|
O primeiro relógio independente é o cometa Halley. Os anais da dinastia Tang registram a passagem de um cometa em abril de 837, e o cálculo orbital moderno coloca ali a aproximação mais estreita que o Halley já fez da Terra. Remover 297 anos quebraria a cadência de retornos do cometa, que se repete a cada 75 ou 76 anos.
O segundo relógio são os eclipses do mundo islâmico. O astrônomo Abu Abd Allah al-Battani anotou eclipses solares e lunares observados em Raqqa, na atual Síria, no fim do século IX, com hora e altura registradas. F. Richard Stephenson, em "Historical Eclipses and Earth’s Rotation" (Cambridge University Press, 1997), reuniu essas observações e as de fontes chinesas e mostrou que elas caem nas datas calculadas pela mecânica celeste.
O terceiro relógio é bizantino. Leão Diácono descreveu na história que escreveu um eclipse solar total visto de Constantinopla em 22 de dezembro de 968, com detalhe suficiente para identificação astronômica. O evento só bate com o céu calculado se os 297 anos anteriores tiverem existido.
O quarto relógio é a madeira. As cronologias de anéis de crescimento de carvalho montadas na Irlanda e no sul da Alemanha atravessam o período contestado sem lacuna, ano a ano. Mike Baillie, dendrocronólogo da Queen’s University de Belfast, expôs o método e as séries em "A Slice Through Time" (Batsford, 1995).
O quinto relógio são os calendários que nunca passaram por Roma. A contagem islâmica corre sem interrupção desde a Hégira, a migração de Maomé para Medina em 622, e a chinesa avança em ciclos de sessenta anos com registro contínuo de dinastias. Apagar três séculos do calendário cristão jogaria essas contagens fora de sincronia, e elas continuam alinhadas.
O astrônomo alemão Franz Krojer dedicou à questão o livro "Die Präzision der Präzession" (Differenz-Verlag, Munique, 2003), examinando a hipótese do tempo fantasma pelo lado astronômico e concluindo que as observações antigas não deixam espaço para o intervalo desaparecido.
O combustível da crença não está na astronomia. Está na expressão "idade das trevas", que a própria historiografia europeia usou por séculos para descrever o período, e que prepara qualquer leitor para aceitar que ali houve um buraco. A tese de Illig apenas transforma a metáfora em aritmética.
O que a hipótese estabeleceu: que a densidade de fontes escritas e de achados datados cai muito na Europa ocidental entre os séculos VII e IX, e que essa queda merece explicação material, não silêncio.
O que ficou sem resposta na proposta de Illig: nenhum documento, nenhuma ordem, nenhuma correspondência mostra Oto III, Silvestre II ou Constantino VII combinando a alteração. Illig segue publicando e nenhuma universidade ou instituição de pesquisa histórica adotou a cronologia curta dele.
A versão mais frágil que circula amplia o corte para mil anos e declara inventada a Antiguidade inteira. Os anéis de carvalho, as tábuas astronômicas árabes e os anais chineses seriam todos falsificações coordenadas entre povos que não trocavam correspondência e não compartilhavam calendário.
A hipótese do tempo fantasma é o caso em que uma conta de três dias de calendário, feita a partir do marco errado, virou acusação de falsificação contra um imperador e um papa. A lição prática: cronologia se confere em fontes que não conversam entre si, e o céu antigo é a mais teimosa delas.
"Quantos séculos cabem num erro de três dias?"
Confira sozinho, em três buscas: o ano do Concílio de Niceia e a quantidade de dias cortados pela bula de 1582; o mês e o ano do registro chinês da passagem do cometa Halley citado aqui; o ano de consagração da Capela Palatina de Aachen e o ano do primeiro artigo de Heribert Illig sobre o tema.
|