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Os 297 anos que Illig riscou da Idade Média

Em 1996, uma editora de Düsseldorf pôs nas livrarias a tese de que os anos 614 a 911 foram inventados por um imperador e um papa.

Calendário antigo aberto sobre mesa de arquivo, ao lado de compasso e carta celeste, sob luz baixa.

Aachen, o calendário posto em dúvida

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"Das erfundene Mittelalter. Die größte Zeitfälschung der Geschichte", A Idade Média inventada, a maior falsificação de tempo da história, foi o título que a editora Econ, de Düsseldorf, pôs nas livrarias alemãs em 1996, com o nome de Heribert Illig na capa.

O livro sustenta uma afirmação de uma linha só: os anos 614 a 911 do calendário cristão nunca aconteceram. Quem fosse dormir numa noite de 613, pela conta de Illig, acordaria numa manhã de 912, e os 297 anos entre um ponto e outro seriam papel escrito depois, com reis de mentira, batalhas de mentira e documentos forjados para preencher o vazio.

Illig, publicista alemão nascido em 1947, já vinha defendendo a tese desde 1991 nas páginas da revista que ele mesmo editava, rebatizada anos depois como "Zeitensprünge", Saltos no tempo. O livro apenas levou a ideia da revista de nicho para a mesa de novidades das livrarias.

Os acusados têm nome, cargo e data de reinado. Oto III, imperador do Sacro Império Romano-Germânico entre 996 e 1002. O papa Silvestre II, que antes do trono se chamava Gerbert de Aurillac e era o matemático mais respeitado da cristandade latina. E Constantino VII Porfirogênito, imperador bizantino, que reinou até 959 e deixou obra escrita de próprio punho.

A hipótese ganhou nome próprio na imprensa alemã e viajou traduzida para o inglês como hipótese do tempo fantasma, "phantom time hypothesis", rótulo que pegou em fóruns e programas de televisão a cabo e sobreviveu ao livro que lhe deu origem.

O motivo atribuído aos três é aritmético: empurrar o relógio da cristandade até o ano 1000 para reinar na virada do milênio, com a legitimidade que a cifra redonda carregava na cabeça medieval.

Illig não parou na acusação. Ofereceu uma prova que qualquer leitor consegue conferir com lápis e papel, tirada da reforma do calendário assinada em Roma no século XVI, e é por ela que a conta dele começa.

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I  A Conspiração do Dia

Os 297 anos que sumiram da conta

A tese diz que Oto III, o papa Silvestre II e o imperador bizantino Constantino VII combinaram adiantar a cronologia cristã em quase três séculos, preenchendo o intervalo com personagens e documentos fabricados, e que a prova está numa conta de dias do calendário juliano.

O ponto de partida é 24 de fevereiro de 1582, quando o papa Gregório XIII assinou a bula "Inter gravissimas", Entre as mais graves, ordenando que o dia 4 de outubro daquele ano fosse seguido pelo dia 15. Dez dias saíram do calendário por decreto.

O calendário juliano, em vigor desde 45 antes de Cristo, atrasa cerca de um dia a cada 128 anos em relação ao ano solar. Illig fez a multiplicação: de 45 antes de Cristo até 1582 correram mais de mil e seiscentos anos, o que daria treze dias de defasagem acumulada, e não dez.

Os três dias que sobram na conta dele valem, na mesma proporção, cerca de 384 anos de calendário. Illig aparou o número para o intervalo que julgava mais defensável em termos de documentação, os 297 anos entre 614 e 911, e declarou o resto do período suspeito.

O segundo argumento é arqueológico. Illig aponta a escassez de achados datados com segurança na Europa ocidental entre o século VII e o século IX, um período em que cidades encolhem, moedas rareiam e a construção em pedra quase desaparece do registro.

O terceiro argumento é arquitetônico e tem endereço. A Capela Palatina de Aachen, na Alemanha, consagrada em 805 segundo a cronologia corrente, tem abóbadas e arcos que Illig considera adiantados em duzentos anos para a técnica atribuída à época.

"Es gab keine Karolingerzeit."

Não houve era carolíngia. Heribert Illig, "Das erfundene Mittelalter", Econ Verlag, Düsseldorf, 1996.

A vítima mais célebre do corte é Carlos Magno. Coroado imperador em 800, bem no meio do trecho contestado, ele passa na tese de Illig a personagem literário, montado por escribas do século XI a partir de modelos romanos e bíblicos.

Illig nunca apresentou documento de arquivo em que Oto III, Silvestre II ou Constantino VII discutam a operação. A acusação repousa em dedução a partir da conta dos dias e do interesse político dos três no ano 1000, não em correspondência, ata ou ordem escrita.

A tese tem endereço e tem parentela. A parte seguinte mostra em que tradição alemã de desconfiança documental ela nasceu e o que a reforma de 1582 realmente fez com os dez dias.

 
 

II  A Origem

De onde veio a conta dos dez dias

A origem tem uma linhagem editorial alemã que começa nos anos 1930 e uma leitura incompleta do documento que reformou o calendário. Illig não inventou a desconfiança com a Idade Média, herdou pronta de dois antecessores e trocou o alvo.

O primeiro elo é Wilhelm Kammeier, jurista alemão que publicou "Die Fälschung der deutschen Geschichte", A falsificação da história alemã, em 1935. Ele sustentava que os diplomas medievais guardados nos arquivos eram forjaduras produzidas em série pela Igreja, e que a cronologia inteira do período seria inconfiável.

O segundo elo é Uwe Topper, autor alemão que nas décadas seguintes defendeu recuos e saltos na cronologia geral, publicando fora do circuito universitário e alimentando um público leitor já acostumado à hipótese de arquivo adulterado.

O terceiro elo é o mercado. A revista "Zeitensprünge" deu à tese um canal próprio, com edições regulares, cartas de leitores e um pequeno círculo de colaboradores, algo que a maioria das teorias marginais nunca consegue montar.

O quarto elo é a leitura da bula. O texto de 1582 não toma 45 antes de Cristo como marco, e não esconde o motivo. A reforma existiu para devolver a Páscoa à posição que ela ocupava no calendário quando o Concílio de Niceia fixou a regra do cálculo, em 325 depois de Cristo.

De Niceia até 1582 correram 1.257 anos. Pela taxa de um dia a cada 128 anos, a defasagem acumulada nesse trecho chega a dez dias, exatamente o corte que Gregório XIII ordenou. A conta fecha quando se usa o marco que os próprios reformadores declararam.

Quem fez as contas para o papa foi Christoph Clavius, matemático jesuíta alemão, que publicou a justificativa técnica completa em "Romani calendarii a Gregorio XIII P. M. restituti explicatio", Explicação do calendário romano restituído por Gregório XIII, impressa em Roma em 1603. O documento circula digitalizado e mostra o raciocínio passo a passo.

O quinto elo é o dado que dá tração honesta à tese. A escassez documental dos séculos VII a IX na Europa ocidental existe de fato e tem explicação material: colapso das redes urbanas romanas, queda brusca do uso de moeda, pergaminho caro que era raspado e reescrito, e mosteiros que funcionavam como quase únicos centros de escrita.

Escassez de papel, porém, não vira ausência de tempo. A parte final mostra o que acontece com os 297 anos quando a conta sai dos arquivos europeus e vai para o céu, onde ninguém falsifica registro.

 

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III  O Combustível

O que os eclipses fazem com a conta

O primeiro relógio independente é o cometa Halley. Os anais da dinastia Tang registram a passagem de um cometa em abril de 837, e o cálculo orbital moderno coloca ali a aproximação mais estreita que o Halley já fez da Terra. Remover 297 anos quebraria a cadência de retornos do cometa, que se repete a cada 75 ou 76 anos.

O segundo relógio são os eclipses do mundo islâmico. O astrônomo Abu Abd Allah al-Battani anotou eclipses solares e lunares observados em Raqqa, na atual Síria, no fim do século IX, com hora e altura registradas. F. Richard Stephenson, em "Historical Eclipses and Earth’s Rotation" (Cambridge University Press, 1997), reuniu essas observações e as de fontes chinesas e mostrou que elas caem nas datas calculadas pela mecânica celeste.

O terceiro relógio é bizantino. Leão Diácono descreveu na história que escreveu um eclipse solar total visto de Constantinopla em 22 de dezembro de 968, com detalhe suficiente para identificação astronômica. O evento só bate com o céu calculado se os 297 anos anteriores tiverem existido.

O quarto relógio é a madeira. As cronologias de anéis de crescimento de carvalho montadas na Irlanda e no sul da Alemanha atravessam o período contestado sem lacuna, ano a ano. Mike Baillie, dendrocronólogo da Queen’s University de Belfast, expôs o método e as séries em "A Slice Through Time" (Batsford, 1995).

O quinto relógio são os calendários que nunca passaram por Roma. A contagem islâmica corre sem interrupção desde a Hégira, a migração de Maomé para Medina em 622, e a chinesa avança em ciclos de sessenta anos com registro contínuo de dinastias. Apagar três séculos do calendário cristão jogaria essas contagens fora de sincronia, e elas continuam alinhadas.

O astrônomo alemão Franz Krojer dedicou à questão o livro "Die Präzision der Präzession" (Differenz-Verlag, Munique, 2003), examinando a hipótese do tempo fantasma pelo lado astronômico e concluindo que as observações antigas não deixam espaço para o intervalo desaparecido.

O combustível da crença não está na astronomia. Está na expressão "idade das trevas", que a própria historiografia europeia usou por séculos para descrever o período, e que prepara qualquer leitor para aceitar que ali houve um buraco. A tese de Illig apenas transforma a metáfora em aritmética.

O que a hipótese estabeleceu: que a densidade de fontes escritas e de achados datados cai muito na Europa ocidental entre os séculos VII e IX, e que essa queda merece explicação material, não silêncio.

O que ficou sem resposta na proposta de Illig: nenhum documento, nenhuma ordem, nenhuma correspondência mostra Oto III, Silvestre II ou Constantino VII combinando a alteração. Illig segue publicando e nenhuma universidade ou instituição de pesquisa histórica adotou a cronologia curta dele.

A versão mais frágil que circula amplia o corte para mil anos e declara inventada a Antiguidade inteira. Os anéis de carvalho, as tábuas astronômicas árabes e os anais chineses seriam todos falsificações coordenadas entre povos que não trocavam correspondência e não compartilhavam calendário.

A hipótese do tempo fantasma é o caso em que uma conta de três dias de calendário, feita a partir do marco errado, virou acusação de falsificação contra um imperador e um papa. A lição prática: cronologia se confere em fontes que não conversam entre si, e o céu antigo é a mais teimosa delas.

"Quantos séculos cabem num erro de três dias?"

Confira sozinho, em três buscas:
o ano do Concílio de Niceia e a quantidade de dias cortados pela bula de 1582;
o mês e o ano do registro chinês da passagem do cometa Halley citado aqui;
o ano de consagração da Capela Palatina de Aachen e o ano do primeiro artigo de Heribert Illig sobre o tema.

 
 

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Segundo a tese de Heribert Illig, quais anos do calendário cristão nunca existiram de verdade?

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