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Os 400 jornalistas da CIA segundo Carl Bernstein

Em 1977, Bernstein contou mais de 400 repórteres a serviço da agência. O nome Mockingbird nunca apareceu como programa provado.

Máquina de escrever e pastas secretas numa redação dos anos 1950

Redação americana na Guerra Fria

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A Rolling Stone publicou em 20 de outubro de 1977 a manchete “The CIA and the Media” (A CIA e a imprensa). Abaixo dela vinha um texto de 25 mil palavras, assinado por Carl Bernstein.

A revista tinha nascido em São Francisco, em 1967, como jornal de rock, e naquele ano já publicava reportagem política longa ao lado das resenhas de discos.

O nome pesava. Bernstein tinha 33 anos e acabara de deixar o Washington Post, onde ele e Bob Woodward cobriram o caso Watergate, a investigação que derrubou o presidente Richard Nixon em 1974.

A tese do artigo cabia num parágrafo. Segundo Bernstein, mais de 400 jornalistas americanos tinham feito trabalho para a Agência Central de Inteligência nos 25 anos anteriores, entre 1952 e 1977.

O trabalho variava muito. Alguns só trocavam impressões com agentes depois de uma viagem. Outros guardavam segredo sobre o que viam, carregavam recados ou emprestavam o próprio cargo de correspondente para cobrir um espião.

Bernstein dizia ter lido documentos da agência e entrevistado funcionários dela, alguns ainda na ativa. Ele não publicou os 400 nomes. Citou poucos, e todos com peso: colunistas famosos, donos de jornal, diretores de rede de televisão.

As redações citadas reagiram no mesmo mês. Algumas negaram, outras admitiram contatos e disseram que eram conversas normais entre repórter e fonte do governo.

Dentro da CIA, a reação foi silenciosa. A agência já tinha mudado a própria regra um ano e meio antes, sob pressão do Senado, e não comentou os números da revista.

Fora dali, o artigo ganhou outra vida. Nas décadas seguintes, os 400 jornalistas viraram, em livros, programas de rádio e fóruns da internet, a prova de uma operação secreta chamada Mockingbird, capaz de controlar toda a imprensa americana.

Entre o que Bernstein escreveu e o que a lenda conta, a distância é grande. Ela começa num colunista de Washington que, em 1953, aceitou fazer uma viagem às Filipinas.

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I  A Conspiração do Dia

Os 400 sem nome na revista

O primeiro caso do artigo era o de Joseph Alsop, um dos colunistas mais lidos dos Estados Unidos nos anos 1950. Em 1953, ele viajou às Filipinas para cobrir uma eleição presidencial, segundo Bernstein, porque a CIA pediu.

Alsop não escondeu a relação quando foi procurado. Disse que tinha prestado favores à agência quando achava que era o certo, e deu nome ao gesto.

“Eu chamo de cumprir meu dever de cidadão”, disse Joseph Alsop, citado por Carl Bernstein em “The CIA and the Media”, na Rolling Stone, em 1977.

O irmão dele, Stewart Alsop, também colunista, aparecia no mesmo texto como alguém que fez trabalhos para a agência no exterior.

Os dois irmãos escreviam juntos uma coluna distribuída a centenas de jornais. Para a agência, um colunista assim tinha acesso a presidentes estrangeiros sem precisar de explicação.

Os donos das redações

O artigo subia até o topo das empresas. Bernstein escreveu que a CIA tinha relação com executivos como William Paley, dono da rede de televisão CBS, Henry Luce, fundador da revista Time, e Arthur Hays Sulzberger, publisher (o dono e editor-chefe) do New York Times.

Nessas casas, segundo o texto, a ajuda era prática. A empresa dava emprego de fachada a agentes, deixava a agência ouvir os correspondentes na volta de uma viagem e, às vezes, entregava material que não chegou a ser publicado.

Segundo Bernstein, as relações mais valiosas da CIA estavam no New York Times, na CBS e na Time.

A CBS e o New York Times contestaram o tamanho da colaboração. Os dois disseram que os contatos eram raros, antigos ou feitos sem o conhecimento da direção da empresa.

O que o texto não provava

O número de 400 veio de fontes da própria agência, e Bernstein não mostrou a planilha. Nenhum documento publicado com o artigo lista os nomes, os anos ou o tipo de tarefa de cada jornalista.

Ele mesmo separou os casos. Um grupo pequeno era de funcionários da CIA com credencial de imprensa como disfarce. A maioria era de repórteres de carreira que, em algum momento, passaram informação ou fizeram um favor.

Até hoje a lista completa não veio a público. A CIA nunca confirmou nem desmentiu o total de Bernstein, e os arquivos sobre fontes na imprensa seguem, em grande parte, fechados por sigilo.

 
 

II  A Origem

O órgão de Frank Wisner

A relação com a imprensa começou bem antes de 1977. Em 1948, Frank Wisner assumiu o Escritório de Coordenação Política, o braço da CIA criado para operações secretas no começo da Guerra Fria.

Wisner gostava de comparar a rede de propaganda dele a um Mighty Wurlitzer (o Poderoso Wurlitzer, o órgão gigante dos cinemas da época). A ideia era tocar uma nota e ouvir a mesma música sair de jornais, rádios e revistas em vários países.

O alvo principal estava fora dos Estados Unidos. A agência financiou em segredo a Rádio Europa Livre, criada em 1950 para transmitir notícias aos países do bloco soviético. O dinheiro da CIA bancou a emissora até 1971, quando o Congresso assumiu o custeio às claras.

Correspondentes americanos no exterior eram úteis por um motivo simples. Viajavam sem levantar suspeita, falavam com ministros e generais e voltavam com anotações que nenhum diplomata conseguia.

Do lado do jornalista, a conta também parecia simples. Muitos tinham servido na Segunda Guerra Mundial, viam a União Soviética como inimiga e achavam natural ajudar o próprio governo.

Nos anos 1950, a CIA tratava o correspondente estrangeiro como fonte, disfarce e mensageiro.

O Senado abre a porta

Em 1975, o Senado criou um comitê para investigar as agências de inteligência, presidido pelo senador Frank Church, de Idaho. Ficou conhecido como Comitê Church.

O pedido nasceu de reportagens de 1974 sobre espionagem dentro do país. Ao longo de 1975, o comitê ouviu diretores da agência, abriu arquivos e publicou volumes sobre complôs no exterior e vigilância de cidadãos americanos.

O relatório final saiu em abril de 1976. Um trecho registrou que cerca de 50 agentes da CIA eram jornalistas americanos ou funcionários de empresas de mídia dos Estados Unidos.

Bernstein comparou esse total com o dele e acusou o comitê de ter amaciado o texto. Segundo o artigo, a agência pressionou os senadores a não publicar nomes, e o relatório saiu com o tema reduzido a poucas páginas.

A regra de fevereiro de 1976

A CIA mexeu antes do relatório. Em 11 de fevereiro de 1976, o então diretor da agência, George H. W. Bush, anunciou o fim de contratos pagos com correspondentes credenciados de veículos americanos, fossem de tempo integral ou parcial.

A regra tinha limites claros. Não proibia conversas voluntárias com jornalistas e não valia para estrangeiros que trabalhavam para veículos de fora.

Também não apagou o passado. As relações antigas foram encerradas aos poucos, e a agência manteve em segredo quem estava na lista quando a regra entrou em vigor.

 

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III  O Combustível

Mockingbird, o nome sem programa

O nome Mockingbird (tordo-imitador, ave que copia o canto das outras) chegou ao grande público em 1979, com o livro “Katharine the Great” (Katharine, a Grande), de Deborah Davis.

O livro contava a vida de Katharine Graham, dona do Washington Post. Davis afirmava que Philip Graham, marido dela e antigo dono do jornal, ajudou Frank Wisner a montar uma rede de jornalistas apelidada de Operação Mockingbird.

A editora Harcourt Brace Jovanovich recolheu o livro ainda em 1979, depois de uma queixa de Ben Bradlee, editor-chefe do Post, contra trechos que o citavam. A obra voltou às livrarias em 1987, por outra editora.

Nenhum documento liberado pela CIA descreve um programa chamado Mockingbird cobrindo a imprensa inteira.

Davis apoiava a tese em fontes sem nome e num memorando citado de segunda mão. O papel original nunca apareceu, e o nome passou de livro em livro como se fosse um programa com orçamento e chefe.

Com a internet, o termo ganhou fôlego novo. Hoje aparece em vídeos e fóruns como explicação pronta para qualquer notícia de que o leitor desconfia, sem data nem fonte.

O que está documentado

O lado provado é menor e mais concreto. Há o artigo de Bernstein, o relatório do Comitê Church, a regra de Bush de 1976 e o financiamento secreto da Rádio Europa Livre até 1971.

Esses papéis mostram relações com pessoas e com redações, quase sempre no exterior e quase sempre na Guerra Fria. Mostram colunistas que aceitaram pedidos, executivos que abriram portas e agentes com credencial falsa.

O que virou lenda

A versão popular junta tudo num plano único, com a CIA ditando manchetes de todos os jornais americanos, e estica o plano até hoje.

Nenhuma das fontes de 1975 a 1977 sustenta essa versão. Os documentos falam de dezenas a centenas de casos ao longo de 25 anos, numa imprensa com milhares de repórteres, e de colaboração caso a caso, sem comando central.

Bernstein escreveu o contrário da lenda: segundo ele, a maior parte dos jornalistas citados ajudava por convicção patriótica e de forma ocasional, sem receber ordens sobre o que publicar.

O que segue sem resposta tem motivo conhecido: os nomes dos 400 nunca saíram porque os arquivos de fontes da CIA continuam sob sigilo, e só uma liberação oficial diria quem fez o quê.

Confira sozinho, antes de repetir a história dos 400:

• a data da edição da Rolling Stone com o artigo, 20 de outubro de 1977;

• o dia da regra anunciada por George H. W. Bush, 11 de fevereiro de 1976;

• o ano do livro de Deborah Davis com o nome Mockingbird, 1979.

 
 
 

Quiz da edição

Segundo o relatório final do Comitê Church, publicado em abril de 1976, quantos agentes da CIA eram jornalistas americanos ou funcionários de empresas de mídia dos Estados Unidos?

AMais de 400
BCerca de 200
CCerca de 50
DCerca de 25

Veja o ranking de quem mais acerta →

 

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