os garotos da cidade acharam a vala antes dos fiscais. Pulavam a cerca à noite, reviravam o entulho e voltavam para casa com jogos lacrados debaixo do braço. Para encerrar a romaria, a prefeitura mandou cobrir o material com uma camada de concreto.

A Atari confirmou o despejo, mas descreveu a carga como estoque defeituoso e devolvido pelas lojas. Não disse quais títulos estavam ali, nem quantas unidades. A explicação oficial parou nesse ponto, e nenhum executivo da empresa voltou ao assunto em público nos anos seguintes.

O silêncio abriu espaço para a lenda. Revistas, conversas de fliperama e, anos depois, fóruns da internet contaram a mesma história: a Atari teria enterrado no deserto milhões de cópias de E.T. the Extra-Terrestrial (E.T., o Extraterrestre), o jogo do filme de Steven Spielberg, para esconder o tamanho do fracasso.

Para muitos jogadores, o enterro virou o símbolo do colapso da indústria americana de videogames, que desabou entre 1983 e 1985. Para os céticos, era folclore, uma história boa demais para ter acontecido.

Durante três décadas, ninguém cavou para conferir. O concreto seguiu no lugar, o aterro foi encerrado, e a lenda ganhou versões cada vez maiores a cada recontagem.

A resposta saiu da terra num sábado de abril de 2014, diante de câmeras, de fãs com camisetas da Atari e do homem que tinha programado o jogo.

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I  A Conspiração do Dia

A escavadeira de abril de 2014

Na manhã de 26 de abril de 2014, a produtora canadense Fuel Industries abriu o velho aterro de Alamogordo com uma escavadeira. A obra era a cena central do documentário “Atari: Game Over”, dirigido pelo roteirista americano Zak Penn e bancado pela Xbox Entertainment Studios, o braço de séries e filmes da Microsoft.

A produtora tinha negociado com a prefeitura durante meses. A cidade liberou a escavação, e os órgãos ambientais do Novo México acompanharam a obra, porque o terreno guardava três décadas de lixo doméstico misturado à carga da Atari.

O mapa da vala veio da memória de Joe Lewandowski, o gerente do aterro em 1983. Ele tinha visto os caminhões chegarem, tinha visto o concreto ser despejado e apontou o trecho onde a máquina deveria entrar.

Lewandowski também deu aos jornalistas presentes a sua conta do despejo: cerca de 728 mil cartuchos, de vários títulos, enterrados em 1983. A estimativa era dele, feita de memória, sem nota fiscal nem inventário da empresa.

A manhã rendeu pouco. A escavadeira tirava areia, sacos de lixo e entulho, o vento do deserto levantava poeira, e o público, perto de 200 pessoas, esperava atrás da cerca.

A primeira caixa de E.T. saiu da vala na tarde de 26 de abril de 2014, 31 anos depois do despejo.

O que saiu da vala

Junto com os cartuchos de E.T. vieram caixas de Centipede, Asteroids, Missile Command, Pac-Man e Star Raiders, além de consoles, controles e manuais. Jornais de 1983 achados na mesma camada confirmaram a data do despejo.

A equipe recuperou cerca de 1.300 cartuchos, segundo a prefeitura de Alamogordo. Alguns ainda estavam na caixa, com o plástico amassado pelo peso do concreto e da terra.

O programador do jogo, Howard Scott Warshaw, assistiu à abertura da vala ao lado de Penn. Para ele, a caixa de E.T. saindo do chão encerrava a dúvida sobre o enterro.

A lenda corrigida

A escavação confirmou a parte central da história: a Atari enterrou, sim, cartuchos de E.T. no deserto do Novo México em 1983.

A parte dos milhões de E.T. não se confirmou. A vala guardava estoque de muitos jogos, e nem a conta de Lewandowski chegava à casa do milhão. O que se enterrou foi a sobra de um depósito inteiro em liquidação, e E.T. era um dos títulos.

 
 

II  A Origem

As cinco semanas de Howard Scott Warshaw

A história do cartucho começa no verão americano de 1982. O filme “E.T., o Extraterrestre”, de Steven Spielberg, estreou em junho e virou a maior bilheteria daquele ano nos Estados Unidos.

A Warner Communications, dona da Atari desde 1976, também era dona do estúdio Warner Bros. e queria o jogo do filme nas lojas no Natal. O presidente da Atari, Ray Kassar, fechou a licença com a Universal Pictures por um valor milionário.

O contrato saiu no fim de julho. Para chegar às prateleiras em dezembro, o jogo precisava estar pronto até o começo de setembro, a tempo de fabricar os cartuchos.

Kassar ligou para Warshaw, o programador que já tinha feito para a Atari os jogos Yars' Revenge e Raiders of the Lost Ark (Os Caçadores da Arca Perdida). Warshaw aceitou e pediu uma viagem para apresentar a ideia a Spielberg pessoalmente.

Warshaw teve cerca de cinco semanas para criar um jogo que, no ritmo normal da Atari, levaria meses.

O jogo dos buracos

No cartucho, o jogador controla E.T. numa floresta e numa cidade cheias de buracos. Dentro deles estão as três peças de um telefone improvisado, a única chance de o personagem chamar a nave e voltar para casa.

Um agente do FBI e um cientista perseguem E.T. pela tela, e o menino Elliott ajuda quando aparece. O problema era a queda: o boneco caía nos buracos com facilidade, e sair deles exigia paciência.

Para quem comprou o jogo na véspera de Natal, a experiência parecia uma sequência de quedas sem sentido. O manual explicava as regras, mas pouca criança lia o manual antes de ligar o console.

Warshaw defendeu o jogo por décadas. Segundo ele, os buracos eram o desafio pensado para o prazo curto, e o defeito estava no tempo de teste, curto demais para ajustar a dificuldade antes da fábrica.

O Natal de 1982

A Atari fabricou os cartuchos em escala de campeão de vendas, apostando no sucesso do filme. O jogo vendeu bem nas primeiras semanas e parou depois do Natal, quando as lojas começaram a devolver as caixas que sobravam nas prateleiras.

As devoluções se juntaram a um estoque já inchado de outros títulos, como a versão de Pac-Man para o Atari 2600, lançada no começo do mesmo ano. Os depósitos da empresa encheram, e a Atari precisou decidir o que fazer com o excesso. A resposta foi a vala de Alamogordo.

 

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III  O Combustível

O concreto sobre a vala

A lenda durou 31 anos porque três peças reais se encaixavam nela. A primeira foi o próprio concreto: um lixão coberto por uma laje, por ordem da prefeitura, parecia esconder um segredo de empresa.

A segunda foi o colapso do mercado. Entre 1983 e 1985, a indústria americana de videogames encolheu de forma brutal, lojas pararam de vender consoles e dezenas de fabricantes de jogos fecharam as portas.

Em julho de 1984, a Warner vendeu a divisão de consoles e computadores da Atari ao empresário Jack Tramiel, fundador da Commodore. A marca que dominava as salas americanas em 1982 trocou de dono em menos de dois anos.

A terceira peça foi o bode expiatório. Revistas e jogadores elegeram E.T. como o culpado do colapso, e o jogo passou a frequentar as listas de piores da história. Um cartucho só, feito em cinco semanas, virou o rosto de uma crise com muitas causas.

O enterro de Alamogordo aconteceu de fato, mas guardava a sobra de um depósito inteiro, com E.T. entre vários títulos.

O programador que virou terapeuta

Warshaw deixou a Atari em 1984, quando a empresa já demitia em massa. Anos depois, formou-se em psicoterapia e passou a atender na Califórnia, com muitos pacientes vindos do setor de tecnologia.

No documentário de Penn, ele volta a Alamogordo e vê o cartucho sair do chão. O filme estreou em 20 de novembro de 2014, no serviço de vídeo do Xbox.

O destino dos cartuchos

A prefeitura de Alamogordo ficou com a maior parte dos jogos desenterrados. Uma parte foi para museus, entre eles o Smithsonian, em Washington, e outra foi vendida em leilões no eBay.

Segundo a prefeitura de Alamogordo, em 2015, os leilões venderam 881 cartuchos e renderam cerca de US$ 108 mil, divididos entre a cidade e um museu local de história.

O que segue sem resposta

O número exato de cartuchos de E.T. enterrados em 1983 ninguém sabe. A Atari nunca publicou o inventário do despejo, a escavação de 2014 abriu só um trecho do aterro, e o restante da vala continua sob a terra, sem plano de nova obra. Também não se sabe se a carga veio só de El Paso ou de outros depósitos da empresa.

Confira sozinho, em 3 passos:

• a data da nota do The New York Times sobre o despejo, 28 de setembro de 1983;

• o dia da escavação no aterro de Alamogordo, 26 de abril de 2014;

• o nome do programador de E.T., Howard Scott Warshaw.

 
 
Quiz da edição

Segundo a prefeitura de Alamogordo, quantos cartuchos a equipe recuperou na escavação de abril de 2014?

A728 mil, a estimativa de Joe Lewandowski
BCerca de 1.300 cartuchos
CPerto de 200, o tamanho do público na cerca
DMilhões, como dizia a lenda

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