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Os 2 anos e 7 meses da papisa Joana

Uma crônica dominicana de 1277 pôs uma mulher no trono de Pedro, Siena esculpiu o rosto dela e um pastor protestante desmontou tudo em 1647.

Manuscrito medieval aberto com uma figura de papa de mitra, à luz de vela.

Roma, crônica de Martinho de Opava, 1277

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A Crônica dos Papas e Imperadores, do frade Martinho de Opava, trouxe na versão de 1277 uma linha sobre o sucessor de Leão IV: “Iohannes Anglicus, nacione Maguntinus” (João, o Inglês, nascido em Mogúncia). Nove palavras adiante, o mesmo trecho dizia que esse João era mulher.

A crônica virou o manual de história mais copiado da Europa no fim da Idade Média. Sobram hoje mais de 400 manuscritos dela, e a papisa Joana viajou dentro de quase todos, com reinado datado entre 855 e 857.

Em menos de um século, a mulher papa saiu do pergaminho e entrou na pedra. A catedral de Siena, na Itália, montou uma fileira de bustos de terracota com os pontífices da história, e um deles levava a inscrição “Johannes VIII, foemina de Anglia” (João VIII, mulher da Inglaterra).

Giovanni Boccaccio, o autor do Decamerão, pôs Joana no livro De mulieribus claris (Sobre as mulheres famosas), escrito entre 1361 e 1362. As cartas de tarô pintadas para a família Visconti, em Milão, no século XV, ganharam uma figura de mitra e hábito chamada A Papisa.

Em 1415, no Concílio de Constança, o reformador tcheco Jan Hus usou Joana como prova de que a Igreja já tinha errado na escolha do próprio chefe. Os bispos ali reunidos condenaram Hus por heresia e o mandaram para a fogueira, mas nenhum deles contestou a papisa.

Por quase quatro séculos, católicos e críticos da Igreja trataram Joana como fato. Ela aparecia em listas oficiais de papas, em sermões e em livros de cronologia usados nas universidades.

O caso só desmontou quando um pastor protestante francês, de uma Igreja que tinha todo motivo para manter a lenda viva, sentou para contar os dias entre dois papas.

Antes dele, porém, vale entender o que Martinho de Opava escreveu, linha por linha, e de onde ele tirou a história.

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I  A Conspiração do Dia

Um nome entre Leão e Bento

A resposta de ontem

Quem era o piloto belga apontado na noite de Ndola?

Jan van Risseghem, piloto belga contratado pela pequena força aérea de Katanga em 1961. A historiadora Susan Williams e o pesquisador sueco Göran Björkdahl o apontaram como o provável piloto do jato, e o documentário Cold Case Hammarskjöld, de 2019, repetiu a acusação. Ele negou até o fim e se foi em 2007 sem ser ouvido por tribunal algum.

Martinho de Opava era um frade dominicano nascido na Boêmia, capelão da corte papal e penitenciário (o padre encarregado de absolver pecados reservados ao papa) em Roma nos anos 1270.

Ele escreveu uma crônica de formato prático. As páginas da esquerda listavam os papas e as da direita os imperadores, cada linha correspondendo a um ano. Professores e pregadores usavam o livro como tabela de consulta.

Na versão de 1277, Martinho encaixou a papisa logo depois de Leão IV, que governou a Igreja de 847 a 855. Deu a ela um reinado de 2 anos, 7 meses e 4 dias.

“Hic, ut asseritur, femina fuit” (Este, como se afirma, foi mulher). Martinho de Opava, Crônica dos Papas e Imperadores, 1277.

O “como se afirma” pesa. Martinho não diz ter visto documento. Ele registra o que se contava.

As cópias mais antigas da crônica, feitas antes de 1277, não trazem a papisa. Ela aparece na terceira redação, e alguns estudiosos suspeitam que a linha entrou pela mão de um copista, na margem, e só depois subiu para o texto.

A história segundo a crônica

O enredo que ele fixou tem poucos passos:

1. Uma menina nascida em Mogúncia, na Alemanha, foi levada a Atenas por um amante, vestida de homem.

2. Lá estudou tanto que superou os mestres e, já em Roma, deu aulas do trívio (gramática, retórica e lógica) com plateia de doutores.

3. Pela fama de sábio, foi eleita papa sem que ninguém desconfiasse.

4. Engravidou de um companheiro e deu à luz durante uma procissão, entre a basílica de São Pedro e a de São João de Latrão.

A rua evitada

Segundo a crônica, Joana perdeu a vida ali mesmo, no parto, numa viela entre o Coliseu e a igreja de São Clemente, e foi sepultada no local.

Martinho acrescentou um detalhe de rotina para dar peso à história: os papas, nas procissões, desviavam daquela rua. Ele escreveu que o desvio era por desgosto do acontecido.

O desvio existia nos registros. Documentos de cerimonial dos séculos XIII e XIV mostram que o cortejo papal evitava a viela. A crônica pegou um hábito real de trânsito e deu a ele uma explicação.

Martinho foi nomeado arcebispo de Gniezno, na Polônia, em 1278, e não chegou a assumir. Expirou em Bolonha, a caminho do novo posto, no mesmo ano. A crônica seguiu sem ele, copiada e traduzida para o francês, o alemão, o italiano e o tcheco.

 
 

II  A Origem

A papisa sem nome de Metz

Martinho não inventou Joana. Ele recebeu uma versão menor, sem nome e com outra data.

O registro mais antigo conhecido vem de Jean de Mailly, outro frade dominicano, que trabalhava em Metz, no leste da França. Na Crônica Universal de Metz, escrita na década de 1250, ele conta de uma mulher que chegou a papa disfarçada de homem.

A papisa de Jean de Mailly não tem nome nem cidade natal e reina perto do ano 1099, dois séculos e meio depois da data de Martinho. No fim, é amarrada pelos pés à cauda de um cavalo e arrastada pela cidade.

Étienne de Bourbon, dominicano de Lyon que reuniu histórias para sermões até 1261, repetiu o caso. Para ele, a papisa servia de lição sobre a vaidade do saber.

A estátua e as letras

A rua evitada guardava outra peça. Havia ali uma estátua antiga de uma figura com uma criança, junto a uma lápide com letras gastas. Os romanos da Idade Média leram a cena como mãe e filho, e a lenda completou o resto.

Historiadores modernos acham provável que a estátua fosse uma divindade pagã com acompanhante, sobra da Roma imperial. Ela foi retirada da rua no fim do século XVI, e não se sabe o paradeiro.

A cadeira furada

No Latrão existiam cadeiras de pórfiro (pedra vermelha usada pelos imperadores romanos) com um furo no assento. Eram peças de banho antigas, reaproveitadas na cerimônia de posse do papa.

O cronista galês Adam de Usk, que assistiu à posse de Inocêncio VII em 1404, descreveu as cadeiras e repetiu o boato de que serviam para conferir o sexo do eleito. Nenhum livro de cerimonial da Igreja registra exame do tipo.

De onde veio o enredo

Há três hipóteses fortes e nenhuma fecha o caso. Uma vê na lenda uma sátira ao século X, quando Marózia, nobre romana, controlou a escolha de papas e pôs o filho, João XI, no trono.

Outra liga a história às disputas do século XIII entre os frades e a Cúria (o governo central da Igreja), quando dominicanos e franciscanos tinham motivos para lembrar que papa também erra. A terceira aponta só a estátua, a rua e as cadeiras: três objetos reais à espera de um enredo.

 

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III  O Combustível

A moeda de Bento III

David Blondel, pastor protestante francês e professor de história, publicou em Amsterdã, em 1647, um livro que tirava a papisa da lista dos papas.

O título já trazia o problema inteiro: Esclarecimento familiar da questão se uma mulher se sentou no trono papal de Roma entre Leão IV e Bento III. A resposta de Blondel era não.

Protestantes usavam Joana fazia mais de um século como munição contra Roma. Blondel sabia que o livro ia irritar os próprios colegas, e irritou: pastores o acusaram de fazer o trabalho dos jesuítas.

Os dois argumentos

Blondel montou a defesa sobre duas bases:

1. Silêncio das fontes: nenhum autor dos 400 anos entre 855 e 1250 cita uma mulher papa, nem os inimigos do papado, que teriam prazer em contar.

2. Calendário apertado: Leão IV faleceu em julho de 855, e Bento III foi eleito poucas semanas depois. Entre os dois não cabem 2 anos e 7 meses.

O arcebispo Hincmar de Reims, contemporâneo dos fatos, escreveu numa carta que um mensageiro enviado a Leão IV chegou a Roma e encontrou Bento III já no posto. A carta não deixa brecha para um terceiro nome.

A prova no metal

Historiadores posteriores somaram uma prova que Blondel não usou: um denário (moeda de prata) cunhado com os nomes de Bento III e do imperador Lotário I.

Lotário I faleceu em setembro de 855. Se a moeda traz os dois, Bento III já era papa antes do fim daquele mês, e o vão de Joana some do calendário.

Quem já tinha duvidado

Blondel não foi o primeiro. O agostiniano Onofrio Panvinio, católico de Verona, rejeitou a papisa em 1562. Mas a palavra de um protestante contra uma arma protestante pesou mais e virou a página nos dois lados.

Depois de 1647, as listas de papas pararam de trazer Joana. Ela sobreviveu no tarô, no romance e no cinema, já fora da história da Igreja. O romance Pope Joan (A Papisa Joana), da americana Donna Woolfolk Cross, saiu em 1996 e virou filme alemão em 2009.

Confira sozinho, em 3 buscas:

• o livro de David Blondel publicado em Amsterdã em 1647;

• a entrada de Leão IV e de Bento III no Liber Pontificalis (Livro dos Pontífices);

• o trecho de Joana na Crônica dos Papas e Imperadores, de Martinho de Opava.

Na catedral de Siena, a fileira de bustos dos papas segue no alto da nave, e a cabeça da mulher da Inglaterra já não tem esse nome.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem mandou trocar o nome do busto da papisa na catedral de Siena?

 
 
Quiz da edição

Segundo a crônica de Martinho de Opava, de 1277, quanto tempo durou o reinado da papisa Joana?

A1 ano e 7 meses
B3 anos e 2 meses
C2 anos, 7 meses e 4 dias
D7 meses e 4 dias

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