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Os 6 caçadores de patos que desenharam o banco central americano
Em novembro de 1910, 6 homens foram à ilha Jekyll com nomes falsos. Em 1994, um livro fez da viagem um plano de domínio mundial.
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Clube da ilha Jekyll, Geórgia, 1910
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A revista americana The Saturday Evening Post publicou em 9 de fevereiro de 1935 a confissão de um banqueiro aposentado de Nova York: "Eu fui tão reservado, na verdade tão furtivo, quanto qualquer conspirador".
O banqueiro era Frank Vanderlip, ex-presidente do National City Bank, o maior banco dos Estados Unidos no começo do século 20. A frase estava nas memórias dele, publicadas em capítulos pela revista com o título From Farm Boy to Financier (Do menino da fazenda ao financista).
Vanderlip contava uma viagem de novembro de 1910. Numa noite fria, ele embarcou num vagão particular de trem na estação de Hoboken, em Nova Jersey, com as persianas fechadas e instruções de chegar sozinho, sem conversar com ninguém na plataforma.
Dentro do vagão estavam outros 5 homens. O dono era o senador Nelson Aldrich, de Rhode Island, chefe da comissão do Congresso que estudava a reforma do dinheiro americano. Os demais eram banqueiros e um alto funcionário do Tesouro.
O combinado era usar só o primeiro nome. Para os funcionários do trem, o grupo ia caçar patos no sul. Vanderlip chegou a levar uma espingarda que, segundo ele mesmo, não sabia usar direito.
O destino era a ilha Jekyll, na costa da Geórgia, sede de um clube de caça frequentado pelas famílias mais ricas do país. O clube foi esvaziado de hóspedes para a visita, e os empregados receberam ordem de não perguntar nada.
Os 6 passaram cerca de 10 dias trancados numa sala do clube. Saíram de lá com o rascunho de um banco central para os Estados Unidos, país que não tinha um desde 1836.
Três anos depois, o Congresso aprovou o Federal Reserve (o banco central americano, chamado de Fed), que hoje controla os juros e a moeda mais usada no comércio do mundo. A pergunta que a confissão de Vanderlip deixou é simples: o que exatamente foi decidido naquela ilha, e por quem.
A resposta mais famosa não veio de historiador. Veio de um livro de 1994 que transformou a caçada de mentira num plano de domínio global.
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I A Conspiração do Dia
O livro que chamou o Fed de criatura
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Em 1994, o escritor americano G. Edward Griffin publicou The Creature from Jekyll Island (A criatura da ilha Jekyll), livro de mais de 600 páginas que apresenta o Fed como um cartel de banqueiros disfarçado de órgão público.
A tese de Griffin começa pela lista de convidados. Com Aldrich e Vanderlip viajavam Henry Davison, sócio do banco J.P. Morgan; Paul Warburg, sócio do banco Kuhn, Loeb; Benjamin Strong, do Bankers Trust; e A. Piatt Andrew, secretário assistente do Tesouro.
Para Griffin, a soma dos bancos representados naquela sala controlava uma fatia enorme da riqueza do planeta. O argumento dele é que homens com esse poder não viajam disfarçados para fazer caridade.
O livro sustenta que o grupo desenhou um sistema em que os próprios bancos criariam dinheiro do nada, emprestariam esse dinheiro ao governo e cobrariam juros de toda a população. A inflação, na leitura dele, funciona como um imposto escondido que ninguém votou.
Griffin vai além da economia. Ele liga o Fed ao financiamento de guerras, à Primeira Guerra Mundial e até a planos de um governo mundial, e sustenta que cada crise desde 1913 serviu para concentrar mais poder nas mãos dos mesmos bancos.
O livro trata o segredo da viagem como a prova central. Se os 6 homens tivessem boas intenções, pergunta o autor, por que usar nomes falsos, fechar persianas e inventar uma caçada?
Como a tese se espalhou
A obra saiu por uma editora pequena da Califórnia e virou fenômeno fora das livrarias comuns. Circulou em rádios de ouvintes conservadores, em palestras do próprio Griffin e, depois, em vídeos na internet.
Em 2008, a crise financeira deu nova vida ao livro. O Fed injetou trilhões de dólares nos bancos, e muita gente que nunca tinha ouvido falar da ilha Jekyll passou a procurar quem explicasse por que os bancos foram salvos e as famílias não.
O ex-deputado Ron Paul, candidato à Presidência dos Estados Unidos em 2008 e 2012, fez da frase "acabem com o Fed" um bordão de campanha e costumava citar Jekyll como a certidão de nascimento do banco.
O livro segue em catálogo três décadas depois. A ilha, que era nome de clube de milionários, virou sinônimo de reunião secreta que decide o destino do dinheiro de todos.
A força da tese está numa mistura rara: os fatos básicos são verdadeiros. Houve viagem, houve disfarce, houve banqueiros, houve um plano. A pergunta é o que o plano dizia de fato.
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II A Origem
Dez dias num clube de caça
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A reunião da ilha Jekyll aconteceu por causa de um susto: o Pânico de 1907, corrida bancária em Nova York que só parou quando o banqueiro John Pierpont Morgan trancou os colegas na biblioteca dele e os obrigou a socorrer os bancos em apuros.
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Os Estados Unidos não tinham um banco central que emprestasse dinheiro aos bancos em dia de pânico. Quem cumpriu esse papel em 1907 foi um único homem de 70 anos, e o Congresso concluiu que o país não podia depender da saúde de Morgan.
Em 1908, a lei Aldrich-Vreeland criou a Comissão Monetária Nacional, presidida pelo senador Aldrich. A comissão viajou pela Europa estudando os bancos centrais da Inglaterra, da França e da Alemanha e publicou mais de 20 volumes de relatórios.
Faltava transformar os estudos em projeto de lei. Aldrich escolheu a ilha Jekyll porque Davison e o próprio Morgan eram sócios do clube, e porque ali ninguém da imprensa apareceria.
O segredo tinha motivo político. Em 1910, banqueiro de Wall Street era figura odiada no interior do país, e qualquer projeto com a assinatura deles morreria no Congresso antes de ser lido. Vanderlip escreveu em 1935 que, se a reunião viesse a público, o trabalho seria perdido.
O que saiu da sala
Paul Warburg, que tinha conhecido o sistema alemão por dentro, fez a maior parte do desenho técnico. O texto previa uma Associação Nacional de Reserva, com 15 filiais regionais, controlada pelos bancos associados.
Esse texto virou o Plano Aldrich, apresentado ao Congresso em janeiro de 1911. E a tese do livro costuma pular o destino dele: o Congresso engavetou o Plano Aldrich sem aprovar.
O Partido Democrata ganhou a Câmara em 1910 e a Presidência em 1912, com Woodrow Wilson. Os democratas rejeitaram o controle direto dos banqueiros e escreveram outra lei, conduzida pelo deputado Carter Glass, da Virgínia.
A lei de Glass criou 12 bancos regionais e uma junta em Washington com membros nomeados pelo presidente da República e aprovados pelo Senado. Wilson assinou o Federal Reserve Act em 23 de dezembro de 1913.
Quem põe os dois textos lado a lado encontra a mesma herança: a lei final aproveitou a ideia de reservas regionais nascida na ilha, mas trocou o comando privado por controle do governo. Warburg e Strong ganharam cargos no sistema, Warburg na junta e Strong no banco regional de Nova York.
A reunião não foi segredo por muito tempo. O jornalista B.C. Forbes, fundador da revista Forbes, contou a viagem em 1916 na revista Leslie's Weekly, quase 20 anos antes da confissão de Vanderlip.
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